ÚNICO JEITO DE ESQUECER ALGUÉM

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Você não esquece virando as costas. Você não esquece fugindo. Você não esquece ninguém evitando encontros. Você não esquece apagando as fotos e excluindo os telefones. Você não esquece jogando fora os pertences. Você não esquece cortando o cabelo e os hábitos. Você não esquece trocando de personalidade e de emprego. Você não esquece mudando o percurso dentro da cidade, você não esquece nem mudando de país.

Você não esquece ninguém ao longe, distante, sem contato nenhum.

Você não esquece parando de pensar e de escrever. Você não esquece com paixões ou acumulando casos. Você não esquece desprezando conselhos. Você não esquece off-line. Você não esquece trocando a carência da saudade pela prepotência da mentira. Você não esquece omitindo nomes e recortando histórias. Você não esquece passando por cima da realidade e atropelando fatos. Você não esquece destilando ódio e rancor. Você não esquece arquitetando vingança e planejando respostas de conversas passadas. Você não esquece contando os dias de abstinência. Você não esquece fingindo desinteresse. Você não esquece dando de ombros, limpando os ombros, beijando os ombros. Você não esquece tomando ansiolítico e antidepressivo. Você não esquece fazendo greve de fome e de prazer. Você não esquece abandonando os amigos. Você não esquece forçando amizades. Você não esquece adotando outras religiões.

A culpa não ajuda a esquecer. A maldade não ajuda a esquecer. A indiferença não ajuda a esquecer.

O único e verdadeiro jeito de esquecer é vendo de novo e não sentindo mais nada.

Fabricio Carpinejar, publicado em: https://www.facebook.com/carpinejar/?hc_ref=NEWSFEED&fref=nf

 

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Carta a Beatriz

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[…] Há as mulheres que elegem as roupas nos cabides. São práticas. Já conhecem o que desejam vestir. Buscam o que precisam e podem até se demorar nas combinações, mas não sofrem com as hipóteses das vidas. Seguem uma rotina: roupa de trabalho, roupa de sair. Pragmáticas, funcionais, diminuem os danos, prevenindo ao máximo a desorganização e o tormento para colocar as coisas de volta ao seu lugar.

Você não, faz parte de um segundo grupo, criativo e insaciável. Qualquer dia é uma invenção de si mesma. Derruba o armário sempre. Não importa o que seja e para o que seja. Fará a maior bagunça no quarto. Não sofre com o que terá que arrumar depois. Pode ser um passeio simples ao cinema ou uma visita à padaria. Uma data nunca será igual a outra. Acredita que o armário é mais um espelho do que um cofre.

O sentimento é maior do que a circunstância. Define a pele do dia – além das aparências profissionais e de lazer – pelo estado de espírito: ora você veste a esperança, ora você veste o amor, ora você veste a fé, ora você veste o humor. Você veste o que sente.

Nossa casa é uma loja. Igual a uma loja. Mantém uma curiosidade de alfaiate, vejo uma máquina de costura em seus braços criando bainhas e mangas de olho.

Os cabides não são suficientes para determinar as escolhas. Pega uma porção deles indiscriminadamente e deita as peças na cama antes de optar com qual vai sair. Só consegue julgar as opções com os tecidos estendidos. As roupas são seus amantes, abertos ao tato, com a nudez da cor exposta, cobrindo a brancura dos lençóis.

Quando você vestiu o meu corpo, eu guardava a consciência de que precisava me esforçar, de que deveria mudar a cada manhã para surpreendê-la. Não havia como ser monótono. Não era simplesmente recobrar o que deu certo uma vez.

Você não perdoa homens que se repetem. Casar com você é uma aventura imprevisível. Não há garantias de eternidade. Sorte que sou poeta – chamei todos os meus personagens e livros para me ajudar.

Te amo. […]

Carta escrita por Fabrício Carpinejar, disponível em: https://www.facebook.com/casamentobeatrizcarpinejar

OFICINA DO DIABO

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Não sou terapeuta de minha mulher. Não sou o melhor amigo. Não pretendo resolver os seus problemas ou traumas. Não tenho a intenção de me sentir superior, disfarçar os meus limites e dar lição de moral.

Quando converso, é de igual para igual. Não há somente um desabafando e um segundo ouvindo e interpretando. Sou o seu homem, o seu presente, o seu futuro, o que significa que a nossa cama não é um divã, muito menos um mausoléu.

Não aceito, portanto, que fale de ex. Não falarei igualmente dos meus antecedentes criminais. Casal que passa a limpo antigos relacionamentos se prende ao passado. É um dos grandes erros da intimidade – achar que se deve contar tudo o que se viveu antes para se prevenir dos desacertos. O efeito é o contrário: desencadeia uma comparação ciumenta sem limites.

No par amoroso, acontece a predisposição de revisar os erros e explicar o que não funcionou, ainda mais quando as rupturas são recentes. Esquece-se que toda relação é um dialeto e o que se aprendeu num romance não é aplicável no próximo.

Desenganado, o casal atravessa a madrugada narrando a linha de tempo dos namoros, casamentos e separações. O que parece inofensivo é a oficina do diabo. As fragilidades serão testadas nas brigas: você sabe que a outra pessoa foi abandonada e ameaça largá-la como chantagem nas horas em que perde a razão, você sabe que a outra pessoa sofreu com as mentiras e abusa do excesso de detalhes para torturá-la nos momentos de crise, você sabe que a outra pessoa foi infiel e verifica a veracidade de seus compromissos. A maldade vem do poder e da informação.

Quando o casal está bem, é óbvio que os segredos permanecem preservados. Mas, quando está mal e inseguro, sai de perto, a confidência retorna distorcida. Aquilo que é soprado no ouvido e reservadamente termina repetido no megafone. No desespero, não há pudor para atacar o ponto fraco de quem nos acompanha – e os relacionamentos desfeitos representam um mapa propício para invasões de personalidade.

As indiscrições sobre o ex alimentam mágoas e ressentimentos, além de garantir uma sobrevida incômoda a uma ausência e ressuscitar um velho contato.

O paralelo com os fantasmas é inevitável. Cria-se uma insegurança de que o nosso par já foi mais feliz ou amou melhor um dia. Não é improvável colocar na balança o que realiza para você e o que realizou anteriormente, sempre pensando que amarga uma desvantagem.

A amnésia é o anjo da guarda do amor. A memória tem que ser do aqui e do agora, fechando o espaço para as intrigas, rompendo vícios de vitimização e melancolia e abrindo-se para a porção da alma desconhecida e surpreendente de cada um.

Fabrício Carpinejar, publicado em: jornal Zero Hora (Caderno Donna, p. 28 – Sábado e domingo, 14 e 15 de maio de 2016. Edição N° 18525)

DIFERENTE DE VOCÊ

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Minha amiga, você tem pavor de fazer promessas e dividir ilusões. Você abomina a ideia de pertencer novamente a alguém. Você recusa planos, evita expectativas, não suportaria a reincidência da frustração. Nem dorme para não sonhar, nem sonha para não acordar, nem relaxa para não ceder suas reservas ao cansaço.

Você me diz que está traumatizada por antigos relacionamentos. Você está arredia, temerosa, vacinada. Você está cautelosa, consciente, ressabiada. Você não cometerá os mesmos erros, trocará o percurso para mudar o jeito de caminhar, como se o caminho já não estivesse preso ao ritmo da cintura.

Você me avisa de suas reservas, de seus desfalques, de suas limitações, do pouco que pode oferecer. Você impõe suas dores, a pretexto de ser sincera a qualquer custo. Mesmo que seja necessário atropelar, passar por cima, patrolar todos que não concordam.

Confunde maturidade com amargura, sabedoria com prevenção, discernimento com ceticismo.

Fico com vontade de rir, rir de nervoso, rir de bobo, rir de tolo, rir de idiota, já fui você e desaprendi rapidamente. Já acreditei que, endurecendo a pele, o osso estaria menos exposto.

Mas, diferente de você, não serei sincero, serei gentil. A gentileza é sinceridade emocionada. A gentileza é confiar desprezando o que foi vivido, é confiar sendo inédito.

Diferente de você, não empobrecerei a minha vida para sofrer menos.

Minha imaginação é livre, meu coração é livre, meu corpo é livre para tombar ou subir. O medo seria o fim da minha liberdade.

Diferente de você, largarei os traumas na sala de espera da terapia ou restringirei quem não tem culpa do meu passado. Pois o futuro não é rascunho do passado, o futuro ainda não é nada.

Diferente de você, cada encontro sairá das órbitas dos velhos amores, do repuxo dos astros, da ressaca das estrelas; cada romance terá suas leis, sua força, sua química, sua honestidade ignorante, esta crença de dar certo como nunca antes.

Absurdamente diferente de você, a fé e a esperança não andam juntas, a minha fé começa quando termina a esperança.

Fabrício Carpinejar, publicado em: https://www.facebook.com/carpinejar/

Apaixonado

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Se estou apaixonado, eu aparo a barba, ajeito o cabelo, dobro as borrifadas do perfume, visto roupa nova, engraxo os sapatos, escolho a melhor cueca, reviso as meias para não usar nenhuma com furo, escovo os dentes seis vezes ao dia, volto à academia, largo o terapeuta.

Se estou apaixonado, não basta me arrumar, eu tenho que deixar a casa prendada. Pago faxineira, retiro as tralhas dos fundos, conserto a maçaneta frouxa há um ano, troco o chuveiro frio, compro incenso e aromatizador, seleciono velas com cheiro, gasto em ridículos sabonetes coloridos, descarto toalhas velhas e esfarrapadas, seleciono novos lençóis e roupa de cama, passo na feira para escolher as melhores frutas, forro a geladeira de cerveja.

Limparei ainda o carro coberto da poeira da estrada, esvaziarei o lixo do chão, aplicarei cera na carcaça para renovar o brilho.

Se estou apaixonado, não basta me arrumar e arrumar a casa e arrumar o carro, eu me preocupo com o interfone do prédio que não funciona direito, com as luzes apagadas do corredor, com a porta emperrada da saída da garagem. Peço providência pessoalmente ao zelador e por escrito ao condomínio. Posso virar síndico somente para dar um jeito logo e impressionar quem desejo. Eu me antecipo a contratempos e adversidades. Não pretendo que nada atrapalhe o que estou sentindo. Serei jardineiro, mecânico, pedreiro, todas as profissões de muque. Buscarei também sofisticação em tutoriais do YouTube: aprenderei receita de risoto siciliano, decorarei passos de forró, assistirei a degustações de vinhos.

Se estou apaixonado mesmo, não basta me arrumar e arrumar a casa e arrumar o carro e arrumar o edifício onde moro, eu começo a escrever ao Dmae para corrigir vazamento na rua, telefono para a Secretaria de Obras para melhorar a iluminação da praça, peço que cortem a grama dos canteiros em meu bairro, incomodo para que seja pintado o meio-fio apagado. Eu me transformo em vereador voluntário, em prefeito de graça. Não me importo em suar, trabalhar, penar, cansar. A vadiagem acabou. Quero deixar tudo bonito para o meu amor passar.

Se estou apaixonado de verdade, sou capaz de fazer em uma semana tudo o que adiei a vida inteira.

Deus já deveria estar apaixonado pela mulher quando criou o mundo em sete dias.

Fabricio Carpinejar, publicado em: https://www.facebook.com/carpinejar/?fref=ts

Amizades definitivas

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Amizade vai além do momento.

É comum ser amigo de contextos idênticos e se distanciar com os hábitos diferentes.

Quando você está solteiro, o normal é fazer cumplicidade com quem frequenta festas e não se apega a uma relação. Quando está casado, o normal é criar laços com outros casais e privilegiar jantares e viagens. Quando está com filhos, o normal é sair com quem também está conhecendo as manhas e as longas manhãs dos bebês.

Amizade verdadeira ultrapassa a normalidade e o oportunismo do convívio.

Estas nem são amizades verdadeiras, mas afinidades circunstanciais. São colegas de uma época, de uma fase, de um estilo. Acabam unidos provisoriamente por um gosto, circunscritos a uma vizinhança etária. Desaparecem diante de nossa primeira mudança, de nossa primeira transformação de personalidade.

Permanecem quando há um interesse imediato, um arranjo benéfico do cotidiano, e somem quando não existe mais uma desculpa para se ver e se ouvir. Dependem de um pretexto para se manter próximos.

Os conhecidos da academia ficarão no passado dos halteres assim que cansarmos dos treinos.

Os conhecidos da faculdade ficarão na lembrança do quadro-negro assim que nos formarmos. Os conhecidos dos cursos de idiomas ficarão nos livros de exercícios assim que dominarmos uma nova língua.

Amigo mesmo é o que não experimenta uma fase igual e permanece junto. Quebra o espelho e não se machuca com os cacos.

Amigo mesmo é o que não tem filho e vem brincar com nossas crianças, não reclama dos gritos e dos choros e não diz que “pela trabalheira, não pensa em ser mãe ou ser pai tão cedo”. Não se justifica, está lado a lado qualquer que seja o cenário.

É aquele que se separou e não amaldiçoa nossa paixão recente. É aquele que não tem emprego fixo e não inveja o nosso sucesso. É aquele que não tem nenhum problema grave e escuta com paciência e atenção as nossas lamúrias.

Não é o de empatia fácil, feita de experiências semelhantes: só porque atravessa a fossa entende a nossa fossa, só porque transborda de alegria festeja a nossa alegria. Amigo não dá nem para contar nos dedos, pois sempre estará segurando nossa mão.

Fabricio Carpinejar

ENTRA OU SAI

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Se deseja o bem do outro, amar é decidir.

Há aquele que não quer se afastar, só que não suporta ficar perto.

Há aquele que não consegue permanecer longe, porém não se esforça para conviver.

Há aquele que não sai definitivo de sua vida, muito menos entra de verdade.

Há aquele que não se despede e também não assume as dificuldades do recomeço.

Há aquele que não larga as lembranças, entretanto não promete mais nada.

Há aquele que não está junto, mas não está longe.

Há aquele que sente saudade quando distante e reclama do ódio quando perto.

Há aquele que não desaparece e tampouco ressurge, que não destrói de uma vez por todas a relação, tampouco reconstrói os laços.

Há aquele que não pretende se encontrar para não sofrer, só que não para de telefonar e mandar mensagens.

Há aquele que tortura com amor, bate com o beijo, perdura a mala em gaveta.

Há aquele que não esquece o passado e também não desobriga a sua companhia a seguir em frente.

Aquele é você.

Não resolve, não se define, nem vem nem vai, sempre em cima do muro das palavras.

Sem esperança, sem fé, sem confiança, prende a pessoa pelo ressentimento. Empaca romances, não liberta seu prisioneiro para a possibilidade de novos amores.

A relação se transforma num purgatório, numa cobrança insolúvel de dívidas, que jamais serão quitadas pois não existem dias felizes para fazer esquecer as datas infelizes.

Se deseja o bem do outro, amar é também desistir.

Fabrício Carpinejar

TRABALHO SUJO

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Não acredito na chatice isolada.

Quando alguém comenta que a esposa ou a namorada de um amigo é uma mala já farejo cheiro de mentira.

Não é que ela é chata, ela só realiza o trabalho sujo. Ou seja, é desagradável e direta porque faz pela frente o que o amigo pensa pelas costas.

Protagoniza a consciência da dupla. O amigo é tão chato quanto, apenas não tem coragem de expor suas verdadeiras opiniões e repassa a culpa para sua mulher. Ele toma para si a fama de simpático e transfere os problemas para a conta de sua companhia.

Deixa de frequentar lugares e recusa convites sempre com a alegação de que sua mulher não quer ou não pode. A esposa/namorada transforma-se no bode expiatório e na desculpa perfeita para a imobilidade. Na realidade, é ele que não deseja ir e jamais assume a sua dívida. Prefere ver o circo pegar fogo a domar o leão de sua vontade.

O que ele não percebe é que, para se proteger, cria um ódio gratuito. Dentro de casa defende a dependência e fora de casa se põe como vítima de uma prisão. Dá a entender que perdeu a identidade e a liberdade de solteiro. Antes, podia tudo. Agora, do lado dela, não pode nada.

Terminará tragado pela vaidade (no fundo, puro egoísmo) de ser reconhecido como melhor do que sua cara-metade. Situação agravada pela sua mania de dizer sim sem ponderar e se arrepender de imediato.

Não existe vilã, muito menos herói. O maniqueísmo disfarça um consenso familiar. A mulher é que telefona ou oficializa a notícia ou fala abertamente das intenções do casal, não é uma tirana emitindo sentença unilateral. Cumpre a posição de mensageira de algo que se definiu consensualmente.

Mas o preço da farsa é alto. A mulher ficará conhecida como uma megera, quando é ele que não divide a parcela de responsabilidade pela decisão a dois.

Desconfio quando escuto frases do tipo “como pode um cara tão legal estar com uma pessoa tão chata”. Deveria ser reformulada, para o bem da transparência: “como um cara tão legal permite a sua mulher ser vista como chata”.

Amor é também dividir a rejeição.

Fabricio Carpinejar, publicado em: https://www.facebook.com/carpinejar?fref=nf

MANIA DE GRANDEZA DO SOFRIMENTO

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Sempre sabemos por que estamos tristes, mas nunca expressamos o motivo de nossa alegria.

Sempre passamos adiante as causas de uma separação, mas nunca as razões do relacionamento.

Sempre temos na ponta da língua o que nos faz odiar alguém, mas nunca conseguimos definir o que nos faz amar alguém.

Somos ótimos para julgar, somos péssimos para elogiar.

Sempre encontramos um culpado pela nossa dor, jamais encontramos um culpado pela nossa felicidade.

É necessário mudar nossa tendência para sofrer. Nossa mania de grandeza do sofrimento e nosso complexo de inferioridade do amor.

Somos um Napoleão para sofrer e um zé-ninguém para amar.

Somos doutores e sábios com as nossas tristezas, e preguiçosos com o amor, não defendemos o amor, não explicamos o que sentimos.

Uma imagem não vale por mil palavras. Toda palavra só aceita em troca outra palavra. É dar a palavra e não voltar atrás.

Fabricio Carpinejar, publicado em: https://www.facebook.com/carpinejar?fref=ts