Ligações

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E como eu faço pra não amar suas ligações tarde da noite? No fim do seu dia, da sua diversão. A palavra fim sempre entre a gente, é nosso destino, sempre foi. Me derreto e me seguro, escorrendo pelas mãos, pra cair pelo quarto e não passar líquida pelo telefone. Quero que você me imagine a mais sólida possível, atendendo só mais uma ligação casual. Deus me livre que fosse perceptível meu sorriso de orelha a orelha e meu coração pulando que nem criança.

Esse é o bom dos meios de comunicação, a vantagem em cima do maldito contato pessoal, que entrega qualquer hesitação indesejada. E com você, elas são tantas. Você me provoca, eu te provoco. É como sempre, chumbo trocado, amor afiado, a especialidade da casa. A gente não se procura, se rende, essa é a palavra.

Reluto, bato pé pra não atender aos seus pedidos em tom de brincadeira, que no fundo, é só um pedido sincero, do que o seu coração precisa e você tenta esconder também de você próprio. Não e não, porque eu preciso também e preciso bem mais! “-Vou desligar.” “-Tá bom.”, mas nunca desliga. E de repente eu percebo que isso caracteriza não só as nossas ligações, mas toda a nossa história. Todo o nosso amor.

Marcella Fernanda

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Mulherengo nato

Jessica Lowndes and Trevor Donovan film some kissing scenes for "90210" at the beach in Santa Monica

Mulherengo nato, viciado em rabo de saia, nunca me enganou. Carinho não se nega, coração não se entrega e assim ele vivia, eu sabia, sempre soube. O que não dava nem pra imaginar, era o vício que podia surgir no cara mais descompromissado do mundo. Eu na gaiola aberta de um libertino, sem forças e vontade de sair. Que loucura.

E como se cura o efeito do cachorro com o melhor latido desse mundo? Jogo baixo. É que esse tipinho me fascina, esse jogo de lançar a bolinha e deixar ele buscar, trazer de volta. Mas não esse, se eu jogasse qualquer coisa, eu correria junto com ele, só pra não perder um minuto da companhia. Pra não ficar nem um segundo sem a minha dose da vacina, que ao invés de sarar, me deixava mais dependente dele, da cabeça aos pés.

“Eu sou diferente de todos os outros”, mais uma vez eu ouvi a frase mais batida desse mundo, fala oficial dessa gente sempre igual. Mas não dessa vez! Eu senti isso desde o primeiro instante e, diferente do comum, ele afirmava ser negativamente diferente, não tinha jeito e fazia questão de não ter. Não era uma condição, mas sim uma opção.

Agora vê se pode, me injetar toda essa loucura na veia e, numa fração de segundos, me privar de você! É injusto, impossível e eu sei que você me quer, então pra que isso? Bati pé, insisti, me lancei. Perdi. Não tinha como domesticar o cachorro mais livre do mundo, não dá. Não tinha coleira que prendesse essa fome de vida e o medo de viver o que não pode controlar.

Marcella Fernanda

Ventania, não brisa.

03

Até hoje, vou te contar, eu penso na mensagem que você nunca mandou, nas coisas que você nunca me disse . Ainda espero, em silêncio e relutante . Lembro da gente nas músicas que você nunca me dedicou .

Sinto saudade de você, que nunca foi meu . Do nós, que sempre foi eu . Saudade da coisa mais linda que já me aconteceu, mas que na verdade, nem chegou a existir . A loucura mais sensata da minha vida ou a sensatez mais louca, quem sabe ?

Amei muito e de verdade, não nego . Ele ou uma idealização, não posso distinguir ao certo, mas era amor e isso não é contestável . E hoje eu me pergunto, com a minha vida seguindo tão bem e a ausência despercebida num canto, se ainda amo . Nada mudou, além de mim, e tudo parece tão diferente, tão distante, tão fora de mim e dessa vez, acredite quem quiser, por repulsa minha .

Mas creio que seja um quase ou pós amor, muito carinho, alguma coisa menor e bonita assim . Porque, seja lá o que ainda resta, é quieto e não grita mais nos meus silêncios, nos meus ouvidos . Não me tira o sono, não me tira o juízo, a paz . Não é espaçoso, muito pelo contrário, compacto .

Dizem que o amor é assim, calmo, sereno, brisa . Mas eu não acredito nesse amor que não invade, não vira do avesso, não desarruma . Não consigo imaginar o amor batendo na porta, comportado no sofá . Esperando você oferecer um copo d’água, café, bolo . Com licença, por favor, muito obrigada .  Não o meu amor, não comigo . Meu amor pula a janela, põe os pés no sofá e pede mais uma almofada . Reclama que tá com fome e abre a geladeira pra ver o que tem de bom . Rouba o controle, muda o canal, faz bagunça . Meu amor é tempestade, terremoto, erupção . Brisa, comigo, só o fim, só sem mim . Sereno, deixo claro, só meu adeus .

Marcella Fernanda