Mulheres inteligentes dão trabalho.

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Homens sentem medo de mulheres independentes.

Começa na conquista. Você precisa ter Q.I em bom estado pra chamar atenção dessa mulher porque ela simplesmente odeia gente burra assim como odeia a mania que os homens têm de simular inteligências citando filmes e livros que nunca leram.

Pior que conquistar, é manter essa relação. A moça inteligente sabe o que quer. Você nunca vai ouvir ela dizer: não sei, talvez ou você quem sabe. – Ela sabe. Ela opina, ela quer muito conhecer o restaurante novo que abriu perto do trabalho, ela defende as próprias idéias nem que pra isso tenha que perder um ou dois amigos e aturar a cara feia de outros. E pior: ela liga no dia seguinte sem problema algum. Essa moça tem tantos planos e ambições que não sobrou tempo pra aprender a jogar os joguinhos de uma relação. Ela chora com o fim do namoro, mas por no máximo uma hora, porque amanhã tem reunião cedinho e se atrasar, nem pensar. Isso sim seria o fim.

É o tipo de mulher que todos os homens sonham, mas não se acham capacitados para ter. – Estagiários.

Preferem a mulher igual, aquela, que todo amigo tem uma. Elas se reúnem em grupinhos e se entendem. Falam amenidades, acham graça de coisas pequenas, discutem marcas de sapatos e beijam seus namorados de cinco em cinco minutos porque a mulher igual tem sempre em mente que se não tratar bem o “zuzuquinho/fofuréco/tutuquinho”, outra igual vem e leva.

As respostas mais usadas são: não sei, talvez e você quem sabe. Ela nunca sabe. Concorda pra agradar o namoréco, come carne mesmo com vontade de comer frango, pinta as unhas sempre do mesmo tom: clarinho. Não importa a cor, ela diz. Desde que seja clarinho. Ela gostaria de usar laranja, verde ou tomate, mas isso seria ousar e tem mais: vai que o namorado não gosta?

A Francesinha sobrevive até hoje graças a essa mulher.

A mulher igual usa saia cintura alta, baixa lançamentinhos no seu celular de capinha rosa. Ela adora rosa. Antenada com tudo que “está se usando” com medo de parecer brega, é escrava da moda, assim como da relação fofuréca.
É o tipo que faz do seu Facebook e do namorado um só. Foto do casal no perfil: Maria e Pedro [Foto de beijinho e imagem de um coração em forma de emoticon]. – Alí ela perde parte do dia postando fotos de biquinho e do churras no find com my love eterno.

Homens acham bacana esse tipo, mas é mais fácil de lidar e de manter. Como uma planta: a gente bota ali e ela fica. Só regar vez ou outra pra não morrer.

Mulheres inteligentes crescem mesmo se você não regar.

Vanessa Pinho, publicado em: http://wp.clicrbs.com.br/poraqui

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Quero ir pra casa

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O celular tocou duas vezes enquanto estava no banho. Era uma ligação e uma mensagem. Não era mensagem, nem ligação. Estou com frio. Estou ouvindo bips que sempre parecem os meus, mas nunca são. Meu celular não toca, nem por engano.

Eu tenho vinte e poucos anos e estou aprendendo a andar de novo.
Hoje foi a primeira vez que entrei sozinha no shopping sem você. Estava de pé, mas me arrastando mentalmente.
Entro em um restaurante que nunca jantamos pra me sentir outra pessoa. Peço gorduras. De nada adianta ter saúde agora. Lavo as mãos. Eu errei e preciso me limpar. Não existe produto no mundo que lave a alma.

Meus ombros estão caídos como uma adolescente que veste preto e tem rosto branco e só estou ali porque sei que devo dar a volta por cima, me dizem. Quero engatinhar, quero ir pra casa e me encolher como um feto.

Não me informem sobre liquidações imperdíveis, nem sobre capinhas legais de iPhone. Não quero ver filmes bons, nem comprar camarotes. Não me liguem. Não posso atender agora.

Não quero saber sobre shows internacionais e oportunidades. Quero ir pra casa. Qualquer lugar desse mundo me parece muito longe de você agora.

Me vejo em uma roda de amigos depois de ter feito um esforço grande pra ninguém me notar. Eles acham graça de coisas que eu não consigo achar nem com muito empenho. Escuto histórias sobre pessoas que não conheço bem e concordo duas ou três vezes com coisas bobas só pra não parecer louca.

Estou cansada desse mundo de gente que ri sem motivo, se veste engraçado e bebe coisas caras só pra pertencer. Eu quero saber onde você está.

Quero saber se você tomou o remédio na hora certa, se está estudando pra concurso, se cortou o cabelo do mesmo jeito ou se está feliz, mas estou no meio de um grupo de pessoas bem vestidas que disputam pra saber quem foi mais curtido por um famoso no instagram. Quero ir pra casa. Risadas alheias me deixam tensa quando estamos separados.

Não quero ouvir alguém pedir pra eu parar de chorar dizendo que o fim é sempre um começo. Quero ir pra casa usar roupas feias e prender o cabelo com grampos.

Eu deveria ler um livro, ver uma peça em cartaz, comer sushi ou fazer um desses programas que se faz quando fica solteira sem querer, mas quer mostrar ao mundo que é por escolha e está se curtindo, se amando, se conhecendo. Mas não quero me distrair. Quero focar na minha dor. Mereço sentir cada minuto a sua ausência. Você disse tantas vezes pra eu não te mandar embora e eu mandei. E você foi, porque você se ama tanto quanto eu te amo e eu passei a te admirar muito mais depois disso.

Eu não estava preparada pra ter você, assim como uma criança de dois anos não tem idade pra ganhar um brinquedo caro. Você é caro e eu quebrei o nosso namoro. Ganhei antes do tempo e não soube usar.

Vanessa Pinho

Carta

Eu pensei em começar escrevendo esse texto com alguma frase legal, de algum escritor legal, ou com algum trecho sem pé nem cabeça, desses que a gente lê e coloca no perfil do orkut só pra dar uma idéia de ser alguém muito cult. Mas achei bem mais justo começar escrevendo sobre o fato de que eu não tenho a mínima idéia de como começar. Eu não sei o que te dizer. E eu não quero te convencer. Porque eu to com preguiça de fazer isso agora.

Eu cheguei a pensar que seria pra sempre. Porque mulher adora esse papo de “pra sempre”. Mas eu sabia que a sua mania de falar olhando para os lados e de sorrir fazendo barulho, mas sem mostrar os dentes, ia acabar com o pouco de paciência que ainda me resta sobre as pessoas e as coisas. E você sabe como é… O tempo vai colocando cada coisa no seu lugar, como o vento, que vai empurrando uma coisinha pra lá, outra pra cá, e quando a gente vai ver…

Eu fiquei um certo tempo falando feito Glória Kalil. Me torturando pra não falar usando os braços porque você dizia que isso era coisa de pobre. E que era brega a mania que eu tinha de emitir sonoridades quando encontrava as amigas nas festas. E dizia que meu perfume de gente chique e meu anel de strass não combinavam com gente que fala com os braços e apertava as amigas na bochecha.

Eu ficava imaginando a tua família, a tua irmã, os teus pais que vão à missa, e o teu melhor amigo que eu adoro tanto. E fiquei pensando que eu queria tanto aquilo pra mim… Só por um tempo, até eu entender de novo que as coisas podem ser boas. Mas aí eu entendi que na verdade eu estava gostando muito, sabe? Demais mesmo.

Da sua família, não de você.

Era chegada a hora de sair.

Eu estava gostando de tudo que tinha ao seu redor, não de você. Eu gostava da padaria que tinha perto da sua casa, dos seus amigos, dos seus discos, não de você.

Porque você tem vinte e poucos anos, a idade ideal pra ser um cego surtado que acha que felicidade total é uma festa Open Bar no final de semana ou andar por lugares badalados com o carro do pai e os bracinhos ajeitados pra fora.

Porque você usa uma sunga branca que é de envergonhar e paga a conta no restaurante sem olhar pro garçom, e isso – honestamente? – me irrita demais. Sabe?

E é claro que agora você surta no domingo à noite, porque domingo a noite é dia de todo idiota surtar. E você sente um frio na barriga e uma total certeza de que é mesmo um idiota. E aí você me liga e eu atendo com uma voz de “agora morre, seu babaca” [eu sei fazer essa voz como ninguém!] e digo um alô estilo o “Boa noite” de Fátima Bernardes e você chega a esquecer o que ia falar. E falo com uma voz que te faz lembrar o quanto você é mesmo um idiota. O quanto você achou o que tanto procurava e não soube lidar.

E eu faço tudo isso, não porque sou uma idiotinha louca do mundo moderno, mas porque queria muito que você aprendesse de uma vez por todas que o mundo não é o seu umbigo e, que se fosse, a sua burrice não caberia dentro dele.

E eu nem deveria te dizer nada, porque você tem mesmo vinte e poucos anos, joga vídeo game e se despede dizendo “beijo no coração” e isso me irrita numa potência absurda e angustiante.

Eu queria te dizer que sinto muito. Eu só queria. Porque na verdade eu não sinto nadinha de nada. Pena serve? Eu sei que você não gosta que sintam pena de você. Mas foi só o que eu consegui sentir, só pra te irritar.

Que tal?

Que tal agora eu dar gritinhos quando encontro amigas por aí? Hã? Eu sei que você odiava essa minha mania que agora eu faço em sua homenagem. Na verdade eu nem queria escrever tudo isso, mas eu achei que seria bem divertido saber que você leu esse texto enorme, todinho, e no fim chegou a uma conclusão terrível e óbvia: o idiota que ela fala no texto, sou eu!

Vanessa Pinho

Fica

Ontem quando estava lá, meio sem paciência pra responder quatrocentas e oitenta vezes o meu nome, e escutar cinco mil vezes “26? Achei que você fosse mais nova” olhei pro lado e vi você. E aí eu comecei com aquela palhaçada toda de não saber o que fazer com as mãos. [Coisas que trago da infância].

Eu ia beber, mas lembrei que não bebo, sou fraca pra bebida e um pouco falante também, o que poderia botar tudo a perder. Acender um cigarro seria legal, eu faria uma cara de “tô nem aí pra você e pro mundo” e ficava pagando de Penélope Cruz, com uma cara blasé de quem está achando tudo um saco. Mas também não fumo. Resolvi bancar eu mesmo. Medo.

Eu estava humildemente linda, num look tipo “moro na Avenida Beiramar Norte, próximo ao shopping” e estava me sentindo aquelas gansas de voz fina que desfilam pelo Iguatemi sábado à tarde, num visual composto por: saia básica, blusa que ganhei da dona da marca e brinco daqueles que agridem logo de chegada, que ganhei apenas pra divulgar a loja também. Ou seja, eu era uma fraude total, mas isso não vem ao caso.

E você me olhava com uma cara de “Eu vim só pra saber se você é legal ou idiota” ou “Eu vim? Haa, nem percebi que eu estava aqui” e eu achava graça, e ficava tentando prestar atenção na música, nas pessoas e no lugar, mas só conseguia perceber você me olhando dos pés a cabeça e pensando “É, até que é legalzinha, nota 6!”

Eu tinha acabado de fazer uma escova progressiva dessas que não alisam muito sabe? Dando um ar de “eu não me preocupo em ser tão lisa, do jeito que estava, eu vim”, tenho amigas lindas que me rejuvenescem a alma, tenho uma família que é tudo, e tinha você ali, na minha frente. O que mais eu poderia querer na vida? Sim, eu queria. Queria saber o que te falar naquela hora e parar de tremer um pouco a perna, se desse.

Eu poderia dizer “Não acredito que te encontrei… Se você soubesse o quanto eu esperei por esse dia. O quanto eu fiquei imaginando as coisas que eu ia te dizer quando te visse e blá blá blá Whiskas Sache” mas eu fiquei imaginando que se alguém me viesse com um papo desses eu ia fazer cara de bonequinho de MSN contente, mas no fundo ia achar brega, bem breguinha, aliás.

E naquela hora eu só conseguia lembrar da cartomante biscatona me dizendo que em 2010 eu iria me apaixonar de verdade. [Elas adoram dizer que a gente vai se apaixonar de verdade].

Lembro que no ano passado ela disse que eu ia fazer uma grande viagem [cartomantes adoram usar palavras como: grande, longa e intensa], mas o mais longe que eu viajei foi até Ilhota, comprar uns biquinizinhos.

Mas com o passar dos minutos você foi fazendo uma cara de “só chegar e levar” e aí comecei a pensar que a cartomante não era tão biscatona assim, e que aquele só poderia ser o meu dia de sorte.

Eu esperei tanto por aquilo que tive a impressão de que as pessoas me olhavam com um ar de “Parabéns magrona, você conseguiu!” E eu fui algumas vezes no banheiro só pra olhar pra minha cara de criança quando passa de ano e se livra da surra em casa. Meio boba, meio muda, um alívio.

Eu já tinha tudo escrito, já sabia como seria, se fosse. Desde quando não sabia nem ler, já tinha essa mania de imaginar a história antes mesmo de ela começar. E naquela noite, a história que ficou guardada durante meses na estante, criando pó, estava ganhando vida.

Era um sentimento sem nome. Uma espera sem motivo. Dias perdidos, que só agora sei que foram perdidos. Mas você nunca vai saber de nada, porque eu não vou te contar. Não vai saber do quanto eu esperei por isso, nem do quanto eu achei o máximo quando você achou o máximo eu ter ficado do seu lado naquela noite.

Não vai saber do quanto eu torrava o saco das minhas amigas com aquele papo todo de você, e nem da esperança que eu tinha de te encontrar naquela noite, mesmo tenho [quase] certeza absoluta que você não iria.

Mas você apareceu e eu não estava preparada pra sua chegada. Porque nunca imaginei que você fosse chegar. Mas você chegou, agora fica!

Vanessa Pinho

Príncipe encantado

Príncipe encantado é aquele que te encanta com coisas que qualquer menina que usa pulseiras de prata e perfume de lavanda acharia besta, mas que considero importante. Importante porque nunca tive certos mimos e agradeço por não ter tido, por não ter vivido nada que tivesse inflado meu ego, pra que eu pudesse então viver isso agora, e dar valor.

O príncipe encantado pode não perceber que você cortou três centímetros do cabelo e nem lembrar o aniversário de namoro, mas ele segura tua mão olhando pra tela do cinema. E não é apenas pelo fato de segurar as mãos, é o jeito de segurar, que dá a impressão que se o mundo caísse ali, só eu me salvaria.

Os casais ao lado comem pão de queijo e sentam jogados na cadeira deixando visível que não estão pra conquista. Eu olho pra esses casais, olho pra sua mão segurando a minha e sinto a sua atenção toda voltada pra mim, ainda que o filme esteja rolando. Nessa hora sinto uma vontade enorme de dizer pra todo mundo “Quem ri por ultimo ri melhor mesmo, né gurias? Sabe? Eu me dei muito mal a vida inteira, mas agora alguém segura minha mão dentro do cinema, e esse alguém é lindo, usa jeans, camiseta branca e canta coisas do Nando Reis.”

Hoje é Dia dos Namorados e eu nem sei como agir… “Feliz Dia dos Namorados” ainda se usa?

Confesso que nunca tinha entendido o fato de ter um dia só pra os namorados. Mas ainda sem entender, devo comemorar, porque esperei muito por um motivo pra comemorar, e hoje você é meu motivo.

Devo comemorar por ter alguém que ande do meu lado, e não atrás de mim, como os casais que vejo fazendo compras na “terça da carne” do Mercado Imperatriz.

Devo comemorar por ter alguém que não me dê flores e nem me leve pra jantar, mas que me escuta, me aconselha, e que me faz acordar todos com uma felicidade matinal pra lá de irritante, ainda que eu odeie pessoas felizes de manhã.

O príncipe encantado é aquele que te abraça quando você estava mesmo pensando em pedir pra que ele fizesse isso.

O príncipe encantado joga bola com os amigos, gosta de beber com os amigos e tem dias que acorda de mau humor e não quer conversar com ninguém, nem com você.

O príncipe encantado é aquele que está do seu lado… Ele tem rinite, canta errado, baba quando dorme, gosta de filmes de guerra, comete erros, tenta consertar e erra de novo…

E ele não vem de cavalo branco como você imaginava…

…Ele vem de pára-quedas e cai na sua vida quando você menos espera.

“Quem não sabe o que procura, não sabe quando encontra.”

 Vanessa Pinho

Ele

Era como passar o dia fazendo compras, ou como goiabada com queijo. Não sei direito. Era mais ou menos essa a sensação que eu tinha cada vez que ele me vinha à cabeça. Ele, que chegou de uma maneira meio louca, como tudo na minha vida, e tratou de ocupar um lugar no meu coração.

Ele tem um olhar que parece resolver os problemas do mundo, inclusive os meus. Uma segurança que cura toda falta que eu sinto de não ter tido alguém que me mandasse levar o casaco porque podia esfriar e que era pra eu tomar sucos de laranja com cenoura.

Ele disse: quero passar o Natal com você! Enquanto que a coisa mais animadora que eu escutei nos meus últimos dias foi: bah, você é muito engraçada, quero que você vá cOmigU na festa do Cebola, 25 pila por cabeça.

Como não se encantar com alguém que diz “quero passar o Natal com você”? Ferrou! Ferrou geral quando ele disse isso.

Eu que já estava acostumada a ficar de cantinho em noites de comemoração, olhando os casais se abraçarem, como se existisse ali uma obrigação de ser feliz e de fazer cara de “nunca brigamos”.

Eu também quero fazer cara de “nunca brigamos” em noite de Natal e ter alguém que me mande mensagens legais na noite de reveillon. Sabe, eu tenho me irritado muito em noites de reveillon.

É como se uma voz, mais irônica do que eu, falasse baixinho no meu ouvido: sim, e aí? Ano vai, ano vem, e você aí, cheia de preguiças das pessoas, olhando para o próprio umbigo, achando que o mundo gira em torno dele! Pelo amor de Deus minha filha, faça alguma coisa por você. Se jogue!

E essa voz me irrita muito sabe?

O ano novo espera de mim, mais do que eu posso dar. Ele me obriga a ser feliz, sei lá, ele me obriga a mudanças, e eu sei que preciso mudar, mas pra onde? Eu estou esperando você aqui, sabe? E não consigo sair do lugar.

Eu também tenho me irritado muito com aquela musiquinha do Fantástico, de quando acaba o programa. Essa música também fica me impondo coisas do tipo: o domingo está acabando… Você não fez nada por você no final de semana. Amanhã já é segunda feira e você não saiu de casa, não conheceu ninguém, nada! Mas amanhã começa a semana e você tem a obrigação de mudar!

Eu odeio domingo. O domingo me encosta na parede, odeio ele. Eu gosto de quarta-feira, que é um dia que eu não tenho a obrigação de ser feliz. Ninguém me cobra nada, ninguém me convida pra uma balada e eu não tenho que inventar coisas para não ir.

Eu adoro ele, e adoro todas as vezes que ele diz que eu preciso me alimentar direito. Eu sei que preciso me alimentar direito, mas quero que ele me diga. Mulher carente é foda! Pior do que mulher maluca. As duas coisas juntas então? Quem encara? Ele.

Eu já disse tantas vezes que eu não sou normal, que eu tenho mania de estragar tudo sempre, porque eu sempre acho que felicidade é igual tragédia, só acontece com os outros. E fico procurando motivos pra provar pra mim mesma que, tanta felicidade assim? Aí tem coisa!

Fico olhando o Orkut dele e querendo saber quem é aquela biscate que deixou recado de coraçãozinho brilhante. Mas ela usa aquelas frases que começam com “O segredo é não correr atrás das borboletas…” e “Já perdoei erros imperdoáveis…” e como se não bastasse, ainda bate fotos de si mesma, mostrando os peitos e a boca fazendo um biquinho ridículo e escreve “Euzinha” na legenda.Pessoas que escrevem “Euzinha” chegam a me dar bolinhas pelo corpo.

Odeio quem escreve “Bom find” ou “Fotos do churras”. E se ela escrever “Foto do churras no find”, eu quero morrer agora! Eu odeio essa forma ridícula que as pessoas escrevem hoje em dia. É como se elas precisassem a todo custo provar para o mundo o quanto são idiotas, sabe?

E eu sei que ele odeia isso. Ele odeia pessoas normais, que se parecem, que vão aos mesmos lugares sempre, que usam as mesmas roupas de grife.

E eu odeio aquela biscate do recadinho brilhante. E eu aposto que ela usa perfume da Natura, de erva doce, aposto. E aposto também, que naquele álbum privado (merda!) que ela tem no Orkut, deve ter inúmeras fotos de baladas, e ela fazendo cara de “pegadora” (já falei sobre o horror que eu tenho de menina com cara de pegadora?).

Eu também odeio o Orkut e a função “Privacidade”. Quer privacidade? Escreve um diário, ridícula. Não que eu seja uma pessoa interessada na vida alheia, mas acho bacana conhecer o inimigo.

Mas nem tô ligando tanto pra isso. Porque ele disse que queria passar o natal comigo, e isso na minha mente doente, foi o mesmo que dizer: sim, vamos nos casar no mês que vem. Você já encomendou o enfeite do bolo?

E eu te adoro tanto que tenho medo de tocar em você, como um chocolate que eu como devagar, com medo que acabe. Eu tenho medo de ter encontrado o meu par na quadrilha, sabe? Eu tenho medo de não saber como viver depois que encontrar o que tanto procurei: a felicidade.

Pego um livro e finjo ler, mas na verdade é só uma desculpa pra baixar a cabeça e pensar na última conversa em que você disse: me espera! E eu tenho muito pouco tempo para aprender a lidar com a felicidade, antes que ela chegue e me atropele como um caminhão desgovernado.

Eu tenho medo de ser esmagada pela felicidade, sabe? Não, não sabe. Porque você é feliz pra caramba, e eu quero ser feliz com você

Vanessa Pinho

Domingo

– Pois é, perdeu o encanto.
– Mulher cisma que tem que ter encanto. Homem diz “não me encarno mais”, se for mais velho diz “não dá mais”.
– Se tiver quinze anos diz “não róóóla mais”. No fim é tudo a mesma coisa.
– Você precisa se animar. O dia está sorrindo pra você! Me odeia por ter dito isso?
– Não chego a odiar, mas meu subconsciente mandou você se ferrar automaticamente.
– Eu também odeio frases de auto ajuda. Que se dane, né?
– Melhor frase de auto ajuda é: essa é por minha conta, beba!
– Sim.
– Queria que um japonês batesse na minha porta agora com um prato de sushi na mão. Deixasse o prato ali e fosse embora, sem cobrar e sem dizer nada.
– Queria que uma manicure batesse a minha porta, fizesse a minha unha sem dizer nada também. Sem me cobrar e sem marcar hora.
– Estamos com preguiça, nível avançado.
– Sim.
– Queria ir a uma festa com muito barulho e quase ninguém conhecido.
– Sei. Uma festa que ninguém fosse perguntar o que tem feito ou questionar coisas sobre seu ex namoro, né?
– Sim.
– Sei como é. Vontade de fazer charme e dizer só o que tenho de legal. E todo mundo acreditando.
– Exatamente.
– Ninguém pra te julgar.
– Ahãm. Vontade de mentir o que faço, no que trabalho. Ser outra pessoa só por um dia.
– Quando quero fazer charme, minto também. Não é bem mentir, só dou uma florida na história. Quando não quero conversa, digo que vendo Avon.
– Eu gosto de você como você é.
– Um chato?
– Não. Você é interessante. Seu celular é velho e você não tem um iPhone. Sinto preguiça de moços com iPhone.
– Háá, tive que comprar um novo. Bem moderno. Com Whatsapp e tudo. Estou cada dia pior.
– Não acredito. Você era minha esperança nos homens. Saber que ao menos um não era conectado, surtado, me fazia feliz.
– Acabei com sua fé. Perdão.
– Acabou. Agora sou pior por saber que seu celular é moderno.
– Você vai ficar pior e tudo por culpa minha.
– Sim, você é culpado por tudo. Você matou Odete.
– Não lembro, mas acho que matei sem querer. Fui eu sim. Já se sentiu assim?
– Já sim. Você precisa se apaixonar.
– Preciso sim.
– Mas dá uma preguiça conhecer gente nova, né?
– Muita. Explicar sua vida inteira pra uma pessoa que não sabe nada de você. Até ela entender. Aquela cara de boba, doçura e meiguice de início de namoro. Concorda com tudo, apoia tudo, sorri pra tudo. Haja paciência.
– Verdade, caímos no ridículo. Inícios são constrangedores.

Vanessa Pinho

Quase

Assim como você nunca me pediu em namoro numa noite fria de inverno com vinho e casais chatos, sentados e cansados ao nosso redor, você nunca pediu pra voltar desde quando terminamos.

Eu te vejo de novo e converso de novo. Programamos o fim de semana, o bar, o filme, a janta e rimos de todo mundo como antes. Discutimos e sentimos ciúmes como antes. Mas é ciúme sem ter direito de sentir ciúme. É gostar cuidando pra não gostar muito. É um lugar ainda vazio na mesa do almoço de domingo onde todos estão acompanhados.

Porque sou apenas a moça que faz rir, que diz coisas sem sentido e alegra dias chatos. A moça que escreve pra não ter que torrar a paciência de ninguém e que é quase feliz.

Quase que alguém me pediu em namoro. Quase que eu pude participar da conversa quando amigas contaram seus jantares, declarações, comemorações de datas, cuidados, caprichos, fotos em pousadas decoradas e fofas, abraços de olhos fechados, sorrisos cheios de covinhas, vídeos caseiros, pedidos oficiais e viagens pra serra. Quase
que eu tenho um álbum ou book desses que todo casalzinho faz no auge do namoro. Quase que eu tenho uma data pra comemorar.

Você fala da vontade de ser pai e eu do medo de ser apenas mais uma mãe que prepara o almoço de domingo e passa a tarde conversando sobre remédios e potes de cozinha, esperando o pai da criança voltar do futebol. Não vou ter filhos enquanto não tiver histórias lindas pra contar. Mas isso você não sabe. E não sabe que eu quase tive um pai também. Foi por pouco. Não vou ter filhos enquanto não puder dizer que a luz no fim do túnel existe e que as pessoas não são iguais.

E você me olha e não entende como pode alguém nesse mundo não se contentar em ser só alegrinha e ficar fazendo questão de ser feliz de verdade o tempo todo. E nesse momento você pensa que ser feliz  mesmo é pedir demais, me acha cansativa e procura ao redor alguém que dê menos trabalho e tope ser apenas alegrinha, apenas uma mulherzinha sentada e calada, rindo de piadinhas sexuais e comendo fritas enquanto o namorado acompanha com interesse homens suados correndo na tv.

Minha vida é um misto de perdões e recomeços. Madre Tereza ficaria orgulhosa da minha capacidade de recomeçar e perdoar e perdoar e recomeçar, de fazer isso tudo mais oito vezes e de andar como numa esteira que desgasta e nunca chega a lugar nenhum.

Confesso que não queria recomeçar, só queria continuar, me livrar desse coração cheio de vazio e deixar de ser telespectadora pra ser, pelo menos uma vez a protagonista de uma história linda.

Vanessa Pinho

Quando você não está.

As meninas de tamancos barulhentos em dias quentes parecem me irritar ainda mais quando você não está. As coisas são infinitamente mais chatas e mais difíceis de suportar quando não estamos juntos. Os beijos dos casais que assistem filmes e dão risadas sem um bom motivo me fazem sofrer e me tiram o chão.As pessoas não respeitam sua ausência.

As coisas continuam acontecendo mesmo sem você aqui e isso me soa desrespeito. Eu queria dormir assim que acordo, mas ainda tenho um dia inteiro. Ainda tenho que sorrir e concordar. Ainda tenho que atender telefonemas e dizer que já tenho um compromisso. – Eu sempre já tenho um compromisso. Desde que você foi embora eu preciso sentar e te esperar. E não dá pra adiar.

Eu que já esperei tanto pra te encontrar, fico aqui contando o tempo pra te encontrar de novo. Você foi e eu fiquei me sentindo como em uma casa vazia, sem móveis e sem chave pra sair e fechar a porta. Espero por coisas que não vão chegar, mas continuo esperando porque ter você pra esperar já diminui minha ansiedade, meu desespero e minha dor.

Eu nunca falei de dor, porque só agora está doendo. Está fazendo frio e calor. Quando chega o fim de tarde eu sinto mais dor. Minha casa se torna maior. Meu vinho não acaba.

Você fez as malas, levou tudo, mas eu que senti o peso dessa bagagem. Fiquei aqui odiando casais que fazem lanchinhos medíocres em lanchonetes decoradas e tomam sorvete na segunda-feira, dia da semana em que nunca vi você.

É triste viver uma vida cheia de pontos finais e nenhuma vírgula. Quero te ver hoje e continuar amanhã. Mas já está quase na hora do seu embarque e nossa vida ganha mais um ponto.

É sexta-feira, a saudade e a angústia me convidam pra um chá como num texto dramático de uma escritora em depressão. Não aceito.
Nada na sala se move. Estou sozinha. Eu, meus sorrisos em tons amarelados e minhas visões que quase sempre são você.

Escuto meu celular vibrar de mensagens que quase nunca são mensagens, muito menos suas. Mensagens imaginárias. Escuto bips por toda parte e todos os aparelhos do mundo tem o mesmo toque que o meu.

Quanto tempo ainda falta pra chegar o futuro? Porque eu sei que é lá que você está.

Vanessa Pinho