Vai ser ela

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Talvez tenha sido pelo arrepio que ela me causou no primeiro beijo. Me falaram uma vez que pessoas que causam arrepios enquanto a gente sorri merecem moradia no peito. E ela invadiu o meu. Sem pedir licença, sem jeitinho educado, sem por favor, sem perguntar se o lugar tava vago, se tinha espaço na minha vida. Não tinha. Mas quando é que o amor obedece a gente?

Acho que eu soube que era ela quando ela preferiu horas de conversa num boteco meia-boca a um restaurante chique com vista da cidade toda. Tem alguma coisa de interessante em gente que abre mão de quase tudo por bebida e um bom papo, não tem? Foi justo no meio da conversa que passou pela minha cabeça pela primeira vez:

Vai ser ela.

Meus amigos viviam me perguntando por que ainda não tinha sido. E, sei lá, falta de timing, falta de química, falta de vontade. Tem sempre alguma explicação pra quando não é. O difícil é achar justificativa pra quando passa a ser. Não sei, acho curiosa a forma como a gente se apaixona por outra pessoa no meio de milhares de outras.

Um dia cê olha e ferrou. Não tem volta. Você se arrisca a cometer os mesmos erros torcendo que dessa vez dê certo. Que as coisas saiam melhor do que o planejado. Que cês não se matem nos dias de tpm ou nos dias que o time de um dos dois perder. Você lista mil razões pelos quais não deveria ser, e você tenta lembrar de todos os defeitos. Nada. Cê olha e continua pensando: vai ser ela.

Vai ser ela que nem um tufão por aqui. Vai ser ela sem calma, sem tédio, sem mesmice ou silêncio incômodo. Vai ser ela sem motivo, sem espaço e sem tempo pra isso. Vai ser ela causando arrepios em todos os beijos. Agora, daqui a pouco e mais pra frente.

Vai ser ela.

Aliás, já é.

Karine Rosa, publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/

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Deixa esse medo pra lá

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É medo. Sempre é. Algumas vezes sem motivo, outras por puro reflexo do que a vida já fez com a gente. De tudo o que o mundo e as outras pessoas aprontaram. É reflexo dos tombos, das quedas, dos “eu-te-amo” sem respostas, das entregas, das cartas rasgadas, das promessas não cumpridas, das vezes em que você teve pouco cuidado com seu coração. É tudo medo. E eu queria segurar sua mão e dizer pra você não desistir, cara. O amor ferra a gente, mas ele salva também.

E você tem esses muros construídos com tanto esmero ao seu redor que eu fico com vontade de derrubá-los. Queria chegar com o pé na porta e dizer, ó, vim amar com você. Porque eu sei que cê amou sozinho meia dúzia de vezes e eu sei o impacto que isso faz na vida de uma pessoa. Eu sei que houve outras conversas, outras pessoas, outros finais imaginados e não realizados, outras brigas, pratos quebrados, ois, tchaus, portas batidas e perdões não pedidos. E eu sei que, depois de tudo isso, cê quer mais é distância de relacionamentos. Mas, me escuta, eu vim amar com você. Eu vim tentar e ver no que pode dar.

Eu espero um tempo antes de levar minha escova e invadir suas gavetas. A gente pode tentar conversar sobre seus filmes cults, esbarrar no assunto das músicas clássicas da sua playlist e marcar um rolê lá naquele bar alternativo da Augusta que você tanto gosta de ir com os seus amigos. Eu juro que não apareço logo de cara com o assunto de você conhecer meus pais e ter que ser aprovado pelos meus amigos e dividir as prestações do apartamento. Eu sei que contigo não é assim. Sei que eu, logo eu, sempre tão intensa e entregue, vou precisar ir aos poucos e entender que a vida nos faz mais cautelosos. Então eu seguro essa minha onda de querer tudo pra agora, pra ontem e pra sempre. E a gente brinca de ir com calma e, quem sabe, a gente acaba conseguindo ir em frente.

Serei sutil pra ver se o amor cresce mais nas sutilezas do que nos gestos efusivos e românticos que, até aqui, não me levaram a lugar nenhum. Ou me levaram a lugares que doíam demais. Por você, eu posso tentar prender o “eu te amo” entre os dentes enquanto a gente toma um bom vinho e fala sobre a semana de trabalho e eu te conto do cara que deu em cima de mim. Ou talvez eu não te conte dele, porque joguinhos de ciúmes não se encaixam bem com essa história de querer um amor calmo e tranquilo e leve e feliz.

Diferente de antes, eu vou me impedir de imaginar um futuro ao seu lado. Eu não vou sonhar com as nossas comemorações de namoro, nem vou pensar nas festas que a gente vai frequentar, nem vou surtar pensando no almoço em que vou te apresentar pra minha família toda e meu tio vai montar aquele questionário gigantesco que ele sempre faz para os meus namorados. Não vou imaginar nossas brigas, nem a frase que você vai dizer antes de arrumar suas coisas e sair pela porta pronto pra encarar o mundo sem mim. Vai ser dia a dia, minuto a minuto, e eu rezando pra gente não matar o amor com a rotina.

Eu vou te amar baixinho. Em sussurros, em gestos calculados, em pernas entrelaçadas e manhãs com a sua camisa. Eu posso te amar sem gritar, com calma, com pressa, com cuidado, com intensidade, com entrega, com o amor preso na garganta, com minhas mãos empurrando seu medo pra longe e puxando sua mão pra bem perto de mim. Eu te amo do jeito que você quiser e precisar. Eu só tô pedindo pra você deixar eu te amar. Cê deixa?

Karine Rosa, publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/

E por tudo isso eu escolhi você

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Foi por causa do seu sorriso assumido de canto. De um jeitinho sacana de quem sabe (sabe?) que nasceu para ser livre, leve, solto e filho da puta. Foi por causa desse seu ar afirmando que consegue a mulher que quiser. Mas, principalmente, pelos seus abraços apertados de quem diz que eu sou um paradoxo sentimental: seu tudo e também nada. Que eu tô aqui agora, mas não preciso estar aqui pra sempre. Que no fundo você me ama, mas, da boca pra fora, não tem sentimento nenhum por mim.

Foram as discussões baratas que me dão vontade de te matar. Ser passional ainda é crime? As briguinhas por um ciúme besta que você nunca assume. E as vezes que você discorda só porque adora me ver irritada. Foi por causa dos pratos quebrados, das roupas que eu joguei pela janela e das noites em que eu disse para você nunca mais voltar. Mas voltei, não foi? Foi também pelos dias que você não voltou, pelas flores que você não deu e, além de tudo, pelas declarações silenciosas que emite em gestos, quando não grita amor, mas ama.

E foi pelo seu jeito de cuidar. De me cuidar. De perto, de longe, com os braços ao meu redor e só com os olhos. Eu nunca precisei de ninguém, mas de alguma forma eu me vi precisando do seu cuidado. E você me ganhou ali, quando viu a minha parte não-tão-segura-assim escondida por trás de paredes que aprendi a construir nas telas, talvez por falta de cor, talvez por falta de aquarela. Pena que me fiz em uma redoma de vidro que você quebrou.

Karine Rosa

Foi ali que a gente acabou

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Foi naquela esquina ali, moço. Ele foi embora e nunca mais voltou. Eu fiquei, recolhendo os cacos do que sobrou de nós dois, porque não sou de deixar lixo no chão. E nossa história morreu ali, pra nunca mais. Duas ou três pessoas estavam na rua e serviram de público do nosso espetáculo final, mas não houve aplausos porque a encenação deixou a desejar. Não houve gritos, choros, raiva, nem nada disso que casais fazem quando brigam. Aliás, a gente não brigou, só deixou de se amar. E acho que isso dói mais que qualquer grito.

Mas se eu pudesse te contar só um segredo, eu diria que volto lá uma vez por ano para ver se encontro. Pra ver se o amor se multiplicou. Se caiu perto de uma poça d’água e sobreviveu. Sei lá, qualquer coisa. É que uma partezinha de mim ainda acha que nossos caminhos vão se cruzar e coisa e tal. Uma parte de mim acha que qualquer dia eu esbarro com ele na mesma esquina. E a gente se abraça e esquece tudo.

É culpa da quantidade de desenhos de príncipes e princesas que eu vi na infância, moço. Mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tanta decepção, eu ainda espero o final feliz. Acho que tudo é uma questão de querer ter controle da minha história, sabe? Eu não aceito que uma coisa que eu queria tanto não conseguiu acontecer.

Mas me diz. Você, que vive por aí sem se agarrar a nada, já esbarrou com ele pelo mundo? Tá bem? Saudável? Inteiro? Meu maior medo, moço, sempre foi que ele quebrasse. Que não aguentasse. Que ficasse partido de novo, em pedacinhos, como no dia em que a gente acabou. E acho que é um pouco por isso que eu nunca fui atrás: chega uma hora em que a gente não quer ver quem a gente gosta sofrendo.

Eu sofri, moço. Mas também fiz sofrer e admito. É que todo mundo erra, e ama errado porque não sabe direito como é amar. E fala besteira. E não dá carinho quando devia. E tem dia que queria só ficar sozinho. Todo mundo, moço. E eu não sou perfeita. E naquele dia, quando ele foi embora daquela esquina, eu gritei pra ele nunca mais voltar. E ele não voltou, moço.

Nem sei porque tô te contando tudo isso, é que hoje eu sonhei com ele. E passei por aqui e vi aquela esquina. E meu passado voltou com tudo e me deu um murro no estômago. E eu tive que aceitar as escolhas que fiz e que deixei que fizessem por mim. E aí doeu de novo, doeu muito. Mas agora, moço, agora a vida continua. E eu vou pra outras esquinas, ver se o amor fugiu para alguma delas. Ver se encontrou um novo dono. Qualquer coisa. Porque é assim que a vida é. Não é, moço?

Karine Rosa

A mentira que mais contei na vida

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Você foi embora levando todas as roupas que te dei de presente, o computador que compramos juntos, a cadeira do design famoso que você escolheu para a nossa sala e a minha mala de viagem preferida. Mas se eu fosse colocar no papel, de verdade, tudo mais o que você levou, talvez você tenha levado uma parte da minha vida quando bateu a porta também. E sabe qual foi a primeira coisa que eu fiz antes de arrumar a bagunça que você deixou? Eu corri para o espelho para me dizer que estava tudo bem.

Tudo bem. Era só a milionésima quarta vez que eu contava essa mentira. Ou mais até. Depois da décima, perdi a conta. A mentira perdeu a força também. Dizem que, quando contada muitas vezes, uma mentira se torna verdade. Mas como mentir na cara dura para o seu próprio reflexo quando aquele olhar zombador te diz: “na boa, garota, chora aí que ninguém tá vendo”?

Quando meus pais se separaram, do jeito mais traumático que pais podem se separar, eu tampei os ouvidos para não escutar os gritos. Eu fechei os olhos para não derramar lágrimas. E me escondi no porão da minha mente para fingir que nada daquilo me afetava. E fiquei lá, sentada na minha cadeira de balanço imaginária, repetindo como um mantra: tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo bem. Até que me arrancaram dali e me fizeram encarar a vida sem me dar tempo de chorar no mundo real. E tudo bem. Eu já não tinha mais dez anos, quando ainda podia chorar e pedir para dormir na cama dos meus pais. Até porque meus pais não dormiam mais juntos. Mas tudo bem.

E eu fui repetindo isso em cada esquina da minha vida. Fui empurrando com a barriga todas as minhas dores, numa pressa doentia de ser feliz logo. Porque quem quer ser feliz logo não pode dar tempo para a tristeza. Porque quem quer ser feliz logo não para e chora suas dores. E quem quer ser feliz logo não fica com vontade de desistir de tudo só porque o namoradinho, depois de cinco anos, bateu a porta de casa e disse que nunca mais ia voltar. Nem quando a melhor amiga conta todos os seus segredos para as pessoas que mais te odeiam. Nem quando seus pais param de falar com você porque você não seguiu a carreira que eles queriam. Quem quer ser feliz logo não chora por isso. Não é?

Só que, hoje, eu resolvi contar a verdade só um pouco. Para mim mesma, nem precisei espalhar para o resto do mundo. Porque não, muita coisa não ficou bem. Os gritos que eu ouvi (e fingi que não) continuam ecoando em meus ouvidos. As traições que encarei e fingi perdoar continuam presas na garganta. As decepções que engoli em seco e nunca joguei na cara de ninguém ficaram perdidas em vinganças que eu nunca dei – mas sempre quis dar. Nada bem. Ficou tudo aqui, marcado, silenciado, escondido, para o dia que eu resolvesse ser sincera com o meu próprio coração. E entre nós dois, amigo, a gente sabe: tem mais dores do que a gente pode aguentar. Então, hoje, falemos a verdade: não, não tá tudo bem. Quem sabe assim comece a passar.

Karine Rosa

Mais que amor

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Acho que vou te esquecer e te coloco em uma vírgula errada no meio de um texto. Eu já tentei te apagar do meu pensamento, mas, como você pode ver, a tentativa foi frustrada. Eu posso até continuar tentando – e olha que eu sou teimosa como uma mula, como diria meu pai – mas você vai ficar aqui enquanto eu escutar aquela música que você acha insuportável, ou quando passar por qualquer carro amarelo e me lembrar de você contando que é a cor de carro que mais odeia na vida. Eu vou te ouvir nos meus silêncios e te enxergar nas minhas escuridões. Então, eu meio que desisto. Esquecer você? Não vai rolar.

Eu queria dizer que eu sou uma mulher independente e, por isso, não dependo de você. Não dependo mesmo. Tenho braços, pernas, inteligência e força de vontade. Mas não é esse o ponto. Meu coração meio que depende de você para saber um pouco sobre os limites de querer bem uma pessoa. Ou sobre o poder que você tem de ser totalmente dispensável e, ainda assim, se fazer tão insuportavelmente necessário.

Você me abraça e o mundo faz sentido. Mesmo que girando para o lado contrário. Pode isso? E você me ensina, me arranca do chão, todas essas coisas que eu li nos romances água com açúcar que eu insisto em gostar. E a gente briga, e grita coisas sem sentido, e se machuca com palavras e tudo mais. Ainda assim, eu não consigo te odiar. Porque só de pensar em você muito tempo longe de mim, eu quase explodo.

Eu não quero dizer que é amor, porque eu já disse tantas vezes que era amor (e não era) que a palavra perdeu a força. Então, fica aqui o meu segredo mais sincero, minha declaração mais forte: é mais que amor. Bem mais.

É um vírgula errada colocada no meio de um texto, é seu sorriso, sua respiração e o jeito que me faz rir em uma ligação qualquer no meio de uma madrugada cansativa. É mais que amor. É a liberdade de andar de meia e pijama velho pela casa e saber que você não vai sair pela porta procurando alguém mais bonita. É saber que posso ficar doente e chata e insuportável, como sempre fico, e você vai ficar aqui ao meu lado, mesmo que para aguentar minhas patadas e minhas crises.

É saber que você não precisa nem nunca precisou de nenhuma declaração para me amar – e por isso mesmo é quem mais exige meu pulo do penhasco. Então, não é amor. Não é eu-amo-você. É só você. Qualquer coisa. Não amor. Não só amor. É simplesmente mais que amor. Muito mais.

Karine Rosa

Nossa despedida

08

Era nosso último encontro. Eu sabia, e você, no fundo, também, que aquela era a última vez que riríamos com o garçom desajeitado do nosso restaurante preferido. Era a última vez que comeríamos juntos aquele prato de costela também. Eu, pelo menos, nunca mais vou conseguir degustar do meu prato favorito, do mesmo jeito que eu fazia com você. Acho que a gente sabe quando alguma coisa chega ao fim. Não sei, acho que algum dispositivo interno avisa: já deu. O alarme já soava há dias com a gente, mas é difícil largar o osso, como você dizia quando falava de seus vícios. Acho que nós dois viramos isso: um vício. Eu me viciei em te ter por perto, em ter sempre sua palavra amiga, em ter sempre o seu abraço em qualquer situação. Pior do que isso: eu me acostumei. Odeio o fato de ter me acostumado a você, quando antes eu te amava tanto.

Naquela noite, enquanto pedíamos a sobremesa, nós dois nos olhávamos como se soubéssemos: tinha acabado. Não dava pra reescrever toda a parte bonita da nossa história. Levantaríamos dali não apenas para voltar para casa, mas para voltar para a vida que tínhamos antes de nos conhecer. Sairíamos do restaurante saindo um pouco da nossa própria vida também, e acho que isso era o que doía. Eu não sabia como seria dali para frente, já nem me imaginava mais sem você ao lado. Mas medo nenhum tinha mais o poder de me fazer insistir em uma relação acabada. Você também já tinha desistido.

Como dói abrir mão de uma coisa pela qual a gente lutou tanto. Mas aquela era a primeira vez que eu ia embora sabendo que estava fazendo a coisa certa. Era a primeira vez que meu coração estava tranquilo o suficiente para não me arrepender das minhas atitudes. Eu ia inteira, sem deixar parte nenhuma para trás, em uma história inacabada. Eu e você tínhamos amadurecido o suficiente nesses anos todos pra poder acabar com um ponto final digno. Sem gritos, sem acusações sem sentido, nem mágoas eternas. Acabávamos bem, porque éramos fortes para sabermos a hora de parar.

Você pediu a conta e meu corpo gelou. Meu Deus, o que eu faria dali para frente? Eu saberia amar de novo? Eu conseguiria viver por aí sabendo que nós nunca mais iríamos voltar? Conseguiria. Eu sabia, conseguiria. Apesar do medo, apesar da pontada aguda de dor, apesar de você, apesar de nós dois. Apesar do fim de nós dois, eu viveria feliz, como sempre. Era reconfortante saber que eu não deixava parte nenhuma de mim com você e você também não me deixava nenhum peso morto. Eu iria muito mais forte e completa do que quando te conheci, toda despedaçada de outros amores.

A noite chegou ao fim e levantamos da mesa sem dar as mãos. Voltamos para casa e você arrumou suas malas. Eu ficava, mas sentia como se estivesse indo também. Não houve uma grande despedida. Você apenas veio até a mim, pegou meu rosto e me deu um beijo demorado na testa. Eu deixei cair uma lágrima, porque, comodidade ou não, o que eu tinha com você era especial. Você olhou para mim e disse: “vá ser feliz, te cuida e não deixa nenhum idiota quebrar o seu coração”.

Eu nem precisei dizer que desejava o mesmo para você também. O mesmo, amor. O mesmo.

Karine Rosa

Tudo aquilo que eu nunca te disse

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Nunca ninguém cantou em meu ouvido com uma voz tão bonita quanto a sua. Eles tentaram, se esforçaram, fizeram de tudo. Ninguém nunca me deu um colo como você também. Ninguém nunca me entendeu tão bem, ninguém nunca mais me reconheceu apenas pelo olhar, nem nunca souberem fazer o bolo de chocolate mais gostoso do mundo que você fazia. E olha que eu tentei encontrar isso em todos os que passaram por aqui. Porque eu nunca quis admitir que a minha maior intenção era te encontrar na esquina, te agarrar e dizer que você era todinho meu.

Eu tive chances. Eu poderia ter dito em uma de nossas brincadeiras. Entre um riso e outro, eu podia ter soltado, sem meias-palavras, sem rodeios, sem nada. Cheguei a planejar dizer enquanto você me abraça, enquanto me olhava ou enquanto jurava para todo mundo, no mais alto e bom som que eu podia ouvir, que nós não passávamos de apenas bons amigos. Eu odiava quando você falava de nossa amizade. Odiava.

Eu podia ter falado quando seu primeiro namoro chegou ao fim. Seu coração estava despedaçado e foi nos meus braços que você veio se socorrer. Aliás, você sempre me usava como colete salva-vidas. E eu fazia de tudo para não me apoiar em você também. Porque sabia, na hora que você decidisse ir embora e me deixar para trás, eu inevitavelmente acabaria afundando sem possibilidade de socorro. Eu sabia o quanto eu dependia de você. Sempre soube.

Mas eu sempre te deixava escapar. Deixava as chances fugirem. Outros momentos viriam, outras oportunidades apareceriam. Eu tentava me convencer. Eu não te queria em pedaços, com rachaduras de outros desamores. Eu te queria inteirinho. Eu-queria-você-para-mim. Quem dera você pudesse ter reparado sem que eu precisasse ter dito com todas as palavras. Quem dera você tivesse visto nas vezes que eu corria ao seu encontro, só para ver você sorrindo. Quem dera você tivesse entendido nos meus ciúmes descontrolados, na minha possessividade infantil. Tava tão na cara, só você não via.

E aí um dia você fez o que eu sempre soube que faria: arrumou suas coisas, me deu um beijo de despedida e foi se perder no mundo. Eu também quis dizer naquele dia. Quis implorar que você ficasse. Quis dizer que eu te amava, quis dizer que eu nunca mais queria ser só sua amiga. Não disse e você se foi.

Hoje, tudo o que eu posso contar da nossa história era o que você vivia repetindo: éramos apenas bons amigos. Foi isso o que fomos, foi isso que você nos permitiu ser, foi o que eu deixei que fôssemos porque não tinha coragem de te dizer. Se eu pudesse voltar no tempo, quem dera eu pudesse ter dito: foi sempre você.

Karine Rosa

Estranho seria se eu conseguisse te esquecer

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Você aparece no sorriso do Ian Somerhalder, no meio do último episódio de The Vampire Diaries. E se esconde no meio da letra da música “Sei” do Nando Reis. Você circula pelos rostos de desconhecidos nas esquinas em que eu viro. E tem mania de se disfarçar nas gargalhadas alheias. Você finge que vai embora, que se mandou de vez, e aí aparece na minha memória no meio de um encontro com o carinha da minha faculdade, só para me lembrar que nenhum outro consegue provocar o mesmo efeito que você.

Você se agarra em meus textos, só para impedir que qualquer outro vire protagonista de minhas histórias. Você abraça todas as músicas do meu iPod, só para eu me lembrar de você em cada suspiro dos meus cantores preferidos. Você está por perto quando eu vou a farmácia, quando corro na esteira da academia e quando coloco a cabeça no travesseiro e faço um esforço tremendo para não me lembrar mais de você.

Aliás, fazer um esforço tremendo para te esquecer é tudo o que eu tenho feito nesses últimos dias. Mas você nem precisa se esforçar para me fazer lembrar. Eu te enxergo na nuca do meu vizinho carioca. A parte de trás do cabelo dele tem o mesmo corte que o seu. Eu te escuto na ligação que minha melhor amiga recebe do namorado, porque eu só consigo pensar que eu queria que você me ligasse também. Eu vejo seu olhar de decepção no meio da mensagem que escrevo para o carinha com quem eu ando saindo, só para me provar que meu coração não tem dono. Mas ele tem.

Eu escuto suas broncas quando faço algo errado. E ouço seu riso enquanto assisto ao seu episódio favorito de Friends. Eu sinto seu cheiro quando alguém parecido com você passa por mim. Eu vou atrás de um estranho no ônibus pensando que é você. Eu tremo inteira quando um número desconhecido começa a me ligar. E quando o Facebook avisa sobre alguma notificação, eu sempre acho que pode ser você tentando me ganhar outra vez.

Mas é no momento em que eu penso em você enquanto cantarolo “Estranho seria se eu não me apaixonasse por você” que eu canso de fugir. Derrubo as minhas próprias barreiras, deixo as paredes que construí em volta do meu coração desmoronarem e, sem defesas, me rendo. É, eu me rendo. Porque te esquecer eu não posso. Então, só me restar te amar sem medo. E eu te amo.

Karine Rosa