Sobre amor e olfato

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Eu gosto do cheiro dele. Tem muito dele no cheiro que ele exala, que ele expele em cada movimento pouco calculado, que ele deixa nos meus lençóis, vestígios de sua presença cada vez mais delineada em minha vida. Eu gosto do cheiro de menta da pasta de dente que ele usa e do cheiro da sua saliva, misturada com a minha graças aos milhares de beijos que trocamos. Eu gosto do cheiro do seu perfume, misturado com o seu suor. Nas manhãs de domingo, sou a primeira a acordar. O sol entra pela persiana quebrada e eu disfruto de uns três segundos de confusão, até cair em mim que é verdade, que agora ele dorme do meu lado nos fins de semana, e nos dias de semana que nos permitimos escapar. Então eu apoio minha cabeça nas suas costas quentes e me encho do seu cheiro de calor, de esforço, de sono. Eu gosto do seu cheiro de sabonete e pele, do cheiro que ele tenta ter com os dois ou três produtos de beleza que sabe usar, do cheiro que vem dele, que ele nem percebe que tem e que me atrai como um ímã irresistível. Ele acorda um tempo depois. Quando vira a cabeça na minha direção, meio dormido ainda, segura uma das minhas mãos e me puxa para um abraço egoísta, mas que não me incomoda porque é mais uma oportunidade de senti-lo. Eu gosto da maneira como os nossos corpos se misturam e deixam marcas um no outro, físicas, subjetivas ou olfativas, pedaços que vamos costurando juntos, remendas que improvisam consertos em nossos corpos quebrados. E quando ele murmura algo e se levanta para ir, eu me afundo no travesseiro, roubo o seu lado da cama, me cubro até a cabeça e adormeço de novo, embalada pelo ar cheio dele que ele deixou para trás.

Regiane Folter

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Entendendo a Mensagem de Amor do Paralamas

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Há algo na maneira como ele a toca, no jeito que ele passa as mãos nas suas costas ou quando coloca um fio desalinhado atrás da sua orelha. Tão suave como um sopro de ar, como a luz dourada do amanhecer quando toca a beira do mar e esquenta a areia gelada. Tão decidida, tão firme, com uma vontade que faz ela estremecer. Que faz ela querer rir e chorar, que faz ela sentir-se tão linda e tão perdida, tão à sua mercê.

É nisso que ela pensa, nas mãos dele e nas mil mensagens de amor que elas transmitem, enquanto busca por ele com o olhar no bar lotado. Ela, sentada em uma banqueta em um canto qualquer, cercada por pessoas em suas alegres expressões, com seus reluzentes drinques, em suas reluzentes roupas de sábado à noite. Ela, encolhida dentro de seus próprios pensamentos, quase pode ver a barreira invisível, tão fina e tão concreta, que a separa de toda aquela bagunça de álcool e conversas jogadas fora, que a mantém imune aos ruídos e cores enquanto ela procura por ele na multidão. E quando ela encontra, quando os olhos dele caem nos olhos dela, tudo para. Todos, absolutamente todos, desaparecem, varridos de suas perspectivas e, de repente, a vastidão do mundo parece tão pequena para a intensidade daquele olhar. Não há nada além dos dois, dos olhos verdes nos olhos azuis, e todas aquelas coisas não-ditas e que ficam ainda mais bonitas assim, caladas.

Mais tarde, já em casa, quando os dois tropeçam um no outro enquanto se abraçam, perdidos na mistura embriagada dos seus perfumes e gostos, os livros que ela já leu formam uma pilha esquecida ao lado da cama. Já não há ninguém ali, já não há mais interrupções ou desculpas, mas eles continuam em silêncio, a não ser que os sons das suas respirações mescladas ou o palpitar dos peitos um contra o outro sejam consideradas novas formas de comunicação. Enquanto ele faz ela se deitar, quando aquelas mãos macias e tão doces fazem ela desfalecer aos pouquinhos, ela passa o os olhos pelos nomes de autores e histórias da sua biblioteca improvisada e, sem se ater a nenhum, pensa como aquelas palavras agora parecem vazias, tão distantes, tão pouco reais. Tão frias. Tão diferentes do toque quente dele, das pernas entrelaçadas, dos carinhos que os dois se permitem sussurrar. Do muito que ela já leu, nada mais resta, não enquanto ela fecha os olhos e percebe quão pouco as palavras poderiam descrever a sensação de ser apenas um, mesmo sendo dois.

Não é uma história de príncipe e princesa, de um amor matematicamente perfeito, de uma lua de mel sem fim. São duas pessoas marcadas por suas decisões, boas e más. São duas almas cinzentas, que se iluminam juntas, mas que têm cada uma à sua maneira suas próprias fontes de escuridão. Estão quebrados por seus traumas e por suas escolhas e às vezes seus rostos são máscaras hediondas, quando deixam transparecer seus defeitos mais imperdoáveis. Às vezes, tão lindos quanto anjos, quando estão alegres, quando seus sonhos se tornam um pouquinho mais tangíveis. É uma história em que quase não há palavras, poucos adjetivos, poucos substantivos. O céu estrelado é o cenário e os verbos tomam conta da cena. Tudo que não falam, tudo que têm medo de dizer, demonstram com ações, com um fazer interminável, com uma energia que parece nunca acabar. Não é uma história sobre perfeição, mas, mesmo assim, se eles prestassem atenção ao mundo exterior ao menos um pouco, o mundo fora daquele quarto, se se dessem ao trabalho de interromper aquela mútua contemplação de sentidos, poderiam escutar tambores rufando ao fundo. Porque é uma história imperfeita, mas ainda assim é uma história de amor.

Parados ou em movimento, presos em dois lugares distintos, separados por uma multidão de desconhecidos, ou na solidão do quarto vazio, os dois experimentam algo que ninguém pode compreender, algo que só pode ser traduzido como a vontade de viver aquele encontro, daquela imersão um no outro, da boca dela se tornando dele, dos braços dele delineando o corpo dela. Eles não têm nada para dar e provavelmente vão tirar tanto um do outro, tanto, que a cada manhã estarão diferentes, estarão mudados. Ele, tão ela, talvez até descubra o timbre agudo da voz dela em seu próprio riso. Ela, inteira ele, com linhas diferentes, linhas moldadas pelos beijos dele, pelas mãos dele, pelas mensagens de amor que ele nunca falou.

Regiane Folter

Amor de verão

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Eu te conheci no verão. Te vi e pela primeira vez escutei perfeitamente cada uma das batidas do meu coração. Ecoavam, fazendo da cavidade torácica uma caixa de som. Senti cada partezinha do músculo que nos mantém de pé bombear sangue e vida dentro de mim. Acho que meu peito ressoava tão alto, que você ouviu. E quando seus olhos caíram dentro dos meus, a gente se apaixonou.

Não sei bem explicar como foi que isso aconteceu, da mesma maneira que não podemos divisar nada que está envolto à névoa e ao caos sempre associados ao místico ato de apaixonar-se. Dizem que é um processo complicado, que envolve lágrimas, trabalho duro e uma caprichada dose de paciência. Ao menos eu sempre escutei da minha mãe que estar apaixonado não é para qualquer um. Provavelmente não era para nós. Tudo aconteceu tão perfeitamente, como peças de um quebra-cabeça que enfim se encaixam depois de muito tempo perdidas em tempos de infância. Será que a poeira desse jogo de criança não era um sinal?

Na primeira hora você não desviou os olhos de mim por nenhum instante, esses olhos tão azuis, tão macios quanto o céu da praia ensolarada por onde caminhávamos aquele dia. Uma atitude impulsiva e qualquer, já que nem eu nem você somos muito chegados no quesito exercício. Mas na segunda hora, enquanto nossos sorrisos iam ficando mais firmes, ai contrário dos sorvetes meio derretidos que você me convidou para tomar, afirmamos entusiasticamente que todas as manhãs fazíamos aquele trajeto, com todo o ânimo esportista que podíamos reunir para começar bem a manhã. Você parecia tão inocente, mas mentiu tão cedo. Mentimos cedo demais.

Na terceira hora você me beijou. Na terceira hora mais cinco minutos eu deixei o que restava do meu sorvete cair no seu colo e nós dois rimos tão alto, como se quiséssemos competir o som da nossa felicidade com o barulho que vinha do mar.

Quando eu te conheci era verão e eu não imaginava que as horas iam passar tão rápido, rápido demais até. Na décima tivemos nosso primeiro encontro oficial, eu usando meu vestido preferido, o mesmo que você iria tirar com tanto cuidado cinco horas depois.

Na hora número 52 te ensinei a pegar jacaré nas marolas suaves da praia que separavam as casas das nossas famílias. Na 78ª, você cozinhava panquecas, ou era o que deveriam ter sido, se não tivessem se queimando enquanto fazíamos amor no chão da cozinha. Na 96ª conheci seus amigos e descobri alguns segredos embaraçosos de seus tempos de menino. De qualquer maneira, não demorou muito para você conhecer os meus, quando na hora número 115 minha mãe te mostrou meu álbum de formatura de terceiro colegial.

Eu te conheci num dia quente de verão e enquanto as horas iam passando e o calor ia dando lugar para a brisa amena do outono, fomos nos entregando a uma vontade tão mútua, tão intensa, que foi consumindo pouco a pouco nossos últimos dias de férias. Nos apaixonamos enquanto as folhas verdinhas iam aos poucos se amarelando. Porém, do lado de fora do nosso cantinho particular o mundo real foi aumentando de tamanho, se tornando mais e mais ameaçador. Acabou que as mesmas batidas incontroláveis do meu coração no dia que te conheci voltaram ainda mais desreguladas em discussões que terminavam tão rapidamente quanto começavam, embora fossem ficando mais longas, dia após dia. Trabalho, família, faculdade, outros relacionamentos mal resolvidos, tudo que havia ficado lá em cima da serra, na cidade grande onde tudo é cinza, inclusive o céu, parecia nos querer de volta. O fim do verão tornava o poder de atração desses empecilhos forte demais, ímãs impiedosos que nos arrastavam da imersão para nos lembrar que um dia a hora de pegar a estrada iria chegar.

Na hora 147 eu me esqueci de te encontrar para jantar porque precisei resolver um problema de última hora do trabalho. Na 194ª, sua ex-namorada ligou bêbada e acabamos entrando em mais uma espiral de gritos e acusações. Meus olhos ardiam na 205ª, quando percebi que era a última hora que iria passar com você e nem pude colocar os óculos de sol para disfarçar, porque fazia frio e chovia e esses adereços de verão não tinham mais cabimento. Você também não parecia feliz quando disse:

– Talvez a gente só possa ficar juntos quando o céu está azul.

Quando te conheci num dia de verão, me apaixonei. Mas assim como a estação, tinha data marcada para acabar. E cada hora, incrivelmente deliciosa ou destrutiva, nos conduziu até o fim. E não é que mesmo os quebra-cabeças que conseguimos completar acabam tendo suas imagens apagadas pelo tempo?

Regiane Folter