(Des)feita

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Você não acha que já tirou muito de mim? Meus sonhos, meus planos, meus carinhos, meus beijos, meus pensamentos, eu. O que mais pode querer? Você tirou partido de mim e me deixou (des)feita em pedaços. Tem noção do quão difícil é se reconstruir, juntar cada parte outra vez, refazer o que o desamor desfez? Não, não responda. Você não sabe, é claro que não sabe. Aliás, nunca soube de nada em relação a mim, nem ao menos se interessou em saber. Você desnudou meus sentimentos e me despiu de todo e qualquer amor próprio. É difícil amar por dois, oferecer a alguém o que não tenho nem para mim mesma. Tem noção do quão ridícula me senti vestindo-me apenas de esperanças? Você abusou de tudo o que lhe dei e se recusou a me dar qualquer coisa que eu pedia. E eu só pedi um pouco de ti.
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Não, eu não tirei nada de ti. Você que me deu seus sonhos, seus planos, seus carinhos, seus beijos, seus pensamentos, você — sem perguntar se eu queria. Eu só quero que você pare de me culpar por suas dores, por sua decepção, por seus desamores. Nunca quis te destruir, deixar-te em pedaços. Você me encaixou em seus vazios impreenchíveis e depois se sentiu incompleta quando eu te deixei. Como você pôde deixar alguém te destruir dessa forma? Não faça mais isso, moça. Você já é completa. Essa ideia de que alguém nos completa é besteira. Ou então todos vivemos pela metade? Os seus vazios fazem parte de você e nada nem ninguém pode preenchê-los, entenda, aceite, não chore. Precisamos desses espaços vazios em nós para não sufocarmos. Eu sempre soube muito de ti, tanto a ponto de te deixar. Vista-se, moça, e não tire mais a roupa — nem seu amor próprio — para qualquer um. Você teve de mim a reserva de amor que guardo para as outras pessoas. O resto é meu.

Daniela Lusa, publicado em http://confrariadostrouxas.com.br/

Démodé

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Confesso que até hoje não sei como você se apaixonou por mim. Sei lá, eu sou tão complicada, tão cheia de defeitos, tão incoerente, e você sempre tão certo, tão simples, tão perfeito. Acho que somos opostos, por isso te amei tanto. Talvez por isso você tenha preferido ir enquanto eu optei por ficar.

E agora você volta querendo continuar aquela conversa que não terminamos quando você partiu. Eu te interrompi com um adeus doído enquanto você queria explicar, pedia que eu fosse contigo, desejando não me desejar tanto, eu querendo não mais te querer.

Desculpe, mas acho que não temos mais o que conversar, nossas palavras se perderiam no vazio do abismo que eu criei entre nós. Além disso, eu não moro mais no Bairro das Laranjeiras. Mudei de andar, de endereço, de vida, mudei até de amor. Aquele apartamento guardava lembranças demais, elas não me pareceram boa companhia quando fiquei só — quase me perdi no labirinto de solidão que eu mesma criei.

Lamento, mas minha voz não se encaixa mais nas suas melodias, suas canções não me embalam mais, não sei mais fazer dueto com você. Eu desafinei e nós erramos o tom. Nossa canção emudeceu.

O meu All Star azul desbotou, não o uso já faz um tempo. Eu sei o quanto você gostava dele, eu também gostava de você. E, sinceramente, o seu preto de cano alto já saiu de moda. Acho que a gente não combina mais.

O nosso amor é démodé.

Daniela Lusa

Distanciar

Dia desses, estava eu organizando uma gaveta e encontrei umas fotos. E sorri. As fotografias guardam, além de imagens e lembranças, algumas emoções. Sentei-me e comecei a lembrar daquelas pessoas, daqueles sorrisos, de tantos momentos vividos juntos. Deu saudade. Guardei, então, a foto com todas as suas lembranças e com umas dúvidas, também. Afinal, o que aconteceu com aquelas pessoas, com aqueles sorrisos, com aqueles momentos? Simplesmente, perderam-se. Sumiram. Desapareceram.

É engraçado como algumas pessoas saem da nossa vida tão rapidamente quanto entraram, não? Estive pensando em algumas pessoas que sumiram repentinamente da minha vida. Tentei lembrar o motivo de nosso distanciamento, mas não consegui. Claro que algumas eu mesma afastei, mas não é a essas que me refiro. Sabe quando você simplesmente deixa de falar com a pessoa, sem motivo aparente? Não sei se sou eu que fujo ou se é a pessoa que se afasta. O fato é que se você sente que precisa se aproximar, talvez a pessoa esteja se distanciando. É como se a gente fosse se perdendo com o tempo e se prendendo a lembranças. Ou não.

A pior parte disso tudo é quando o afastamento acontece de uma hora para outra, sem motivos, sem explicações. Não entendo. E aí sempre surge a paranoia: “o que eu fiz de errado dessa vez?” Pois eu digo: nada. Absolutamente nada. O que está errado é essa falta de “se importar” que há em muitas pessoas. O errado está nessa falta de “querer bem” a alguém. O problema é que as pessoas, quase sempre, sentem de menos e se afastam demais.

Há quem se afaste por medo de ficar sempre junto. E há quem queira ficar longe porque nunca quis se aproximar de verdade. Há quem se esconda no silêncio para se isolar. Talvez, para se encontrar. Talvez, por não saber o que dizer. E foge.

Disso tudo, fica sempre alguém esperando por uma palavra, por uma resposta. As palavras se calam, a espera continua e só chega o silêncio. Mas, aos poucos, a gente vai se acostumando a trocar silêncios e entende o que a pessoa quis dizer com as palavras que calou.

Já tentei me aproximar de pessoas que estavam querendo se distanciar de mim. Já me afastei de quem queria ficar perto. Já estive perto mesmo estando longe. Já estive junto sem estar. E é estranho se sentir distante de quem nunca de fato esteve perto.

A distância desfaz sorrisos. A ausência deixa um espaço vazio. O tudo, de repente, vira nada. E as palavras dão lugar ao silêncio. O problema é que palavras não ditas também magoam.

Afinal, com quantos silêncios se faz uma saudade?

Daniela Lusa