Deixe as Mãos Morderem e Massageie com os Dentes

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De quando as carnes se tocam e tremem para esboçar o desejo mútuo. De quando os lábios se roçam e os olhos negros reviram-se brancos em busca de abrigo. De quando os braços se abraçam e dentro deles cabem tudo quanto for imensurável; a violência do querer imediato, a carícia da dor inevitável. Pêlos, que digam em seu ouriço quando não for possível dizer em palavras; músculos que rígidos abatem-se no calor do corpo alheio em espasmos burros, ávidos. O suor, lágrimas do prazer que coroam os contornos todos, que derramam-se pelas costas e escapulas, pelas covas e coxas, que afagam as têmporas e escorrem pelo rosto; o gosto salgado, sujo e humano quando degustado na ponta da língua. O cheiro do pescoço, nuca, da clavícula nua. Corpos, que esmagam-se contra as paredes amareladas, contra os carpetes sujos de vinho tinto, dos lençóis revirados. Quadris que expandem-se, unhas cravam as costas em carmim, o som oco do combate da carne se traduz em uníssono por dentro e por fora. De quando o traçar desse mapa é tão intenso e devastador, que no fim sobram apenas o som da respiração ofegante de dois corpos exauridos, machucados, absortos em seu próprio ato, tal qual não resta outra alternativa a não ser deitar-se no afago, rompendo com qualquer orgulho inútil. Uma morte de si dentro do outro, de novo, e de novo, e de novo.

Saboreie. Deguste a carne. Deixe as mãos morderem, e massageie com os dentes.

Rodrigo Lima Romano

Fica. Te Preparo Café.

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Hoje você fez mais barulho do que deveria ao acordar. Eram 6h12m no relógio e senti aquele sacolejo descompassado do colchão já velho, balançando pra lá e pra cá – consegui apenas abrir levemente os olhos e ver a sua silhueta seminua andando pelo quarto à procura de roupas e saindo de fininho pela porta entreaberta. Eu confesso, eu quis jogar meu tênis ou qualquer objeto mais próximo em você, sem remorso, em parte por causa do meu indigesto mau humor matinal, e também pelo motivo crucial de que eu poderia dormir mais uns 50 minutos no mínimo, e agora estou aqui, entre a vontade de voltar a dormir e o medo de acordar daqui a 3 horas como se tivessem passado apenas mais 5 minutos. Havia um certo potencial homicida naquele cômodo, isso eu posso afirmar com propriedade.

Você está sempre saindo antes de eu acordar – na verdade você está sempre saindo da minha vida em geral, porque diabos você decidiu fazer barulho justo hoje, como esse frio convidativo, e essa chuva fina insistindo em cair lá fora? Eu já me acostumei com a ideia de não te ter na cama quando abro os olhos, de virar pro lado e ver a sombra do nosso sexo destruindo meus travesseiros horas atrás, e me dizendo de maneira desdenhosa: “Você está se metendo em problemas!”. Sim, estou. E como; não precisa esfregar essa informação com tanta soberba em mim. Mas é impossível não me perder com essas mãos intrometidas enfiadas por dentro das minhas roupas, de unhas cravadas nas costas, de gemidos abafados no ouvido. São 6h25m e eu estou pensando nas mensagens que você manda quando está de porre e provavelmente levou alguns foras nas festas imbecis as quais você frequenta. Nas desculpas esfarrapadas envolvendo ‘trabalho demais’ ou ‘falta de sinal de celular’, e até mesmo doenças familiares para não me ver ou não me responder. Um eterno limbo. Por que diabos eu gosto de você?! É porque na verdade você tem esse ar boêmio de quem não liga se está adequadamente vestido, porque mesmo com as piores desculpas, você me beija logo no ouvido quando chega, e eu desfaleço sem chance de me recompor. Porque você é a única pessoa que pode mexer no meu cabelo depois de arrumado sem que eu tenha vontade de arrancar a sua mão fora; porque você manda fotos inapropriadas no meio da tarde enquanto eu estou no trabalho, e principalmente, porque você sempre me espera dormir primeiro, como se estivesse velando meu sono e a minha segurança, e mesmo podendo ir embora logo depois, de fininho, eu ainda te encontro no meio da madrugada do meu lado.

E é protestando contra meu bom senso que sempre espero as suas mensagens. Porque eu sei que não deveria, mas sempre me instigo ao limite, esperando que com o passar do tempo eu consiga virar essa mão de cartas a meu favor. Quando vejo as covinhas das suas costas nuas ao meu lado, percebo que mesmo que seja eu quem abra a porta pra você, na verdade é você quem está sempre voltando pra mim, e então me pergunto quais os monstros que você precisa matar com o álcool pra que eu possa te acalentar sem que você se sinta vulnerável. Não tem problema, eu consigo te suprir de nós sem te expor, mas me diz qualquer dia desses se eu ‘te preparo um café, ou te preparo a minha vida’.

Rodrigo Lima Romano

Lembra de Mim

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Eu te gostei muito. Nunca te disse, como você também não disse. Gosto de pensar que no fundo você soube. Pena que as cabeças confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, embora a gente não deva ter vergonha do que é belo. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas. Se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha, e tenho, por você. Acho que é bom a gente saber que existiu desse jeito em alguém, como você existiu em mim.

Tenho uma parte que acredita em finais felizes. Em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. Tenho uma metade que mente, trai, engana, por medo ou negação. Outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. Outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente então.

Rodrigo Lima Romano

Depois de Ter Você

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Me considerei durante muito tempo um sujeito pragmático, quase descrente em relação ao amor. Quando assim, em semanas de temperamento exalado, eu beirava quase a intransigência quando me levantava arrogante contra a orda de românticos em uma mesa de buteco e bradava – “Deste mal não hei de morrer!” – e ria descontroladamente. Sempre achei os excessos de amor de uma imaturidade, de uma incapacidade tão primitiva de ser racional, que me negava a sucumbir ao que eu considerava um exercício de imbecilidade: mãos dadas ao sol do parque, um bitoca seguida de uma voz infantilizada, trocar os talheres no restaurante – “Deus, que me livre!” – quando então vi meu pedido indeferido, p’ra meu desespero. Aqui pelas tantas da vida me deparo aflito e me perguntando onde diabos você estava que não atendia as minhas ligações, dei pra maldizer as relações dos outros, como se me defendesse dos “defeitos” que venho então encontrando em mim. Me pego rindo sozinho da sua risada, de me deparar com tuas coisas jogadas na porta da minha sacada; de quando você fica com as bochechas vermelhas de fúria, até disso me pego rindo. Me tornei um romântico; mais um.

Me pego pensando no quanto mudei depois de ter você e sinto um calafrio, como quem desce uma montanha russa de olhos fechados, deixando um pouco da sanidade para trás em troca de emoção. Me sinto esvaziando por um breve momento. Mas então, você sai do quarto e cruza a sala com a sua camiseta velha e meias coloridas, passa o seu indicador pela minha nuca e ri olhando para trás enquanto vai para cozinha. Ah! Isso me basta! Dou um sorriso derretido, tolo, e me enterro novamente no meu livro pensando – “Graças a Deus sou imbecil!”.

Rodrigo Lima Romano

Crescer é um Saco!

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Me lembro até hoje do entusiasmo que eu senti quando montei a minha primeira pipa, aos 4 anos de idade. Aquele jogo de varetas interminável com papel de seda em que eu teria alguma sorte se não terminasse eu mesmo colado ali no meio.

Me lembro do pé de árvore logo depois do meu portão, na calçada do vizinho, e da cicatriz que eu tenho na lombar de ter caído de uma altura razoável de costas. Lembro de brincar em todos os montes de areia possíveis da minha rua quando tinha alguma casa em construção ou reforma. Esses montes de areia de transformavam em fortes militares, trampolim para amortecer quedas dos muros, castelos em países longínquos e as vezes só uma mesa para os amigos sentarem e discutirem suas vidas aos 5 anos de idade. Me lembro do suco da feira que vinha em um pacotinho em forma de carro (fusca), revolver, pizza. Me lembro que vendiam cigarro de chocolate, e apesar de ser absurdo ninguém enxergava maldade nisso. Lembro do chocolate da Turma da Mônica que vinha com um personagem em chocolate branco do lado de dentro. Lembro que kinder ovo custava 0,69 no mercado e 1,00 no bar da esquina. É o Tchan não era pornografia e cada aniversário era um evento temático mais bem organizado que as festas que vou hoje.

Ir pro colégio era um evento social. Meu primeiro videogame era um MasterSystem com Alex Kidd na memória. Lembro até hoje da revolução que foi quando chegou o CdPlayer, e quando o computador deixou de ser só da “moça do banco”. A TV Cultura era meu melhor amigo junto com o Pedro, o Nino, a Biba e o Zequinha. Tomava leite batido falando que era milkshake e pff que internet o que, o nosso bate papo era o bate-esconde.

Que saudades da minha infância. Crescer é um saco!

Rodrigo Lima Romano

Rapte-me Camaleoa

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Por todas as vezes em que você não desistiu de me beijar quando eu estava extremamente irritado. Por você entender o meu mau humor matinal e ficar 10 minutos do meu lado sem dizer uma palavra até poder me abraçar – aos poucos e então me apertar contra o seu corpo. Por se aninhar no meu ombro enquanto vejo TV e por não ligar de assistir aos dramas que só eu gosto. Por me obrigar a ouvir as suas bandas, as quais eu resisto por pura birra pra depois me viciar, insuportavelmente. Você sempre teve bom gosto musical, admito. Obrigado por me aguentar cantando a mesma música no banho enquanto você escova os dentes; por gostar daquele whisky barato e por ter muito mais preguiça do que eu achava ser humanamente possível. Por chorar junto comigo sem julgar a gravidade do motivo. Por não achar estranho eu separar suas roupas por cores. Me elogiar em seguida por isso porque sabe o quanto sou vaidoso.

Eu poderia enumerar uma lista imensa das razões que me fariam ser louco por você. O faria diariamente, me convencendo por dentro de que você existe em algum lugar do mundo, bebendo com os amigos em algum boteco talvez, ou vendo algum filme francês presunçoso, coçando a cabeça na esquina de alguma avenida sem saber pra onde ir. Às vezes me pego nesse cenário de nós dois juntos, por pura bobeira minha, romantismo em excesso. Acho que ando lendo Caio Fernando Abreu demais. Imagino você atravessando a porta do meu quarto só de meia e com uma camiseta minha velha, furada. Você se sentaria na minha cama e deitaria na minha coxa enquanto eu enrolaria os seus cabelos. Perco horas pensando nessas pequenas cenas do dia a dia, tanto que se foi mais uma garrafa de vinho e eu aqui divagando. Mas daí olho pela janela e me dou conta dessa verdade cruel de que talvez você só seja essa pessoa porque existe apenas na minha cabeça. Pensativo acendo mais um cigarro e me perco entre os prédios de novo. Por onde anda você?

Rodrigo Lima Romano

Buarqueando-te de Hollanda

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Dei agora de remexer no livros e te procurar; de variar nas ruas, esquecer meu endereço, de uivar. Minha mãe sempre diz – ‘Não há dor que dure pra sempre!’ – tudo e vário, temporário, efêmero. Sempre estamos, nunca somos. E de beber de manhã logo cedo é que se construiu meu calabouço; a saudade, engole a gente menina. De quando em quando me pego andando pela cozinha e me vem teu cheiro nas quinas, na madeira lascada de velha, e digo pois que você sumiu no mundo sem me avisar, e que agora eu era um louco a perguntar: o que é que vida vai fazer de mim? Eis que agora faço samba e amor até tarde, e tenho muito sono de manhã. E quem sou eu pra falar de amor, se o amor me consumiu até a espinha. Por essas minhas andanças de boteco em boteco te compus o dia a dia, teus beijos de café, de hortelã, tua boca de maçã. Às vezes te maldigo pelas costas, mas que coisa chorosa de se fazer, maldizer não vale a pena. Daí me lembro do teu jeito de cinema, do teu choro dos olhos pra fora, ora, e que quando eu choro é uma enchente surprendendo o verão. Esquece. No fim nada importa – a dor da gente não sai no jornal.

Por isso, às vezes nessas andanças de gente doida, sigo pensando em você. Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar. Não para sempre, porque para sempre é sempre por um triz, mas vem, que meu sangue errou de veia e se perdeu, que pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Abre teu coração, ou eu arrombo a janela.

Mas se resolveres continuar atinada a fugir, te digo agora um adendo menina: você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar.

Rodrigo Lima Romano

Dessas Tolices de Amor e Amar

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Eu tenho saudade. Poderia dizer que sinto falta apenas, um apertinho igual quando pica o dedo de agulha, mas decidi a pouco tempo rotular sentimentos da maneira correta, e eu não apenas ‘sinto falta’, sinto é saudades; sintomas irremediáveis de ‘nós’ no peito, repuxo amargo no estômago e pensamentos à deriva batendo de lá pra cá dentro da casinha. Morro de saudades. Coisa que sei lá o que, mas que é; que não diz pra quê, mas que se faz aqui. Quando pego pra lembrar das tuas cheganças, chega que a perna amolece e o coração descompassa em batedeira. Não fazia muito que eu nem sabia dos teus cheiros todos, e hoje me pego cerzindo as tuas lembranças junto dos cacos absortos do meu coração, igual pinga nova envelhecendo de carvalho. Costuro um bocado de apego junto, um bocado de chamego de pescoço, uma pitadinha de ciúme besta, igual de rapariga nova, e quando vejo já fiz uma colcha toda de retalho teu. Tenho dessas bobeirices. Às vezes me sento na varanda e me perco de vista correndo atrás do pôr do sol de céu laranja, com o capim batendo nas canelas e o cheiro de flor rasgando noite adentro. Daí lá na frente olho pra trás e como um boi laçado de corda me puxam de volta pra vida. Estou de volta na sacada remexendo na colcha e você lá longe correndo, até se perder na luz da lua.

Gente que ama tem dessas tolices. E eu aprendi de você a viver de saudade. “Se você soubesse o quanto gostava dessas suas cheganças, você chegava correndo todo dia.”

Rodrigo Lima Romano

Duas fatias

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Eu gosto de te observar pela manhã se sentando na minha cama para tomar café. De todos os meus hábitos matinais, este talvez seja o que eu mais gosto, já tão corriqueiro quanto o meu ritual de acender um cigarro com a minha caneca de café na sacada do quarto. Eu olho em volta de você e o quarto está completamente bagunçado; todas a minhas roupas amassadas jogadas no canto esquerdo da cama, emboladas à minha maneira, um amontoado confuso de tudo que usei ao longo da semana e fui largando pelo caminho. Pelo chão os restos de uma caixa de pizza com caroços de azeitona, caixas de cigarro vazias amassadas, moedas jogadas sobre o tapete, meia dúzia de cervejas vazias no canto da parede rabiscada, e no meio de todo esse caos poético, você com os cabelos amassados e uma camiseta velha comendo uma fatia de pão, tão, mas tão descompromissadamente que eu poderia quase afirmar que você cantava dentro da sua cabeça enquanto mastigava – delicadamente, e depois limpando os farelos no canto da boca. Depois de um longo período em silêncio te olhando, percebi seu moleskine aberto na sua coxa esquerda, inteiramente rabiscado, e na folha seguinte com algumas frases escritas que não soube identificar de onde eu estava. Você o segurou e então sem pestanejar me disse – “Por que você me ama?” – eu franzi a testa como que tentando entender de onde você havia tirado a pergunta. Novamente, e pontualmente dessa vez, você me perguntou: “Por que você me ama?” , e então de onde estava te encarei por alguns instantes, e nu caminhei até você e te beijei, não porque queria responder ou até calar a pergunta com aquele beijo, mas porque naqueles quatro segundos de caminhada a nossa história passou por mim como um caminhão, me atropelando e quebrando todos os ossos do corpo; eu simplesmente não saberia como responder, embora sempre soube que te amava, naquele instante, nos quatro segundos antes, no dia em que você entrou por aquela porta, no dia em que te conheci, tirando uma joaninha do seu braço enquanto você tomava um whisky conversando na sacada do seu apartamento. Acho que sou demasiadamente denso no fim das contas, e tentando te dizer algo rebuscado acabei por não dizer nada. Me redimindo então te devolvi a pergunta – “E você, por que você me ama?” – você me olhou dissimuladamente e semi sorriu, passou a mão pela minha cintura e sem hesitar me disse, “Porque você corta a casca do meu pão!”. Desde então tenho buscado exemplificar da mesma maneira, e embora me desgaste pensando nisso enquanto te olho todos os dias pela manhã, ainda não consegui assimilar algo tão maior, tão singelo, tão inocentemente devastador quanto a sua explicação do amor, que tantos autores já dissertaram exaustivamente sobre, mas que pra você, em toda a sua despretensão, cabe no simples fato de uma casca de pão cortada.

Talvez seja isso então, eu, você, um quarto sujo e bagunçado de paredes rabiscadas e duas fatias de pão com a casca cortada. Isso é o amor.

 Rodrigo Lima Romano