Vestindo o meu melhor

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Abri minhas gavetas. O que estava escondido entre calças e camisetas não está mais. Tirei tudo dos bolsos, do meio das meias e das cuecas, mostrei o meu melhor e pior entre traças e naftalinas. Abri o armário para nunca mais fechar.

Aprendi que segredos não podem ser escondidos entre golas e botões. Por mais bem passada que esteja uma peça, o amassado estará sempre exposto.

Tirei dos cabides os meus medos e os doei a quem precisava. Roupa velha só ocupa espaço, medo também.

Remendei os erros dos melhores looks. Mudei o estilo por não caber na minha ideologia e meu modo de ver o mundo. Não tento usar botões que não se encaixam em quem eu sou. Não visto peças que ficam largas no meu infinito particular.

Aprendi a apreciar a moda do ser, não a que criam, mas a que desenhei para mim. Moda você segue, estilo você cria, personalidade você tem. Deixei de seguir as tendências para criar as minhas. Está na moda ser igual, estereotipado e fechado. Mas é mais estiloso ser o que se é.

As gavetas estão abertas. Vazias de autopreconceito e cheias de verdade. E tomara que nenhuma dessas roupas caiba mais. Eu fico muito mais bonito sem receios. O meu melhor look é estar nu.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

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Morrer por causa de amor

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Estamos prontos para o fim. Não nos preparamos, mas sinto que marcamos a hora do enterro, para não perdermos a oportunidade de um olhar para o outro dentro do caixão.

Nos cruzamos pelo caminho e paramos em uma encruzilhada. Decidimos seguir juntos para um dos caminhos, sendo que cada um gostaria de ir para um lado. Estamos caminhando de mãos dadas, mas sofrendo com a pressão dos dedos. Você me segura e eu quero partir. Eu corro e você prefere andar. Você me puxa e eu só quero ficar parado um pouco. Eu te sinto longe e você me enxerga perto.

Estamos presos em um amor condicionado. A gente se ama na rotina e se odeia no inesperado. Preferimos o arroz com feijão ao invés de não ter prato preferido. Estamos em um ninho, mas com asas prontas para serem gastas. Nós somos paixão se esforçando para ser amor.

Entretanto, foi tanto de nós para os dois que nos sobrou pouco para nós mesmos. Já não temos mais a essência própria e o pouco que sobrou não nos basta. O amor se tornou líquido e a escassez está nos deixando com sede. Estamos morrendo, ao poucos, sem poder regar o melhor da gente.

Chegamos no dito final. Não temos mais nada, a não ser um ao outro. Enquanto existir vida, haverá morte. E se a vida a dois mata a própria vida, a melhor escolha é morrer. Não de amor, nem por amor. Melhor morrer por causa do amor.

 

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

Você é minha biblioteca

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Eu não preciso de óculos para decifrar as letras miúdas que encontram-se em seu rodapé. Consigo descobrir o que significa cada palavrinha, cada vogal e consoante perdida entre um sorriso e uma bronca. Consigo saber exatamente o que você deseja só de te olhar, sem precisar te abrir.

As suas entrelinhas são um prazer para a minha leitura. Através delas descubro por quais caminhos seguir, o que te aflige, como podemos caminhar para a felicidade. Você é o prefácio da minha vida. Por mais intangível que seja um sentimento ou uma emoção, consigo descobrir através do glossário que se esconde em seus olhos.

E cada vez que passamos por uma livraria, me pergunto: por que comprar um livro se eu posso te ler?

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

Menos amor, mais amar

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Eu não ligo para o amor, ligo para o que a gente faz dele.

Ter amor é muito fácil, é só se apaixonar em um café, em uma balada, em um aplicativo, em uma rede social. É só se envolver por meia dúzia de fotos e palavras trocadas. É fácil ter amor, difícil é saber o que fazer com ele. E isso a gente faz bem, muito bem.

A sinergia faz com que nos amemos mais. Dormir juntos e sentir o prazer de ter o corpo abraçado a noite inteira, até que a gente deixe de ser conchinha para se tornar pérola. Acordar no meio da noite e me deparar na cama com você é como ter a certeza de que escolhi o colchão e travesseiro perfeitos.

Quando estamos longe, não é a distância que incomoda, é a falta. A falta de te ter por perto, ainda que seja para cada ficar na sua, sem trocar palavras, nem olhares, só energia. E até o próximo encontro, nos acostumamos a conviver com a falta, pois sabemos que não vai faltar “a gente” quando o dia de ficarmos chegar.

Quando estamos juntos, temos muito mais do que amor. Temos motivos para amar.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

 

Reservei o meu melhor pra você

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Deixei de lado todas as manias irritantes que você provavelmente reclamaria, como almoçar vendo TV, esquecer a porta aberta, deixar a luz acesa, esquecer a chave na porta, não dar descarga, me atrasar, dizer que “já estou chegando” quando não estou, dormir cedo, ir de chinelo ao shopping, demorar no banho e deitar de cabelo molhado, mas deixei o melhor do pior pra você, pra me moldar de um jeito só nosso.

Parei com a rotina e aprendi a surpreender, a dar presentes sem motivo, a fazer surpresas a noite, a preparar o seu prato favorito sem que você peça, a deixar o seu travesseiro favorito na cama, a deixar você escolher o restaurante, a dizer qual é a sua melhor roupa, a elogiar o seu cabelo e a fazer cada dia da gente de um jeito único, para que você me descubra pra sempre.

Larguei num canto todos os xavecos, as cartas na manga, os contatos de sexo fácil, os rolinhos inacabados, quem ficou na geladeira, as mensagens não respondidas de Whatsapp, as cutucadas no Facebook e os flertes na rua, mas deixei o melhor do estilo canalha pra você, pra nós dois, pra nossa cama.

Voltei com a sinceridade e cansei das omissões, como quando falo quem é amigo de verdade, quando digo que poderia ser assim ao invés de assado, quando sentamos, conversamos sobre o relacionamento e digo o que está e o que não está bom, quando deixo de fingir que está tudo bem, quando conto algo que vai te magoar agora e vai ter fazer bem depois, quando deixo de te poupar com desculpas para te proporcionar uma falsa felicidade, sendo que posso te deixar triste por um momento e te oferecer a alegria da honestidade em todos os outros.

Troquei de lado, abandonei hábitos e me encontrei. Reservei o melhor de mim pra você, porque você é o meu melhor.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

TOM

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É o seu tom que me diz qual música está tocando. O entusiasmo em sua voz me faz dançar como se estivesse bêbado as três da manhã em minha balada favorita. Quando está ameno, é como ouvir a minha banda predileta no mínimo. E ao tentar sorrir com a fala quando na verdade esconde algo nas cordas vocais, ouço o som do desespero ecoando em um espaço vazio.

Eu sei a música que está tocando agora dentro de você pelo som que emite. Não tente mudar o disco, eu sempre memorizo as canções. Não tente alterar a trilha. Sou dono do seu tom.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

Forasteiro

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Você não ia ficar e eu soube desde o começo. Esses inúmeros presentes sem motivo, repletos de significados e histórias, feitos a mão ou selecionados a dedo não poderiam ter sido pensados por uma pessoa que quer estar ao meu lado até o fim da vida. Pessoas que desejam ficar para sempre não dão presentes, elas se tornam presentes. Você sempre esteve aqui, mas só quando sentiu que precisava, não porque realmente se importava. Ok, você tinha o poder de transformar o meu entorno em algo inusitado, com surpresas na madrugada, viagens de supetão e passeios a lugares que sequer imaginei existir. Toda intensidade tem um preço e o que você deixou foi uma dívida bem grande com a saudade. Eu sei que você não vai voltar e eu senti isso desde o começo.

Adeus, forasteiro.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/

O primeiro encontro com o amor

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Quando é amor, nunca temos certeza. Os indícios apontam, os ânimos se exaltam e o corpo responde. Eu te disse que dessa vez seria amor. Talvez você estivesse predestinado, mesmo não acreditando que amor seja ato do destino, mas da energia de quando se quer amar. E dessa vez você queria. Das outras vezes o amor era tanto que nem conseguia ser amor. Em um dos casos, o alicerce do relacionamento era a carência, a vanglória, a dependência psicológica de ambos. Não era amor, não era amar, eram pequenos luxos materiais conciliados com a falta de um sentimento real. A luxuria e a falta não se relacionam com o amor.

Em outro momento, em outra pessoa, encontrou-se o amor na fraqueza emocional. A personalidade desviada, a crise de identidade e a inconstância do ser deram o suporte a esse relacionamento. O amor era pautado em uma mente debilitada, que sugava as emoções de terceiros para enganar as próprias. No final, a matéria ficou em dívida e a alma levou a culpa. O erro de quem julga que ama é culpar o amar. Neste momento, sem muito ver e sem muito especular, só posso dizer que é amor. A carência foi traduzida em companheirismo, o luxo em simplicidade, a falta de identidade em personalidade, a dívida em crédito, a culpa em conformismo, o amor em amar. E se é amor, jamais terei certeza. Mas que se está amando, isso não há como errar.

Bruno Ernica, publicado em http://umsentimentopordia.com.br/

O que importa

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Estamos bem. Acho que finalmente chegamos ao ponto de dizer que não temos mais do que reclamar. O que importa é que aprendemos apreciar a rotina. Não ligamos que o almoço demore três horas para ficar pronto, estamos fazendo isso juntos. Não nos importamos em ver filmes ou séries repetidas, estamos fazendo por nós, pelo momento.

Não interessa que a gente só se veja por trinta minutos durante a semana, estamos fazendo isso pelo prazer da companhia. Estamos bem e o que importa é que aprendemos a nos encontrar nos erros. Seguimos com os mesmos defeitos, mas estamos consertando para que estes não nos incomodem mais. Continuamos com os mesmos vícios, mas agora tomamos cuidado para que estes não ofendam um ao outro. Permanecemos com o sofrimento, mas estamos aprendendo a lidar com o passado para que o futuro nos perceba.

Estamos bem e parece que percebemos o que importa. O que importa é que vamos olhar para trás sabendo que nos redimimos. O que importa é que vamos rir da última viagem que fizemos, da palavra que entendemos errado e do tropeção que demos nos pés da vida. O que importa é que sempre caímos de pé. O que importa é que estamos estudando um ao outro e que se ontem estávamos no ensino fundamental, hoje já estamos na graduação.

O que importa é que sabemos quais são os nossos limites, qual é o meu, qual é o seu, e quais deles devemos respeitar ou invadir. O que importa é que a gente não precisa mais ficar falando o tempo todo, o silêncio nos embala, conforta. O que importa é que notamos que precisamos um do outro, não por dependência, mas por conexão.

O que importa é que sabemos o que nos conecta, o que nos une e o que nos torna diferente de outras pessoas, aquelas que teriam entregado tudo o que importa para Deus, esperando que Ele arrumasse soluções e dissesse que é melhor ir para a direita ou esquerda. Mas isso não importa. Estamos bem, isso é o que importa.

Bruno Ernica, publicado em: http://umsentimentopordia.com.br/