Hoje foi o dia em que me perdeste.

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Só quero que saibas que hoje foi o dia em que me perdeste. Eu já estou longe de ti há algum tempo e isso foi uma opção exclusivamente tua, mas agora não há mais retorno, não há mais esperança, não há mais paciência e, desta vez, a opção é exclusivamente minha. Hoje o meu coração decidiu finalmente desligar de ti e da tortura que é acreditar que ainda é possível que mudes de ideias e me queiras só para ti outra vez. Não há pior castigo do que me teres abandonado com as palavras “mas ainda te amo”. Fizeste soar em mim todos os alarmes que tenho e por tua culpa os meus olhos, cheios de lágrimas, brilharam um bocadinho. Não podias simplesmente deixar-me chorar em paz sem plantares uma última ilusão na minha cabeça? Diz-me, por que razão não foste homem o suficiente para me deixar seguir em frente se não tinhas qualquer intenção de olhar para trás? Tinhas de saber que eu iria ficar com uma réstia de amor por ti que me fizesse pensar em nós todas as noites antes de ir dormir mesmo tendo uma outra pessoa ao meu lado?

Tínhamos tantas coisas em comum, nunca encontrei ninguém que me entendesse tão bem como tu. Não era preciso dizer grande coisa, tu já sabias. Ríamos das mesmas piadas, gostávamos das mesmas saídas em grupo de sexta-feira e dos mesmos programas a dois de domingo, tínhamos os mesmos objectivos de vida. Tínhamos tudo isso para dar certo e muito mais. Não éramos iguaizinhos um ao outro, mas assim também não teria piada; não ias poder gozar comigo por eu ouvir músicas de menina ou ver filmes lamechas e eu contigo por passares horas em jogos de computador a fingir ser um gangster ou uma criatura estranha ou qualquer outra coisa longe da tua realidade. Só que, acima de tudo, tínhamos algo só nosso: o amor que sentíamos. O amor aguenta tanta coisa, e tu bem sabes que o nosso aguentou, mas não aguenta tudo. Chega a um ponto em que é preciso dizer “basta” e esta é a minha maneira, não de o dizer, mas de o gritar, porque dizer já não chega, passou demasiado tempo para agora falar baixo. Quero ter a certeza que tu ouves e, principalmente, que eu oiço, pois se me ponho para aqui a sussurrar perco a coragem que preciso desesperadamente para me despedir de ti de uma vez por todas.

Amei-te tanto e, contra tudo o que é racional e teoricamente certo, continuo a amar-te. O meu corpo continua a implorar pelo teu toque mesmo depois de ter experimentado outros toques para tentar esquecer o teu. Só que hoje decidi que já não te quero na minha vida mesmo que, no fundo, te queira eternamente. Se costumava suplicar para que ficasses, agora suplico para que não regresses. Foste a melhor e a pior coisa que me aconteceu, e sei que ter de te dizer agora que não te quero seria ainda mais difícil do que há uns tempos ouvir-te dizer que tinhas de ir embora. Por isso, se não me amas, não me contes mentiras, e, se me amas, não me contes a verdade.

– Raquel Simões, publicado em: https://mrsminnieblog.wordpress.com

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Um não consegue amar por dois.

Take me home

Se eu não te conhecesse talvez conseguisses fazer-me acreditar que está tudo bem no teu mundo. Afinal, aparentas estar tão feliz! Mas não estás, pois não? Atiram o teu coração descontraídamente para o chão todos os dias e acabas a tentar colar os bocadinhos sozinha, não é? Cada vez mais tomas a opinião dos outros (desculpa, a opinião dele) como verdade absoluta e inquestionável. Se ele diz que não gosta de ti com cabelo castanho escuro, corres para o cabeleireiro para o aclarar sem pensar muito bem na mais importante questão de todas: Será que tu vais gostar?  O problema é que ele, passadas umas semanas ou se calhar até só uns dias, lembra-se que afinal não gosta de castanho de todo, e lá vais tu a voar para ficares loira ou ruiva ou seja lá o que for que ele considere bonito. E falo da cor do teu cabelo, mas podia falar do teu peso, da tua roupa, da tua faculdade, do teu trabalho, dos teus amigos, até da tua família.

Passas dias a fio em casa a preparar os exames dele e esqueces-te de tal maneira dos teus que acabas por não chumbar o ano por um triz quando já foste uma aluna tão esforçada. Dedicas horas e horas à procura de um part-time para ele que acabas por ter de andar a pedinchar gasolina à tua própria mãe para poderes servir de táxi quando ele vai às entrevistas (isto se lhe apetecer ir), porque, ele, coitado, não tem dinheiro para o combustível (claro, ele gastou-o todo naquela saída à noite com os amigos que, sem dúvida alguma, era mais importante). Preparas constantemente surpresas que pensas que ele vai adorar e valorizar, mas depois de ele ter o que quer preocupa-se mais em ver as mensagens do telemóvel do que em abraçar-te e, para variar, sentes-te como uma qualquer.

Já que ele não te ama, tentas amar pelos dois, e provavelmente nem te apercebes ou não te queres aperceber disso, não é? Olha, eu tenho um segredo para te contar: nunca vai funcionar. Vão haver alguns dias em que te vais sentir nas nuvens, como se finalmente ele tivesse mudado porque descobriu de repente que te ama loucamente, mas vão haver outros dias, e estes serão cada vez em maior quantidade, garanto-te, em que te vais sentir sem propósito, sem dignidade e sem personalidade própria. Vais acabar por perder tudo, não só ele (porque esse género de homem farta-se sempre se tu não te fartares primeiro, hoje ou amanhã ou depois) mas, mais grave, tu mesma. Eu sei que o dia em que tudo acaba parece impossível e assustador, mas com ele só existe esse fim. Cabe-te a ti escolher entre levantar a cabeça ou rastejar atrás de um idiota, mas, digo-te, para que alguém te valorize tens de te valorizar a ti própria primeiro.

Queres saber outro segredo? A razão pela qual eu te conheço tão bem é porque comigo também não funcionou: ele foi embora e, visto que já me tinha perdido a mim própria há tanto tempo, fiquei sem chão nem telhado. Queres mesmo investir na construção de uma casa que, ao menor sinal de sismo, vai abaixo e te deixa sem abrigo? Confia em mim, um não consegue amar por dois.

– Raquel Simões, publicado em: https://mrsminnieblog.wordpress.com e https://www.facebook.com/mrsminnieblog

Foi tudo sem querer, juro-te.

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Disseste-me que querias fazer uma coisa, mas que não querias levar um estalo. Eu perguntei o que era e tu respondeste que terias de me mostrar. Disse-te, então, que só saberias se e quando fizesses a tal coisa que não me podias simplesmente contar. Abraçaste-me, passados uns minutos (a ganhar coragem talvez?) sussurraste “por favor não me dês um estalo” e beijaste-me. Numa altura em que não conseguia parar de pensar nem 1 segundo, fizeste-me desligar os pensamentos menos bons durante bem mais do que isso.

Não, não me apaixonei assim que te vi. Não, não fiquei irracional após o primeiro beijo. Não, não quis namorar contigo depois de uns quantos excelentes encontros com uns quantos excelentes carinhos. Mas quis a tua companhia assim que ouvi a tua voz pela primeira vez ao telemóvel, quis a tua amizade assim que me fizeste rir até chorar na primeira vez que fui a tua casa, quis mais noites depois daquela primeira noite.

Sempre te disse que não sei o futuro e que na vida nada é absoluto, mas por agora só tenho a agradecer o facto de me fazeres ir dormir todas as noites com um sorriso na cara, e espero sinceramente que, se algum dia o amor acabar, prevaleçam a amizade e o respeito. És uma das melhores pessoas que conheci até hoje e, se pecas por algo, é por excesso de bondade e compreensão quando nem sempre os outros merecem, e isso inclui-me a mim própria. Tantas foram as vezes em que abri a porta por completo para que te fosses embora e tu preferiste ficar. Por isso, e por tantas outras razões, gostava imenso que ficasses para sempre na minha vida, seja de que forma for. Acima de tudo, quero que sejas incrivelmente feliz, porque um sorriso como o teu não serve para andar escondido. Se for eu a acordar essa felicidade em ti todas as manhãs, melhor ainda.

Foste tudo o que eu precisava quando quem tinha obrigação de o ser não foi e deste-me tudo o que eu necessitava sem esperar algo em troca a não ser o meu sorriso quando a quem eu já tinha dado tudo não me deu rigorosamente nada a não ser desilusão. Deixaste que fosse eu a ditar o tempo de cada passo, estiveste presente em todas as ocasiões em que te quis, e, sem querer, gostei de gostar de ti e quis-te mais do que ocasionalmente.

Foi tudo sem querer, juro-te.

 Raquel Simões, publicado em: https://mrsminnieblog.wordpress.com