Ai, que saudade d’ocê.

tumblr_lwguvzGnLr1qgqgnxo1_500

Ah, como a música tem o dom de falar pela gente com mais destreza do que as nossas próprias cordas vocais… Era Zeca Baleiro cantando Geraldo Azevedo. Mas bem que podia ser eu cantando ocê, o dono dos olhos mais lindos que essa atmosfera há de arejar, que esse mar há de banhar, que essa terra – com o perdão do realismo – há de comer. Eu, que tantas vezes canto atordoadamente alto no banco do passageiro do carro d’ocê, hoje cantei baixinho. Sussurrei, enquanto digitava quatro caracteres por segundo no teclado deste computador que me encara, mas que não me olha nos olhos. Que me aguenta, mas que não me suporta. Que me compreende, mas que não me decifra.

Ai, que saudade d’ocê.

 Agora já não é mais a música. Agora sou eu dizendo por mim. Sou eu tentando entender por que a saudade é indissociável do amor. Tentando encontrar o que tanto me falta, se eu tenho dois olhos, uma boca, duas orelhas, um punhado de cabelo, duas pernas, dois pés, dois braços, duas mãos, um tronco recheado de vísceras, um pescoço, uma cabeça, um cérebro, telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Tentando me defender desse sentimento, que seria estúpido se não fosse nobre. Tentando entender por que um dia sem ocê, meu bem, já é tempo demais.

Ai, que saudade d’ocê.

 E num lapso de serenidade, me reconforto. Porque sei que você vai voltar e bater na porta. E eu vou abrir. Com a minha melhor roupa, o meu melhor sorriso, os meus melhores beijos. Já dizia a sabedoria popular – quando é amor, é assim mesmo: a gente sente saudade antes de ir embora. A gente chora no adeus, que é pra gargalhar nas boas vindas. A gente se rasga na partida, que é pra se recompor na chegada. A gente se descabela ao ir embora, que é pra se descabelar ainda mais quando voltar.

 Se tem uma coisa mais sagrada do que o encontro, meu bem, essa coisa é o reencontro.

Bruna Grotti, publicado em: http://www.entendaoshomens.com.br/

Anúncios

Um brinde ao nosso encontro

04

Aí você pega na mão dela. A que está livre do drink ou da latinha de cerveja. E a tira pra dançar. Um forró, uma salsa, um samba a dois. Algo que sirva como um belo pretexto pra deixar os corpos assim, bem coladinhos. Que é pra você já sentir quantos miligramas de sal por litro tem o suor dela. Ou a quantos batimentos por minuto trabalha o coração dela. Ou se o cheiro dela é amadeirado, cítrico, floral, frutal, uma mistura disso tudo ou uma combinação de nada disso – até porque eu aposto uma rodada de cerveja que você não sabe a diferença entre essas porras todas. E se uma só música não for suficiente pra toda essa análise quântico-químico-corporal, dança mais uma. A noite é uma criança, dizem os sábios, que sempre são boêmios. E a próxima música é boa, dizem os sensatos. Porque quem não gosta de Caetano, pra mim, é porque falta um parafuso. E é Caetano cantando a menina do anel de lua e estrela, que definitivamente não é a moça que dança contigo. Mas que se fodam os anéis – no final da noite, o que ficam mesmo são os dedos.

E se tem um time de futebol que joga bonito no mundo, ah, meu filho, são os dedos. Nada de seleção brasileira, nada de Barcelona, nada de Corinthians. Convocação boa mesmo é mata-piolho, fura-bolo, pai-de-todos, mindinho e seu-vizinho. Então coloca todos eles pra entrarem em campo – seja deslizando suavemente sobre as costas dela, seja segurando com firmeza aquele braço desnudo enquanto vocês caetaneiam, seja empunhando a latinha de cerveja enquanto ela vai ao banheiro. E quando Caetano terminar de falar, aí, sim, você começa – afinal, dizem por aí que o verdadeiro sábio é aquele que sabe escutar em vez de simplesmente esperar a sua vez de falar. Pode começar perguntando o nome dela – o nome que você vai repetir duas ou três vezes enquanto ela te morde o pescoço na cama de um motel barato. Ou elogiando o sorriso que com certeza ela, moça sensata, abriu quando Caetano começou a cantar. Ou sugerindo um brinde, e quando ela perguntar a quê, simplesmente responda: ao nosso encontro.

E então pede um beijo, porque um beijo é uma reza prum marujo que se preza. E aí, se assim ela quiser, vocês rezam. E que sejam feitas as vossas vontades, assim na Terra como no céu. Todas elas, sem exceção. Com aquele capricho que o diabo gosta. E que ela não se deixe intimidar por aquele papo idiota de gente mais ocupada com a vida alheia do que com o próprio gozo e, caso sinta vontade, não tenha vergonha de convidá-lo pra terminar essa dança com o traje de gala mais especial de todos: aquele com os quais todos nós viemos ao mundo. Que, então, a sua barba deslize pelo pescoço dela. E que a língua dela deslize pelo seu peito. E que as roupas, de alguma maneira mágica e inexplicável (provavelmente devido ao teor alcoólico do sangue de vocês), deslizem para o chão. E que vocês se mordam, se molhem, se esquentem, se esfriem, se transpirem. E se inspirem pra, talvez, começar tudo de novo no segundo seguinte. Ou no minuto seguinte. Ou na manhã seguinte.

Porque quando você finalmente entende o que é química, você descobre que entrelaçar bons corpos nunca é demais. Que uma troca de olhares é capaz de arrepiar os pelos da nuca. Que um toque despretensioso provoca terremotos. Que um beijo demorado, assim, bem devagarinho, inicia um incêndio. Que gozar é coisa que a gente faz com o corpo inteiro. E que gente de bem não transa pra apagar fogo nenhum – gente de bem é aquela que abre os braços e se deixa consumir pelas labaredas. Ou você prefere mesmo continuar aí, no morno conforto do seu sofá?

Bruna Grotti

Fidelidade e safadeza

07

Uma vida fenomenal: bebendo vinho às sextas, saindo com os amigos aos sábados, dormindo de conchinha e sem hora para levantar aos domingos, discutindo políticas de erradicação da pobreza às segundas, tocando um Vinícius ao violão às terças, cozinhando um baião de dois às quartas e assistindo a um Tarantino às quintas.

Mas moças que dão na primeira noite não são nem pra dias da semana, quiçá pra vidas. Então você finge que não me vê, porque deseja desejar a beatinha, enquanto sou eu que poluo os seus pensamentos.

Mas tudo bem. Hei de libertar algum príncipe preso na torre de um castelo e convencê-lo de que fidelidade é absolutamente compatível com safadeza, sim, senhor.

Bruna Grotti

Pecando pelo excesso

481042_478067738896302_780748282_n

Daniela Mercury que nada. A cor dessa cidade sou eu. O azul do céu ensolarado, o amarelo da lua cheia na noite caliente, o vermelho do sangue na chacina da zona leste, o verde dos arvoredos em extinção na cidade grande, o cinza dos arranha-céus, o laranja dos faróis dos carros no engarrafamento quilométrico – há um quê de mim em tudo isso. Para o bem ou para o mal, meu arco-íris está aí, esbanjando neon. Ei, você, seja bem-vindo e venha dar a sua pincelada – só não procure na minha aquarela um azul calcinha para colorir a sua indecisão. Não trabalhamos com tons pastel, e nem há previsão de quando chega o primeiro lote.

Maldito seja o artista plástico avarento que misturou água ao magenta pra tinta render mais, e assim, num toque de engano, criou o tom pastel. A paleta de tons pastel é um incentivo à mornidão e um prato cheio para a paumolescência. A bandeira da paumolescência, inclusive, é listrada de verde-musgo, azul calcinha, rosa bebê e amarelinho. E é hasteada por gente que não faz ideia do que quer. Gente que não caga, mas que também não sai da moita, gente que não faz nem fá nem fu, que é de centro-direita, que é eclética e que se arrepende só do que não fez. Atriz, modelo e apresentadora que não dá na primeira noite, que não sorri nas fotos para amenizar as rugas, que não mistura destilado e fermentado e que paga cem paus para tatuar uma estrelinha vazada na nuca. Gente que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim. Enfim, gente tom pastel.

E é a elas que eu rogo: mais intensidade, por favor. Suspiros mais profundos, dedadas mais profundas, penetrações mais profundas. Sorrisos mais espontâneos, gemidos mais espontâneos, piadas mais espontâneas. Cores mais vivas, lembranças mais vivas, sofrimentos mais vivos. Céus mais azuis, rosas mais rosas, corações mais vermelhos. Meu coração é vermelho, e espero que o seu também seja, porque o que eu conheço de gente com coração nude não tá escrito… Que prefere não se envolver na iminência de sentir dor. Ou que até se envolve, mas que guarda segredo – afinal, discrição é virtude da nobreza. E que quanto mais conhece os humanos, mais se apaixona pelo próprio yorkshire – afinal, ele de lacinho fica mais bonitinho e mais digno do que o menino que faz malabares para ganhar a vida no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João.

Glorinha Kalil que me desculpe, mas prefiro pecar pelo excesso. De cores, de amores, de entrega, de álcool, de sal, de pimenta, de gordura trans. Porque se sobrar, eu doo, vendo, leiloo, empresto, negocio. Até tempero a sua comida. Agora, se faltar, corre o risco de o saleiro já estar vazio. Por isso, caros amigos tom pastel, convivam com o meu neon. Oito dias pro fim do mundo e vocês aí, se fazendo de rogados? Dá licença.

Bruna Grotti