Não seja o cara ideal

a-escolha

Me olha nos olhos e me puxa pela cintura enquanto uma das suas mãos aperta a minha nuca. Aproxima o seu rosto do meu e me beija como se fosse a primeira e a última vez. Me leva pra qualquer lugar só por me levar, a nossa companhia é mais importante do que o destino. Me abraça enquanto diz ao pé do ouvido tudo aquilo que sempre quis e teve receio de dizer. Dança comigo mesmo não sabendo os passos e com a certeza de que eu também não faço ideia de como dançar. Que a gente cante uma música junto no carro sem ao menos conhecer a letra direito. Ria e me faça rir de tudo isso. Saiba diferenciar a hora de segurar a minha mão e a hora de puxar o meu cabelo, daquele jeito meio pro lado, assumindo todo o controle.

Compreenda que não preciso de presentes caros e demonstrações públicas de afeto, prefiro um café na cama num dia qualquer, uma conversa gostosa às 4 da manhã e um bilhetinho surpresa dentro da bolsa. Quando eu não estiver tão alegre me mostre com um simples toque que a vida é boa e melhorou nesse exato momento.

Me leva pra casa e se despeça com um beijo demorado ao invés de um selinho, diga “até amanhã” para reforçar que no dia seguinte ainda estaremos juntos mesmo que isso não signifique que estaremos perto. Estude, trabalhe, saia com os seus amigos pra tomar uma, duas, três ou até perder as contas. Mas, me manda mensagem de madrugada ou de manhã só pra dizer qualquer coisa besta que se pareça com um “Tô com saudade de você”. Te darei espaço e você também dará o meu para que quando nos encontrarmos, espaço algum exista entre nossos corpos e mentes.

Sinta vontade de me contar sobre suas conquistas e seus fracassos, se abra pra mim, mesmo que isso aconteça bem devagar e aos pouquinhos. Eu espero pacientemente e te ajudo a tirar cada peça até nos despirmos completamente e chegarmos aquilo que verdadeiramente somos. Que eu seja aquela que você diz coisas que não pode dizer aos seus amigos homens porque eles não entenderiam ou ririam de você.

Não precisa reparar em detalhezinhos insignificantes como os quatro dedos que cortei do meu cabelo, mas, quando for me buscar me olhe como quem se pergunta “Como você pode estar ainda mais linda que da última vez?”. Também não precisa recordar de todas as datas, porém, quando ver um casal de muitos anos na rua, lembre-se da gente e dê um sorriso bobo. Que haja algumas semelhanças nos nossos ideais, mas, por favor, não seja igual a mim. Que tenhamos opinião própria e gostos diferentes, pois, assim um mostra coisas novas pro outro e soma, acrescenta, cresce… E constrói… Um relacionamento baseado no respeito, que é muito mais forte e bonito do que o motivado por similaridades.

Vá com calma enquanto o resto do mundo me pedir pressa, seja meu sossego. Goste de me ouvir falar e aprecie também os silêncios ao meu lado. Não fale sempre tudo que eu quiser ouvir, não faça só o que eu esperar, não preencha pré-requisitos nem se preocupe em atender expectativas minhas. Mude minhas perspectivas, não seja quem eu sempre sonhei. Me ensine que o cara ideal não é aquele que a gente cria nos nossos sonhos e sim aquele que consegue ser ele mesmo.

Jessica Delalana, publicado em: http://www.casalsemvergonha.com.br/

Anúncios

Dois singulares, um plural

o-HAPPY-COUPLE-facebook (2)

Te vi. Você estava no meio da multidão. Entre tanta gente igual, entre tanta gente normal, lá você estava. Foi estranho. Senti uma pontada no peito e um frio na barriga. Era como ver um sonho se realizando bem diante dos meus olhos.Um sonho daqueles que a gente se esforça para não piscar e, de repente, perceber que estava apenas dormindo. Você sorriu, eu corei. Senti as bochechas se aquecerem e as mãos gelarem. Você se aproximou, eu o abracei. Você era tão real e ao mesmo tempo tão demasiadamente incomum para ser de verdade. Senti no seu abraço a forma e o calor exato para envolver o meu corpo e a segurança necessária para proteger o meu cético coração. A alegria bateu, eu resolvi abrir a porta.

Não, aquela não foi a primeira vez que te vi, mas foi a primeira vez que te enxerguei tão nitidamente. Naquele exato momento, te reconheci: Você era o cara que surgiu para me mostrar a incrível sensação de viver com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. Não foi à primeira vista, não foi após o primeiro beijo. Foi quando eu já conhecia a diferença da sua voz nos dias normais, nas horas de sono e nas épocas de gripe. Também conhecia o seu cabelo bagunçado de domingo, todas as cores dos seus olhos, cada sarda do seu rosto e o desenho da sua barba cerrada. Já havia me identificado com o seu jeito desajeitado e a sua teimosia que insistia em ser maior que a minha. Foi depois de descobrir todas as suas manias loucas, o seu prato montanhoso no almoço e o seu relacionamento sério e poligâmico com o futebol, a cerveja e os livros. Aliás, também já havia percebido que você não era normal. Sim, pois, mesmo depois de me conhecer tão bem, resolveu ficar. Onde há sanidade nisso? Não leve a mal! Cá entre nós, eu sempre achei a loucura bem mais legal mesmo.

Nunca foi uma dessas paixões avassaladoras, destruidoras e repentinas, feitas para acabar, como muitas. É um desses amores calmos, quentes e construídos com o tempo, feitos para durar, como poucos. Não somos iguais, não somos opostos, penso que somos equivalentes. Nos descobrimos juntos a cada dia, mesmo entre nossas histórias independentes e completas. Eu aqui e você lá. Se estamos longe, permanecemos perto. Você jamais me causou insônia ou dor de cabeça. Pelo contrário, ao final do dia, quando eu sinto as pálpebras se fecharem e os cílios se encontrarem é o seu rosto que eu imagino, ensaio um sorriso e o sono mais tranquilo me invade. Aí eu acordo no dia seguinte e percebo o real motivo: Você, diferente dos outros, não veio tentando preencher meu copo, que sempre foi cheio. Você veio para trazer o seu copo também para juntos brindarmos nossas vidas que mesmo tão singulares adoram ser um plural.

Jessica Delalana, publicado em: http://www.casalsemvergonha.com.br/