Ele veio

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E ele veio com tudo que tem direito: borboletas no estômago, trilha sonora amorosa, arrepio na espinha quando lembro do beijo dele, coração que pula descompassado quando ele está perto. E ele chegou sem me virar do avesso, mas aceitando todas as vezes que eu fico meio ao contrário. Ele chegou e com ele umas segundas feiras mais gostosas, umas poesias mais bonitinhas, umas roupas mais coloridas. Teve sol, teve chuva, fez calor, fez frio e os olhos dele continuaram os mesmos. Teve noite, teve dia, teve madrugada de suspiros e declarações baixinhas e, no dia seguinte, ele me sorria mais ainda. Ele veio e eu descobri: depois de tanto tempo, eu estou apaixonada.

Larissa Bottas, publicado em: http://poesiasemdono.tumblr.com/

Ensaio

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Oi, tudo bem? Você tá acordado? Tô com uma vontade de saber de você. Me conta como foi a semana, me conta num email no meio do dia. Acende um cigarro. Se der vontade, me liga. Se puder esticar, alcança uma cerveja. Tenho pensado em você com força e carinho. Sempre desejando que você durma bem pra chegar sorrindo. Sempre te sequestrando da solidão da insônia caso você não tenha sonhos bonitos. Sabe, amor, as coisas estão mudando dentro de mim. Ainda não sei bem explicar o quê. E queria muito que você me escutasse. Me deixa, então, escrever pra você como se minhas palavras tivessem algum efeito essa noite? Me deixa te dizer em fala de sedução sem muita poesia o quanto tua voz rouca me arrepia? Sinto falta de você me abraçar. Mas não os abraços de amigo que nos damos todos os dias. Sinto falta de você me beijar e não são os beijos carinhosos na testa pra me desejar chegar bem em casa. Sinto falta de você me fazer mulher. Me fazer anoitecer no teu peito e amanhecer com teu café. Sinto falta da gente se enroscar, se atracar, se entender. Sinto falta do cheiro da barba, do gosto da saliva, das madrugas estendidas. Mas, mais que isso, sinto falta da possibilidade. Da gente terminar a noite sem saber o que vai acontecer, aonde é que a gente vai dormir – se é que a gente vai dormir. Hoje a gente já sabe o que vai acontecer, não tem mais o mistério da chance da gente se roubar. A gente se despede, sorri e fica aquele nó de coisa que a gente não fez. Sobra as explicações e decisões. Fica o vazio na noite deixando o beijo pra depois, fica cada um em sua cama querendo trocar a insônia por um pouco de carinho. Fica aquele desejo porque a gente morre de medo do que vem por aí. Fica essa vontade que não passa porque a gente não tem coragem de ser um pouquinho mais do que bons amigos. Ficam essas minhas cartas enormes que eu sei que você lê todas. Mas sabe, cansei de me prolongar. Não quero mais me convencer. Não quero mais me segurar. De uma vez por todas, pra um nunca mais somente dessa noite, vou te ligar e não vou dizer nada. Serei breve: vem.

-Oi, tudo bem?
(…)

Larissa Bottas

Sobre a familiaridade

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Moço, me diz, por favor, de onde é que vem essa sensação de que você sempre esteve aqui, quando eu sei que não estava. Me diz de onde vem essa musicalidade toda com tua risada e me explica como é que eu sei o ritmo se nunca ouvi antes. Conta pra mim como teu olhar nunca se deparou com o meu e, ainda sim, me contar histórias sobre você antes mesmo da gente se encontrar. Diz pra mim de onde a gente se conhece porque, se não for daqui, vou achar que é destino.

Porque, se não for daqui, terei que ficar um bom tempo. Porque, se não for daqui, terei que cruzar meu caminho com o teu pra sempre, mesmo que eu sinta que eles não se descruzaram nunca. Por isso, conta duma vez por todas que não é daqui para que tenhamos que criar uma vida agora, só pra gente se lembrar que a gente se conhece de outras.

Larissa Bottas

Culpa de dois

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Eu não tenho nenhuma justificativa, meu bem, senão a única a qual aceitei. E me exponho aqui às claras sem nenhuma vergonha em te dizer. Eu fiquei porque escolhi ficar e não porque eu não podia partir. Eu fiquei porque eu quis apostar, quis arriscar, quis pagar pra ver. Fiquei porque o amor que eu tinha sempre foi maior que a necessidade de ir embora.

Fiquei porque preferi acreditar que o tempo constrói ao invés de desistir no meio da empreitada. Preferi não virar às costas e aceitar, do jeito que fosse, o que você podia me dar. E eu poderia, como tantas outras vezes em minha vida, deixar tudo pra trás. Torcer pra que os caminhos se descruzassem nas esquinas onde nos conhecemos tão bem e me abrir para que o destino tratasse de colocar outro amor no teu lugar. Eu poderia, mas eu fiquei, fiquei porque eu te amei, tanto ou nunca como alguém um dia irá; e mesmo com o coração confuso, eu fiquei.

Fiquei porque eu vi que você queria se encontrar. Mas eu não vi que teu excesso de cuidado de me ter sempre por perto era pelo tanto que a gente havia se tornado amigo e, isso, infelizmente, só me foi esclarecido quando você já nem fazia ruídos. Fiquei porque você me fez acreditar que o tanto que eu te amava, um dia você também poderia me amar. Então, não me culpe e não me diga que sou teimosa. Não diga, por favor, que entendi tudo errado quando você mesmo não me deixou partir porque de alguma forma você também tentava.

Larissa Bottas

Delicado

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Olha só, moço, faça o favor de desfazer as malas. Venha fazer descanso no meu peito, que sol nasce na minha janela de dia quando a gente acorda bem. Venha se balançar nos meus braços como numa rede na varanda, porque a brisa pede que seja suave, o jeito que a gente carrega o outro. Venha se deitar ao meu lado porque quando a gente consegue ver estrela no céu temos mais um bom motivo pra fazer amor. O que restou aqui, quando você saiu pela porta, foi o saber “se ouvir” que você me ensinou. O teu não jeito com as palavras, a tua ausência de explicações, me fez ficar em silêncio também. E o que escutei, quando eu não fazia mais barulho, era que todo o sossego que eu sentia contigo não pertencia ao que tínhamos, mas sim ao que você trazia quando sorria pela manhã.

Larissa Bottas

O avesso do avesso

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Ei, vem cá, vem que eu quero muito te dizer algumas coisas dessas que não se dizem corriqueiramente, apesar de minhas palavras soarem como antigas canções de um disco riscado e que você já conhece de cor. Não é estranho como sempre tenho algo a dizer? Não é estranho como minhas palavras não parecem se esgotar? Mas a verdade é que não resisto em escrever sobre você.

Você e teu jeito confuso. Você e tuas cheganças. Você e teu silêncio. Você e tuas partidas. Me parti. Passei dias sonhando acordada, mirabolando um jeito de voltar ao tempo, de ter feito as coisas de um jeito diferente. Não encontrei nenhum. Me entreguei. Te pertubei. Te amei – da forma mais espontânea que eu poderia, respeitando cada sentimento exacerbado que eu sentia. Não resisto em me culpar. Eu e meu exagero de palavras. Eu e minhas explicações. Eu e minha inconstância. Eu e minha insistência em ficar.

Mas você sabe, meu bem. Amor não se mede e queria muito te avisar que o que tem aqui que não acaba não são palavras. O que tem aqui que não acaba é sentimento, apesar de não saber o tamanho. Mas é uma dessas coisas que vira e mexe ganha novas proporções e sinônimos. E vira o avesso do que eu ia dizer. E me vira do avesso.

Larissa Bottas

Eu não sou lá grande coisa

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Meu bem, olha bem pra minha cara. Você acha mesmo que eu não sou complicada? Acha que eu alerto pra eu ter um pouco mais de graça? Querido, eu não sou do tipo de mulher que faz tipo. Eu sou isso aqui mesmo que pareço: bagunçada, espontânea, escandalosa. Assusta, eu sei. E desperta a curiosidade e você acha que, “não, não pode ser verdade”. Pois é bom que pense isso mesmo, porque a real é que eu não sou tão incrível quanto você pensa.

E depois de um tempo você vai ver o quanto eu sou chata. Vai ver que às vezes eu almoço coxinha e que bebo mais café que água. Vai ver que eu sou inconstante e que aos domingos eu gosto de não fazer nada. Vai ver que eu não tenho ciúmes e vai pensar que eu não me importo como eu deveria. Vai ver que por qualquer coisa eu escrevo poesia.

Vai ver que eu tenho TPM, que choro quando estou sensível, que triste sou calada. Vai ver que sou uma pessoa exageradamente falante, que tenho memória de elefante e que meus planos nunca servem de nada. Você vai me conhecer e você vai me achar um desastre. Verá que tenho um passado que me persegue, um par de asas que não me abandona e amigos mais malucos que eu. Você vai me conhecer e vai descobrir que eu adoro fumar, que eu adoro filosofar e que eu tenho pouco sono.

Que eu só sei fazer um tipo de comida, que eu gosto de noites bem dormidas e que de manhã eu conto meus sonhos. Você vai me conhecer e vai ver que eu gosto mais de bicho do que de gente, que gosto mais de lugar cheio do que vazio e que gosto mais do barulho do que do silêncio. Que eu bebo cerveja igual homem, que eu gosto de jogo de cartas e que eu adoro contar piada. Então, cuidado, não vá pensando que sou lá grande coisa.

Larissa Bottas