Meus erros

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Nem sempre eu sei pedir desculpas. É que tenho um lado orgulhoso que me enreda e me deixa meio atrapalhada. Nem sempre sei dizer as coisas certas. É que às vezes fico paralisada e com medo de colocar tudo a perder. Logo eu, que gosto tanto de ganhar. Nem sempre sei ser adulta. É que, como eu já disse, não sei perder. Quero tudo para agora, pois daqui a cinco minutos não sei para onde a vida vai nos levar. E isso me assusta.

Sei que nem tudo pode ser do meu jeito, mas insisto em não aceitar as coisas. É claro que existem muitas formas certas, mas sempre acho que a minha é melhor e isso me desgasta. Deveria aceitar as pessoas como elas são, mas sempre espero demais, tenho expectativas, tenho aquela esperança boba de que algo mude com meu toque mágico. Mas não tiro coelho da cartola, pois nem cartola tenho.

Preciso parar de querer que tudo seja como eu quero. Frase estranha, eu sei. Mas vivo querendo que tudo seja como eu imaginei e as situações muitas vezes me dão rasteira, me estatelo no chão e fico sem saber o que fazer com meus pedaços feridos.

Esperar não é pra mim. Se eu preciso de uma coisa é para agora, não adianta ser depois. E se você não entende isso, tudo bem, deixa que eu faço e depois jogo na sua cara que fiz. É que tenho essa mania feia de jogar na cara do outro.

Ninguém é massinha de modelar. Não posso te amassar, te moldar, te arrumar da forma que quero. Você é como é, eu sou como sou e podemos nos aceitar assim ou não. A escolha é só nossa. O problema é que sempre achamos que podemos tudo, mas não podemos nada. As coisas são dessa forma, você aceita se quer. Uma pessoa só muda se quer, se tem vontade, se faz esforço. Eu não tenho poderes para mudar ninguém, mal consigo ajustar o que anda desajustado em mim. O dia que todo mundo entender isso vai ser mais fácil viver a dois, a três, a quatro, a mil.

Clarissa Correa

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A gente tem que ser de verdade

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Não gosto de quem se esconde atrás de uma palavra, um escudo ou base para o rosto. Não tolero quem diz uma coisa e faz outra, quem promete e nunca cumpre, quem diz que ama e nada sente. Não suporto quem tenta aparecer a qualquer custo, quem acha que o dinheiro compra tudo, quem esquece do que mais importa.

Gosto de quem mostra o rosto suado, as mãos sujas, o verbo esparramado, os pés descalços. Gosto de quem não tem medo do não, de quem perde o controle, de quem esquece a razão. Gosto de quem se molha na chuva, suja a bochecha de melancia, deita na grama pra olhar o céu. Gosto de quem não esconde a emoção, de quem não se importa em secar a lágrima, de quem perde a hora vendo a paisagem.

Não gosto de quem fala pelas costas, tenta dar o gole, passar a perna ou esconder o jogo. Não gosto de quem trai a si mesmo e o outro, distribui promessas rasgadas, espalha mentiras. Não gosto de quem força amizade, vive de aparências ou reage com grosseria.

Gosto de quem olha com doçura, nunca perde o encanto, esquece as desavenças e perdoa o que passou. Gosto de quem se arrepia com uma música, sente uma lágrima rolar com um filme e se alegria com uma lambida de cachorro. Gosto de quem sorri ao ver uma criança, de quem mantém seu lado puro, de quem entende que a vida é melhor quando a gente observa o que acontece com olhos inocentes.

Clarissa Correa, publicado em: http://www.clarissacorrea.com

A sobra e a falta

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Falta um bocado de coisa neste mundo. E sobra outro tanto. Falta bom senso. Falta verdade. Falta respeito. Falta vontade. Falta educação. Falta saúde. Falta amor. Falta sinceridade. Falta igualdade. Falta paixão pelas coisas e pelas pessoas. Sobra egoísmo. Sobra estupidez. Sobra crueldade. Sobra desonestidade. Sobra preguiça. Sobra falta de caráter. Sobra achar que o mundo inteiro tem culpa das suas pequenas derrotas. Ainda dá tempo de mudar. E as mudanças, ainda que pareçam invisíveis num primeiro momento, começam dentro da gente. Sim, é clichê, banal, frase feita e o escambau: mas tudo começa aqui dentro, aí dentro. Uma hora a gente tem que fazer acontecer, senão a vida passa e acontece sozinha, sem o personagem principal, que é você.

Clarissa Corrêa

Essas coisas do coração

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Você já foi adolescente. E já se apaixonou perdidamente. E já ficou grudada no telefone esperando uma ligação. E já recebeu a ligação tão esperada. E já revirou o closet procurando uma roupa que você nunca teve. E já ficou ansiosa e nervosa e perturbada. E já chorou porque a ligação esqueceu de acontecer. Ou será que foi o paspalho que não lembrou de ligar? O fato é: você, em algum momento, já pensou ele-é-muita-areia-pro-meu-caminhão. Em contrapartida, em tantos outros momentos você já se perguntou eu-hein-como-fui-gostar-desse-cara?!? A vida, minha amiga, é uma eterna repetição. A gente repete e repete e repete, bate com a cara em uma rocha e quase se afoga nesse oceano que é a vida, mas acredite: ninguém aprende quando o assunto é o coração.

Já aconteceu comigo. Me apaixonei e reapaixonei. Me estrepei e me dei bem. E muitas vezes pensei: sou muita letra para o alfabeto desse indivíduo, muita palavra para o dicionário desse ser não-pensante. Sua mãe pode avisar, a melhor amiga pode mostrar o cartão amarelo, o mundo pode mandar você descer: uma mulher apaixonada vai além das forças. Mas a paixão acaba, é uma espécie de onda grande. Vem e te derruba, vem e dá um caldo, vem e faz você engolir água e ficar tossindo. Depois, só a sensação de falta de ar, medo de que venha nova onda forte e faça você ajoelhar no fundo do mar, arranhar o joelho e sair sangrando. A paixão faz a gente perder o biquíni com aquela onda gigante. Você fica desnorteada pensando o-que-houve e, ao mesmo tempo, procurando o biquíni e protegendo os peitos dos olhos curiosos. Paixão faz a gente fazer maluquice e um dia pensar nossa-que-maluquice.

E o amor?, você me pergunta. O amor, ah, sei lá. O amor nem dá pra definir direito. Acho que é um desejo de abraçar forte o outro, com tudo o que ele traz: passado, sonhos, projetos, manias, defeitos, cheiros, gostos. Amor é querer pensar no que vem depois, ficar sonhando com essa coisa que a gente chama de futuro, vida a dois. Acho que amor é não saber direito o que ele é, mas sentir tudo o que ele traz. É você pensar em desistir e desistir de ter pensado em desistir ao olhar pra cara da pessoa, ao sentir a paz que só aquela presença traz. É nos melhores e piores momentos da sua vida pensar preciso-contar-isso-pra-ele. É não querer mais ninguém pra dividir as contas e somar os sonhos. É querer proteger o outro de qualquer mal. É ter vontade de dormir abraçado e acordar junto. É sentir que vale a pena, porque o amor não é só festa, ele também é enterro. Precisamos enterrar nosso orgulho, prepotência, ciúme, egoísmo, nossas falhas, desajustes, nosso descompasso. O amor não é sempre entendimento, mas a busca dele. Acho que o amor não é o caminho mais fácil, pois mais fácil seria dizer a-gente-não-se-entende-a-gente-não-combina-tchau-tchau. O amor é uma tentativa eterna. E se você topar entrar nessa saiba que o amor encontrou você. Seja gentil, convide-o para entrar.

Clarissa Corrêa

Nosso amor esquizofrenico

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Acordei com saudade de escrever para você. Talvez assim eu te sinta perto. Ou quem sabe apenas desafogue o peito.

Era para ter dado tão certo. Se eu olho para trás sinto vontade de estapear a minha cara por não ter levado teu sentimento a sério. Lembra aquela vez em que você, com os olhos cheios de falta do futuro e esperança, perguntou quando nos veríamos novamente? Eu sorri com a ironia costumeira no canto da boca e da alma e disse “nunca mais”. Você baixou os olhos, como um menino que tem o carrinho preferido destruído por alguém que gosta de brincar de machucar.

Era para ter dado tão certo. Se eu olho para trás sinto vontade de estapear a sua cara por não ter levado meu sentimento a sério. Lembra aquela vez em que você, com os olhos cheios de sarcasmo, disse que eu devia te esquecer? Uma lágrima quente começou a caminhar lentamente por entre minhas sardas. E te ouvi dizer que deveria poupar meu choro para situações mais importantes e significativas. Senti meu corpo amolecer de tristeza e vi no seu rosto o vazio, não encontrei meu lugar preferido ali.

 Ainda lembro quando você disse que me queria. Para sempre. “Eu quero você pra mim. Pra sempre”. Talvez tenha sido coisa de momento, dramatização romântica, frase de filme água com açúcar ou apenas uma tática para derreter meu coração. Mas, sabe, eu acreditei. Eu acreditei na sua frase, nas suas letras, nas suas sílabas, na sua entonação, no seu olhar, nas suas promessas, no futuro que nunca chegou, no passado que tanto me fez feliz, ainda que tenha sido breve, cheio de altos e baixos.

 Você fazia questão de me magoar, eu fazia força para te provocar. Nosso encontro foi desencontrado. E o que tinha tudo para ser bonito acabou ficando cinza, distante, gelado.

Você gostava de loiras, minhas luzes estavam sempre em dia. Não gostava de decotes, passei a usar blusas mais comportadas. Não gostava de unhas vermelhas, deixei de lado minhas preferências e adotei a misturinha como esmalte oficial. Não gostava de mulher que falava palavrão e cada vez que eu batia o dedinho no pé da mesa, ao invés de caralho ou puta que pariu, eu dizia apenas um ai em dó menor. Fui me perdendo de mim para me aproximar de você. Até que chegou o grande dia. O grande dia em que eu não mais me reconheci. Olhei no espelho e vi, além da minha bunda boa, uma pessoa totalmente programada para fazer as vontades de outra. Só que essa outra não era eu.

Parei com as luzes, voltei a ter o cabelo natural. Ele veio acompanhado dos decotes, das unhas vermelhas, pretas e cinzas e tudo que eu sou. Porque eu sou assim, meio esquisita, muito romântica, um pouco atacada, nada perfeita e um tanto dramática. E se isso não foi suficiente para você, meu amigo, então você nunca vai ser suficiente para mim.

Clarissa Corrêa

A praia

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Nunca fui muito boa em aceitar as coisas. Sempre busquei uma explicação para tudo, meu lado Sherlock Holmes tem fascínio em descobrir tim tim por tim tim a parte oculta das coisas, o lado B das pessoas. Nem sempre isso é fácil e rápido, mas quando mergulho de cabeça em um assunto não há quem me faça sair dele.

Foi difícil acreditar e compreender que você me doía. Um sentimento não deve doer tanto assim, pensei diversas vezes. Mas, você sabe, sei me passar muito bem a perna, o braço, o apêndice e tudo mais. Perdi as contas de quantas noites deitei a cabeça no travesseiro e comecei a repassar mentalmente tudo que vivemos. Não me faltaram questionamentos. Onde errei? O que poderia ter feito diferente? O que poderia ter evitado?

Não era para você me doer tanto. Me apeguei, por instinto e carência, a pequenos detalhes, fagulhas, faíscas que jamais existiram. Ou existiram e eram pequenas demais. Voltei a repassar mentalmente tudo que podíamos ter vivido. O que você poderia ter feito? Onde você poderia ter aparecido, com um sorriso apaixonado e um olhar bobo, e ter me dito fica. Fica esta noite. Fica esta semana. Fica este mês. Fica este ano. Fica comigo esta vida. E na próxima também, porque eu sinto a sua falta a cada segundo que meu olhar se perde do seu. 

Tentei voltar no que ficou para trás, mas não consegui. O passado andava rápido demais. Os passos eram largos, intensos, firmes. E eu tentava desesperadamente correr atrás do que restou aqui dentro. Tudo foi em vão. O meu mundo ficou pequeno, apertado, sombrio e triste. Existia ainda algo sem cor e sem som chamado esperança. Uma esperança que renascia a cada dia. Esperança de que você se arrependesse e me pedisse com a voz trêmula e os olhos úmidos: fica. Fica até a gente se perder um no outro. Fica para sempre, ainda que a gente não saiba se ele existe realmente. Fica até depois que tudo terminar. 

Então eu tentei tirar tudo da cabeça em um happy hour com amigos, um novo corte de cabelo, um filme novo no cinema, uma bolsa nova, um novo papel de parede, aquela viagem tão sonhada. Por breves momentos até consegui, mas depois me dei conta que o novo nem sempre apaga o velho. E que não adianta tentar pisar em cima de todos aqueles castelos de areia, tem que deixar a onda chegar e levar. 

Quis voltar para onde tudo parou e tentar fazer de lá um novo começo. Um recomeço qualquer, mais bonito, diferente, sem os erros do passado. Mas percebi que inevitavelmente o tempo passa e as pessoas mudam e as lágrimas secam e você começa a se reerguer devagar. Então, sem tentar fazer força, você olha o que restou dos castelos que a onda levou. E percebe que está na hora de mudar de praia, de areia, de estrutura de castelo. E começar uma nova história. Do zero.

Clarissa Corrêa

Uma dose de paz

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Começou um novo tempo, pelo menos pra mim . Uma nova chance de fazer direito, por mais errado que pareça . Porque os olhos dos outros sempre enxergam diferente do que a gente sente .

E tudo bem . Ninguém é obrigado a nos conhecer por dentro . Além disso, tem o que a gente é, a imagem que a gente passa e o que os outros concluem dela . Não quero que soe petulante o que vou dizer, mas nem faço muita questão que as pessoas me conheçam a fundo . Tem gente que não merece o nosso coração aberto .

Certas pessoas não precisam conhecer nossa alma . Porque elas nem vão saber o que fazer com tanta informação . Tem gente ruim no mundo, já me convenci disso . Espero que você entenda isso também . E que não sofra tanto ao constatar que nem todo mundo quer o seu bem . Algumas pessoas sentem prazer em perturbar os outros . O que ganham em troca ? Não sei . E nem quero descobrir .

Quero uma dose de paz . E de amor . E de felicidade . E de sonho realizado . Quero pra mim . Quero pra você . Quero pra todo mundo que sente bem, que faz o bem, que se preocupa com o que é bom . Para o resto, quero só a justiça . Espero que as pessoas sejam mais tolerantes, que não resolvam tudo no tapa, que não machuquem os animais, que cuidem mais dos seus sonhos ao invés de tentar estragar a vida do outro com fofoca e sentimento barango .

Espero que todo mundo ame mais . Que se abram para o amor . Você pode me achar boba, mas o amor é o sentimento mais transformador e poderoso do mundo . Com ele, a gente pode tudo . Tendo ele no peito, a gente pode mudar o outro, mudar uma vida, mudar a gente mesmo . E isso é o que dá esperança e força para seguir em frente, por mais torto e esquisito que o caminho seja .

Clarissa Correa

O fundo do poço tem porão

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Muitas vezes a vida nos dá uma rasteira. A gente cai, machuca as costas, rala o cotovelo e esfola o joelho. E as lágrimas saem pretas, pois o rímel fica todo borrado. Nos sentimos num beco no qual a saída é inexistente. E, se existe, esqueceram de nos entregar um mapa com as coordenadas.

Quando algo dá errado, parece que todo o resto resolve dar errado também. Ao mesmo tempo. No mesmo momento. Naquele exato minuto. Oh, oh, o que está havendo? Sim, o fundo do poço tem porão. E subsolo. Se está acontecendo um problemão no trabalho, parece que o namorado resolve ficar chato, a mãe começa a cobrar a tua presença, os amigos parecem que estão sempre ocupados demais. Dá a sensação de que o mundo inteiro resolveu te apontar o dedo e dizer: nada dará certo. Vira tudo uma grande meleca. E ninguém quer nos explicar como sair dela.

Vocês terminaram o namoro. No dia seguinte, tu vai ao médico e, bingo, qual o nome dele? João. Tá andando na rua e escuta alguém gritando “Joãoooooo”. Na fila do supermercado, João. João. João. Parece que todo mundo resolveu ter o mesmo nome do ex. Nossa, nunca vi tantos carros verde esmeralda, do mesmo modelo que o dele! De hora em hora toca a nossa música no rádio. Parece até conspiração, certo? Errado.

Tudo depende do nosso ponto de vista. Se olharmos com cara feia pra vida, ela vai nos retribuir da mesma forma. Vai nos dar o troco. Não existe conspiração internacional. João? Tem muitos. Carros verde esmeralda? Diversos. A música toca a todo instante? Sim. É que tu nunca tinha percebido isso…até ficar sem o João. Se o problemão no trabalho te afetou, com certeza vais ficar mais sensível…isso faz com que veja tudo sob outro prisma. Se achar que está tudo ruim, tudo ficará ruim mesmo.

Quando tudo está semi-perdido temos que buscar uma pontinha-aquela pontinha-de perseverança. As coisas mudam. Pra melhor. Basta querermos. Pra isso acontecer a gente tem que acreditar na gente. Always. Em primeiríssimo lugar. Para todo o sempre. Se nem a gente tem fé na gente, quem terá? Sim, é um papo otimista. Mas verdadeiro.

Grande parte das nossas frustrações acontecem quando a gente espera que o outro tenha as mesmas atitudes que nós teríamos em determinada situação. Mas o outro é somente o outro. Ninguém é igual a ninguém. E nunca será. E pra nos ajudar a sair do fundo do poço, porão ou subsolo…só a gente mesmo. O outro, por mais que te ame e queira teu bem, não pode fazer isso por ti. Nem que ele quisesse.

Clarissa Correa

Acontece só uma vez

Um dia eu tive a impressão de que o amor tinha chegado. Meio súbito, meio sem jeito, meio calado. E aquele sentimento veio tomando conta feito nuvem preta no céu em dia de temporal. Começou um vento forte dentro de mim, uma sensação de inquietude. E minhas noites não foram mais iguais. Ficava esperando um sinal, uma marca, uma tatuagem. Alguma coisa que me dissesse que, sim, seria bom e duradouro.

Eu queria gritar, pedir socorro, mas a voz não chegava até a boca, não conseguia emitir nenhum som. Eu queria viver, sentir, saber, conhecer mais de perto aquilo que não tinha um nome certo, mas que eu queria que fosse amor. A gente quer que seja amor sempre. Acho que isso acontece porque a gente quer viver uma coisa bonita, uma coisa que todo mundo nessa vida diz que vive ou já viveu.

Quer saber um segredo? As pessoas mentem. Nem todo mundo viveu um amor. E não é todo mundo, desculpa a franqueza, que vai ter a chance, a sorte, a ousadia de viver um sentimento tão puro como esse. Eu queria de uma forma meio desesperada que fosse amor. E dizia que era.  Até sentia que era. Sentia porque eu queria, muito, sentir. Mas, olha, não era. Não era, não foi. A gente não foi tudo aquilo, não. Aquilo era uma paixão forte, uma coisa que me tocou, me mexeu, me revirou, chegou sem fazer barulho, pé por pé e depois fez um estardalhaço grande aqui no meu peito, na minha vida, nos meus dias, nas minhas noites. Aquilo quase me destruiu por dentro e por fora. Acho que você não entende direito o que quero dizer, mas quem já viveu uma paixão violenta e arrebatadora sabe do que estou falando. Dói, ai, como dói. E arrebenta por dentro. Arrebenta feito balão de festa. Estoura, entende? Estoura e não sobra nada, não sobra um pedacinho pra contar história. Aquilo é feito um vaso bonito e caro, que se parte em vários pedaços e muito, muito tempo depois de ter varrido a sala você encontra um caquinho naquele canto do sofá. Não, ninguém viu. Você varreu o melhor que podia, mas deixou aquele caquinho passar. E aquele caquinho traz de novo todas aquelas recordações que você pensou ter esquecido. Aquele caquinho traz aquele pedacinho que não tinha sobrado nem pra contar história. Então, as histórias aparecem. Uma de cada vez. Uma de cada vez, uma em cada lugar da longa fila. Uma que vem depois da outra. Uma que chega, te dá um pontapé e chama a outra.

No fundo era medo. Era um medo tremendo de deixar alguém chegar até onde ninguém tinha ido. Era um medo de ir até onde nunca fui. Era um medo profundo de perder a identidade, perder a hora, a cabeça, as verdades. Que besteira. Meu Deus, que besteira enorme! O amor chegou sorrindo. Sem gritar, sem calar, sem ponto de interrogação. O amor trouxe reticências. Algumas vírgulas. E muitos parágrafos. O amor trouxe novas folhas brancas. E pele, aconchego, abraço. O amor é um abraço apertado. Um beijo na testa. E uma mão firme que te ampara a todo instante. O amor é compreensão, é olho no olho, é promessa que cumpre, é voz que não gagueja, é quietude, segurança. É impossível esquecer um amor. E, sabe, sou daquelas que acha que amor mesmo, amor de verdade a gente só vive uma vez.

Clarissa Correa