Platônica

tumblr_nndnafQdIk1s2077ko1_500

De onde foi que você surgiu que eu não vi, não notei? Não vi quando chegou, nem quando me achou, nem quando se fez existir. Quando foi que eu te coloquei um significado nesse meu caminhar acelerado? Em que momento foi que você puxou a barra da velha saia que eu não uso mais? E inventou sentimentos que já não se usam mais? E criou um cenário bonito para a nossa encenação tomar corpo? Um corpo que não me pertencia.

Quando foi que seus dedos aprenderam a desenhar eternidades em minha pele? E eu comecei a me apegar a esses momentos passageiros que ficam marcados feito brasa no couro? E todas as vezes que eu olho agora para os caminhos de suas mãos em meu corpo, sinto o seu rastro.

Quando foi que você olhou nos meus olhos, de volta aos 14 anos, doce como a rosa roubada, caída no quintal da adolescência? E como foi que encontrou o antigo baú em que ficaram esquecidos, por eu tê-los julgado inúteis e antiquados, aqueles velhos sonhos e os recolocou na vitrine dos meus pensamentos?

Nunca te vi antes da vida, mas você me conhece desde criança.

Fazendo-me platônica de novo: amando ideias, amando amar, me inflando de essências que só cabem no universo do imaginar

Clara Baccarin, publicado em: http://www.clarabaccarin.com/

Nunca me apaixonei por sapatos

tumblr_ly5svzgQzD1qm64aco1_500

Já me apaixonei por um cantor de música pop.

Já me apaixonei por um perfume e qualquer pescoço virava mote. Já me apaixonei por uma sensação, por um momento, por vários momentos. Por uma situação. Já me apaixonei por uma foto, por um conceito. Já me apaixonei estilo maria-vai-com-as-outras. Já me apaixonei estilo ‘você só pode estar louca’. Já me apaixonei por um corte de cabelo, por um desprezo, por um mistério, por um prazo de validade, por uma impossibilidade e também por todas as portas abertas. Já me apaixonei por um encontro em meio a tantos desencontros. E por um desencontro em meio a tantos encontros. Já me apaixonei por noites de natal fora de época. Já me apaixonei pela ausência. E já me apaixonei pela presença. Já me apaixonei pelas mãos, pelos pés, pela boca, pelo peito, pelo tom de voz, pela falta de marca na cueca ou pela falta da cueca, me apaixonei por um cheiro sem perfume, por um beijo sem aviso, por um acaso sem rotina. Já me apaixonei pelo silêncio, pelo não entender e também pelo de repente entender tudo. Já me apaixonei pelo descaso e já me apaixonei pela insistência.

Já me apaixonei por uma música ruim e por muitas músicas boas, já vivi paixões com pessoas que nunca encontrei e com pessoas que encontro todos os dias. Já me apaixonei por um doce, por um clima, por uma angulação do sol no céu, pelo vento de uma noite boa, por uma garrafa de bebida, por ondas no ano novo, pela areia. Já me apaixonei pela terra roxa e úmida e pelo lago cheio de peixes, e pelas minhocas, me apaixonei pela caixa lotada de borboletas e pelas flores amarelas que ficavam na entrada do lugar pelo qual eu era apaixonada. Já me apaixonei por canto de grilo e por grama molhada. Me apaixonei pelo mundo. Pelo imaginar. Já me apaixonei por um drama, me apaixonei por querer ser como a moça boba daquelas tantas novelas. Me apaixonei por uma dança, por alguns livros, por filmes, por comidas, tantas comidas, por uma torta húngara. Me apaixonei por um idioma. Me apaixonei por uma taça de vinho branco, pelo dedão do pé tocando um oceano que eu não sei qual é. Me apaixonei pelo inesperado e foi devagar porque meu coração sempre demora para compreender milagres. Me apaixonei por uma casa. Me apaixonei por um vestido, por um barulho no celular, por uma atitude, por carência, por coragem, por liberdade, por ideias, por egos, por gozos, por excessos, por faltas, por leveza, por amor, por vontade de viver mais, por vontade de renascer, ou por puro masoquismo. Me apaixonei acordada e me apaixonei dormindo. Me apaixonei cega, e também me apaixonei sóbria e cética. Já me apaixonei liquida e já me apaixonei desértica. Já me apaixonei por um país, por uma cidade, por umas férias, por uma semana. Por uma barraca furada. Por uma praia. Por uma frase dita debaixo d’água. Por olhos. Quatrocentos e cinquenta mil olhos. Já me apaixonei por um tronco fácil de árvore, por coelhos e gatos. Nunca me apaixonei por sapatos. Já me apaixonei pela estrada. Me apaixonei por histórias. Setecentos e noventa mil histórias. Já me apaixonei por um sorriso torto, por uma pinta, por uma marca de nascença. Já me apaixonei por palavras, por letras, por poemas, por metáforas, por ritmos. Me apaixonei antes e até o fim por palavras, palavras de refazer o mundo, como qualquer paixão. Me apaixonei por escrever, por sentir, por perceber que é só no estado de paixão que tudo compreendo e tudo deixo de compreender.

Eu me apaixonei, eu me apaixono, eu me apaixonarei.

Amém

Clara Baccarin (Escritora, poeta e redatora. Autora do romance poético CASTELOS TROPICAIS (Ed. Chiado), trabalhando no segundo livro, MESA DE BAR. http://www.clarabaccarin.com/livros/ https://www.facebook.com/clarabaccarin.escritora )

Não guarde o amor pra depois

tumblr_lnvi2nMpHC1qh7487o1_r3_500

Não guarde o amor pra depois!

Não queira escolher o momento propício, a hora sensata. Não racionalize e divida em pequenas porções e distribua pelos dias esse amor tão recortado e diluído como homeopatia. Placebo não aquieta minha fome, minha ânsia. Há um vazio mais baixo que o buraco do estômago e ele quer devorar antes de ser decifrado.

Comamos para queimar a boca, enquanto ferve, enquanto está cru e sangra e pulsa e dá pra sentir o gosto espesso de vida. Sejamos ao mesmo tempo presa e predador um do outro até que nossas dilaceradas peles caiam felizes num sono profundo, sono de fadiga, não de tédio.

Não deixe o amor pra depois

Que quanto mais se requenta, mais outra gororoba vira e é melhor ter um jantar de rico do que muitos de pobre. Mais vale uma noite profunda do que quinhentas rasas. Nos deleitemos hoje, amanhã cultivamos memórias que poderão se tornar sementes de outros amores amplos. E, de toda forma, eu prefiro morrer de fome amanhã e viver de vida agora.

Não guarde o amor pra depois.

Te digo, ele passa da data de validade! Pode ser que expire, que azede, que seja roubado por outros olhos famintos.

Não guarde o amor por medo ou por cuidado.

Amor assim é para se fartar até o lamber dos dedos.

Clara Baccarin (Escritora, poeta e redatora. Autora do romance poético CASTELOS TROPICAIS (Ed. Chiado), trabalhando no segundo livro, MESA DE BAR. http://www.clarabaccarin.com/livros/ https://www.facebook.com/clarabaccarin.escritora )

De volta ao Polo Norte

tumblr_mdcmmqhV9C1rk436po1_500

De mim ele gostava da postura, do mistério, da sedução que acontecia despropositadamente, gostava dessa mulher altiva que tem um olhar elevado de tão distraído. Ele se apaixonou pela mulher difícil, quase inatingível, que mantinha distância e causava medo.

Quando eu percebi, bem que tentei contar para ele a verdade, mas ele não quis escutar. Agiu como um guerreiro, precisou fazer de tudo, conquistar meus mundos, destronar barreiras de gelo, percorrer os labirintos ultrassecretos dos meus sentimentos para então ver com os próprios olhos o que o faria se acovardar.

É que eu sou um tipo de mulher que assusta os homens, ou pela frieza ou pela intensidade. Eles não me entendem. E não entender é o maior magnetismo do mundo quando o encontro acontece. Eu sendo polo norte e ele sul, mas no final somos apenas nortes a nos repelir. O não entender num primeiro momento atrai, e num segundo momento, aterroriza. Quando sou fria ele me quer intensa. Quando sou intensa, ele reza para que eu esfrie.

Eu já sabia que seria assim, mas ele não. Ele não sabia que a mornidão não combina comigo.

É que sou apenas uma mulher que quando tira a roupa despe a alma. Sou uma menina travessa que gosta de brincar de tirar máscaras e ri das quedas e dos desequilíbrios, e desvenda medos e desata posturas de grandes guerreiros.

Sou a mulher que espera dele o sorriso sincero, o olhar intenso, e o silêncio. E só.

Desprezo todo o resto.

Mas, mesmo prevendo a iminente fuga, eu, seguindo o meu esperançoso roteiro,  pergunto a ele:

“Vamos nos despir juntos?”

É aí então, que ele apressadamente veste de volta a fantasia de homem sexy/inabalável/poderoso, sai apressado sem nem ter o cuidado de fechar minhas portas e volta à caça de bonequinhas que suspiram por falas engajadas, egos bem alimentados e carros importados.

E eu, mais uma vez respiro fundo, e com meu olhar secular, meus pés descalços, e com o coração um pouco menos desnutrido pelas lembranças frescas guardadas, sigo sozinha pelo meu velho caminho rumo ao polo norte.

Clara Baccarin (Escritora, poeta e redatora. Autora do romance poético CASTELOS TROPICAIS (Ed. Chiado), trabalhando no segundo livro, MESA DE BAR. http://www.clarabaccarin.com/livros/ https://www.facebook.com/clarabaccarin.escritora )