Somos encanto

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Eles não me entenderam, eles nunca me entenderão na verdade, pois sempre tiveram medo de tentar, vivem num mundo onde as coisas nunca foram feitas para durar. Mundo carente de atitudes nobres, mas infestado pela pobreza do próprio espírito.

Eles continuam pensando no dinheiro, continuam desafiando a si mesmos na busca pelo que não sabem.

Buscam a fuga que se pode pagar, mas esquecem de todo o resto que não tem preço. Nunca percebem aquilo que não se pode comprar nem com todo dinheiro do mundo.

Falsa riqueza. Riqueza de tristeza.

Meu tempo é simples, é andar debaixo das árvores, é colher um sorriso maduro. É regar a ousadia com um pouco de elogio e ver nascer felicidade.

Meu tempo é ouvir, meu mundo é novo todos os dias. Minha sede é por entender o óbvio, por perceber a fundo todos os detalhes, todas as linhas, traços, cores e amores.

 O grande valor das coisas mora no gesto mais simples, ao lado da casa da falta de interesse, em frente à rua da simplicidade, sem número e sem endereço. São as atitudes que nos levam até lá, quando não temos condições de ir através das nossas, pegamos carona com outras que raramente passam por aqui. São raras, mas quando passam por nós, nunca temos vontade de deixar ir.

 Esse encontro é a melhor coincidência de todas. Podemos respirar um ao outro, como evidência de que nada termina quando não permitimos.

 Eu não quero que eles me vejam. Não quero que nos vejam, não quero que sofram mais ainda. Eles nem sonham o nosso sonho, nem imaginam o tamanho do nosso paraíso.

 Seria covardia demais esculpir tanta felicidade em muros de pedra.

 Nosso passeio pela praça transborda de tanta alegria, nossas mãos buscam umas pelas outras, nossa satisfação é a de poder falar o que sentimos e demonstrar com palavras as atitudes planejadas para depois.

 Quando paramos e olhamos bem fundo nos olhos do nosso coração sentimos que ele é quem vai parar, saímos dessa órbita juntos, sempre juntos e depois retornamos devagar.

 A chuva é só um detalhe. É o pano de fundo para nossos risos e sorrisos. Risadas nossas, risadas do outro, risadas sem controle. Perdemos o controle da hora quando estamos juntos. Nunca perdemos tempo olhando o ponteiro nos levar. Estamos juntos demais para parar.

 Somos encanto inundando toda a cidade.

 Eles poderiam não resistir, poderiam não suportar e no ato mais louco de revolta transbordar seu próprio mundo no nosso mundo. O mundo onde amar é a maior das estradas sem vontade de chegar.

Walter Oliveira

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AMOR SE ENTREGA

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Quando se divide amor, se divide tudo. Não dá para entregar amor em prestações.

Amor não é dividido, amor não se fragmenta. Amor é uma parte inteira. Uma parte de você que mora dentro de outra pessoa.

Na verdade quem ama é que vai morar dentro da pessoa que é amada. Você não olha o endereço, o número, à distância e muito menos o tamanho do espaço; você só sabe que precisa daquele lugar. Precisa de descanso, cansou do descaso.

É um egoísmo involuntário, uma vontade compartilhada, vontade de compartilhar com alguém o que se tem de melhor, vontade de receber de alguém o que vier, pois amor não é garantia e muito menos escolha.

 Amor é compreensão.

Compreender exatamente no significado mais forte da palavra. Colocar alguém dentro de você, entender que esse alguém não é perfeito, mas que ao mesmo tempo foi feito para você.

Serve perfeitamente em você. Sabe ser seu número, sabe ser seu gosto. Gosta de ser seu gosto.

Aquele que entende o outro é sempre mais feliz. Quem entende sabe amar.

O que importa não é a cena, mas o personagem principal.

A falha, o erro e a vergonha expõem quem somos e revela que precisamos ser muito mais. Revela a carne e osso. Mostra que precisamos de alguém para dividir e esclarecer as mesmas falhas, entender no outro o que não conseguimos perceber em nós.

Sair do lugar cômodo, sair dos cômodos da alma e olhar quem nos cuida com verdade.

Personagens que gravam em nossas mentes fazendo a diferença em nossas vidas.

Eu quero ver e rever os beijos únicos, os abraços mais quentes e os maiores surtos de ciúmes. Não precisamos de garantias, não precisa ser sempre final feliz.

Nada gravado, nada combinado.

Não precisa ser feliz sempre.

Desde que seja com alguém de verdade sempre se pode encarar qualquer desfecho.

Que seja você.

Walter Oliveira

Nunca me arrependo

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Eu ainda sou o menino da porta da escola. Nunca desejei o óbvio, mas o mistério sempre me atraiu. Fosse com um gesto escondido expondo a vergonha tímida, fosse através da reclusão particular da alma. Nunca gostei do que estava na cara, sempre me apaixonei pelo mais complicado, pelo mais difícil. Foi pelo impossível que criei amores e descobri que poderia amar.

Um pedaço de papel sempre me fez traduzir o que ninguém conseguiria entender com palavras. Foi um treino da época em que eu ainda não sabia falar. Fazia mais do que falava sem a intenção de ter.

Palavras escritas viraram Frases, frases viraram bilhetes, bilhetes viraram cartas e cartas me faziam falar de verdade.

Era amor pela tinta preta no papel, era a coragem traduzida em reflexões marcadas num fundo branco.

Meus sentimentos estavam ali, expostos. Eu estava ali exposto, mais do que nunca.

Diante das palavras eu me deitava num espaço confortável. Eu esperava pela hora certa de falar e enquanto isso ia treinando em pedaços de papel. Ainda não estava preparado para encarar um oceano de possibilidades de uma alma feminina que me aguardava.

Eu sabia que tudo era sincero, eu dizia isso num tom mais baixo, numa entrega muda de palavras com destino certo.

Eu escrevi mais uma carta, a verdadeira, a derradeira…

Escrevi por dias, pensando em um único dia…

Entreguei, me entreguei…

“O amor não é melado, o amor é doce. Não é dependência e muito menos explicação. O amor nunca esteve pronto antes de ser o amor. Ele assim como eu gaguejou, derrubou coisas, foi desajeitado e engraçado, foi simples. Ele escreveu o que não sabia falar dentro de mim, mandou eu te dizer, mas eu me senti como ele, então também copiei dele e decidi escrever antes de tentar falar, pois você não merece qualquer coisa. Amor é construído, nunca chega pronto. Não se percebe quando chega, não se pode filmar ou guardar nas gavetas, pois amor é desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores ele ainda será um desconhecido, assim como eu aqui agora. Então não me faça falar, só me deixe ser, só me queira ser assim como eu sou. Só me queira num querer mudo, assim como sem palavras eu quero você”.

Depois desse dia eu nunca mais fui virgem de sentimentos, meu orgasmo sempre foi à busca pela palavra certa, pelo olhar que pede o toque, pela sensação que a beleza de dentro trás chamando a de fora.

Morrer de amor é o único motivo de estar vivo.

Sempre busquei o amor e nunca me arrependi.

Walter Oliveira, é natural de São Paulo capital, ganhador do prêmio vagalume de redação em 1995, na cidade de São Sebastião, litoral norte de São Paulo. Sempre interessado em escrever sobre o cotidiano, sobre as coisas que acontecem ou não com a vida das pessoas, com sua própria vida. Os relacionamentos, os encontros e desencontros que essa vida propõe, também estão sempre presentes em suas crônicas e textos. Sua loucura pelas cores da realidade são sempre expostas num fundo branco.