Sem pegadas

07

Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas planas surtem o mesmo efeito que muitos dias de sol seguidos: podem até ser agradáveis, mas são certamente entediantesNão há nada para aprender com quem nunca se arriscou. Nada a dividir com quem jamais saiu da segurança do previsível. (…) Quem não se arrisca, não faz besteira e não erra, não vive, apenas desperdiça o sagrado tempo que deveria ser aproveitado com paixão. Apenas caminha, sem deixar pegadas, sobre os dias, rumo à morte.

Ailin Aleixo
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Homem estúpido tem que morrer na mão

Homem não sabe mais seduzir. Sei lá se isso é culpa do excesso de praticidade ou se é inaptidão pura. O fato é que as meias-palavras, intenções sabidas e não explicitadas, o cuidado de criar algo interessante pra ser dito e feito estão mais raros de encontrar do que corvo albino. Tá tudo pá-pum: olhou, se apresentou, elogiou a bunda e já vai botando a mão. Putz, coisa tosca!

Mulher não é mamão pra se escolher apalpando. Que decepção teria Vinicius de Moraes se visse os marmanjos de hoje em dia… Em vez da Garota de Ipanema, a Popozuda. De “teu corpo dourado é mais que um poema, é a coisa mais linda que já vi passar” pra “bate na palma da mão, bate na palma da mão e rebola o popozão”. Uma desgraça completa.

E o que aborrece não é a intenção por trás da corte, a mesma para os raros românticos ou os abundantes broncos: trepar com a fofa. Isso não tem problema. É, inclusive, divertido – poucas coisas fazem uma cidadã mais feliz do que saber que está matando alguém de tesão mesmo sem fazer nada. O ruim é que o jogo ficou escancarado demais, babacão, sabe? O excesso de pragmatismo nessas horas tem o mesmo efeito de parar de blefar no pôquer – retirado o suspense, perde-se toda a graça.

Se espero brilhantismo chicobuarqueano numa cantada? Ih, não me resta esperança suficiente pra isso. Basta não ser surpreendida por atos estapafúrdios, português assassinado e cérebro vazio. E não se trata de romantismo: só quero inteligência agindo em prol da libido, sabe como é? Coisinhas simples e especiais que fazem um homem sair da multidão para se instalar na minha cama e, às vezes, na minha vida (que, aliás, está sem vagas).

Porque é muito fácil disparar um “sabia que você é gostosa, gata?”, mas difícil fugir do óbvio – e, quando o cidadão faz isso, é sinal de que matou pelo menos um neurônio no processo. É um sinal, e mulheres adoram sinais.

Há muitos anos, fui apaixonada por um cara que trabalhava comigo e, confesso, jamais fui boa em abordagens tête-à-tête; sempre preferi as vias indiretas. Depois de algum tempo, e um longo trecho de via indireta, começamos a sair juntos, completamente sem pretensões ou conjugação de verbos no futuro, mas fiquei apaixonada – só que, parecia, estava sozinha nessa. Então, 16 horas antes do Dia dos Namorados, mandei entregarem a ele um lindo buquê de lírios-brancos com um bilhete: “Quase um presente, quase amanhã, para alguém que é quase meu namorado”. Não casamos nem nada, mas tivemos dias deliciosos e até hoje, todas as vezes que nos encontramos, ele relembra o episódio – me instalei definitivamente em sua memória. Não foi no coração, mas já é alguma coisa.

Se pararmos para pensar um minutinho só talvez cheguemos à conclusão de que as mulheres estejam partindo pro ataque não apenas por compulsão para seduzir mas também por não serem adequadamente atacadas. É o triunfo da velha regra: se quer que algo saia bem-feito, faça você mesmo. Porque digo isso com certeza, é muito mais gostoso deixar um homem abobado do que suportar um bobo bancando o homem.

Ailin Aleixo

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Durante muito tempo acreditei que o que me fazia amar um homem era a inteligência. Ficava enfeitiçada com citações, elucubrações e teses. Mas não era. De nada adianta um perito em física nuclear, se ele não rir das pequenas besteiras que faz, se não souber aproveitar um sábado quente simplesmente não fazendo nada (e curtindo o ócio), se virar um psicopata quando alguém o fecha no trânsito. Então saquei: bom humor era o que mais me atraía.

Sempre achei delicioso estar com alguém que não vê o mundo como uma grande e monstruosa boca cheia de dentes prestes a mastigá-lo, que vive sem arrastar correntes, faz de tudo uma possível piada. Só que nem tudo é uma piada e, em certas horas, tudo o que quero é alguém que me escute e diga algo que me conforte a alma. E, nesses momentos, o pior que pode acontecer é ser levada na piada – existe uma grande diferença entre alegria de viver e recusa a sair da infância. Pois é, não era bom humor o que me fazia amar alguém: era, antes, sensibilidade.

Telefonemas de bom-dia, atenção a informações aparentemente banais mas que dizem muito a meu respeito, não ficar azedo e arredio por causa das minhas pequenas (ou grandes) oscilações de humor – tudo o que eu podia querer. Quase tudo. Tenho personalidade forte e só sobrevive ao meu lado um homem que grite comigo quando eu passar dos limites do bom senso, demonstre desagrado quando eu exigir demais e oferecer de menos. Preciso ser cuidada, mas tenho que sentir que quem está comigo é um homem de verdade e não um principezinho criado pela avó. Quero ser domada, tomada. Mais uma vez minha certeza caiu por terra: nem inteligência, bom humor ou sensibilidade eram o que me fazia amar alguém. Era – isso, sim – virilidade.

Mal abrir a porta da sala e ser consumida por beijos. Ter a roupa arrancada no caminho da cozinha, ser jogada na mesa de jantar sem tempo pra pensar no que está acontecendo, só sentir e saber o tesão incontido daquele homem por mim. Ser desejada com urgência e paixão é um dos maiores elogios que uma mulher pode receber, mas só ser desejada de nada adianta, pelo menos não depois da décima trepada monumental: quando acaba o suadouro, o que resta? Se pouco importa o saldo, o que interessa mesmo é a movimentação, então estamos feitos. Mas, se existe a possibilidade de ser esmagada pelo vazio de sentido após o orgasmo, de nada vale. Pelo menos se não vier acompanhada de carinho. Taí: pensei, então, que carinho era a pedra fundamental pra despertar meu amor.

Mas logo descobri que não era. Carinho é um sentimento abrangente demais: nos invade desde a visão de um cachorro abandonado até a palavra confortadora para alguém que pouco nos importa mas a quem também não queremos mal. Não bastava, era muito pouco. Daí constatei que o essencial para que eu amasse alguém era notar no outro a vontade de ficar, o desejo de estar comigo. Constatei coisas demais e fiquei paralisada diante do ideal que havia criado: absurdo e fictício.

Hoje, enfim, aprendi que toda enumeração é uma estupidez e qualquer tipo de formulário emocional, uma passagem sem escalas pra frustração. Claro que gosto de homens cultos, atenciosos, interessantes, divertidos e viris – seria mentira negar. Mas a verdade é que, para que eu ame alguém, basta que eu ame alguém. Porque, quando se precisa justificar o amor, é porque ele não existe. Simples assim.

Ailin Aleixo

Felicidade é questão de perspectiva

Períodos de recuo são essenciais, nos forçam a enxergar a situação sob outro prisma, com mais frieza e, por isso mesmo, isenta dos colossais erros de julgamento que a intensidade e a bile nos levam a cometer. “O lugar mais escuro é sempre debaixo da lâmpada” .

O mais notável em nos distanciarmos vez por outra do que é nos importa, nos confunde, é sentir o que esse redimensionamento causa. E seja o que for, a retomada nunca é insípida: ou nos faz enxergar a placa de “rua sem saída” que teimávamos não ver ou, feito polimento em prata, devolve o brilho ao que o tempo havia enegrecido. Talvez por isso alguns casais só se entendam depois de uma separação: a dor, a sensação de ficar sem centro gravitacional, não ter mais ali ao lado quem se ama, pode provocar verdadeiros milagres na dinâmica de uma vida em comum (e na vida solo).

Mas não podemos contar com milagres, precisamos da razão. O problema é que nossa suposta sapiência tende a sub-avaliar o que se tem ou (talvez seja pior), exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola e, curiosamente, é só dando um pequeno mergulho na solidão que compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós.

Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém.

Esse não é um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada (ou melhor, no choro) que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves, é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém. Pare de arrastar correntes, levar tudo tão a sério: a única coisa que você vai conseguir é uma úlcera.

Cuide de quem ama mas não faça disso o objetivo da sua vida porque ficará, inevitavelmente, frustrado quando não tiver deles o que deu pra eles. Ou não tiver deles o que você ACHA que eles deveriam devolver. E será bem feito: você fez o que quis, porque quis, então não venha reclamar o troféu. Não existe prêmio para quem doa amor. Ainda bem.

Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali nos nossos pés, mas estamos ocupados demais pra ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos. Quando algo começar a te enlouquecer, enfernizar ou surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo em relação a ela, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passam despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistente, diante dos seus olhos.

Ser feliz não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.

Ailin Aleixo

Negando as aparências…

É triste perceber que quem tanto me importa não me vê, apenas olha pra mim. Não altera em nada sua lista de prioridades quando preciso de socorro, atenção. Apenas (depois, sempre depois) desculpa-se. Está constantemente ocupado, atrapalhado, assoberbado. Sempre se sai com ótimos motivos para não ter ido, feito, acompanhado. Conhece meus gostos, minhas neuras, o porquê do riso rasgado. Sabe o número do meu telefone, onde vivo, mas mora num outro universo, do qual não tenho o endereço, nem pertenço: é péssimo notar que sou pouco para quem é muito pra mim.

E não se trata de desdém ou de rancor. É mais sutil, por isso tão doído. Pode até me surpreender com telefonemas, torpedos, conversas à toa, mas não está presente nos momentos críticos da minha vida. Torna-se incomunicável. Não fica ao meu lado. Não pega o lenço para que eu possa continuar chorando, sem medo de julgamentos. Não traz da cozinha a garrafa da minha bebida preferida para comemorarmos. Não me abraça quando faltam palavras, não me afaga quando elas não bastam.

Sei que aquela pessoa, tal qual a recordo, existiu, só não sei em que ponto deixou de ser real para se tornar um holograma da minha mente. Uma suspeita de surto: será que me enganei desse jeito? Talvez não tenha me enganado, apenas o tempo nos tenha tornado diferentes demais e já não andemos na mesma direção. Talvez.

A vida acaba nos trazendo, inevitavelmente, amigos assim. Amores assim. Pessoas que estiveram conosco, compartilharam e construíram nossa história, mas que descompassaram. Alguns até continuam presentes mas jamais estiveram tão ausentes. Outros fazem questão de dizer o quanto somos importantes, especiais. Isso se mostra calmamente, no dia-a-dia, não se legaliza numa promessa. É preciso tempo, e é só com ele que saberei se essas palavras significam algo ou são mera formalidade. Me mostre que eu posso contar com você, não me diga isso.

Talvez percamos o sentido de existir na vida de algumas pessoas, por mais importantes que tenhamos sido (ou que supomos ter sido). Nossa permanência torna-se oca de significado. Desbota. Gradualmente, sumimos. E não há nada de errado nisso. De triste, sim (todo fim é triste), mas não de errado: não dá para exigir ser amado. Errado é mantermos à nossa volta, atrelados a nós por compulsão ou necessidade de companhia, quem não tem mais nada a nos oferecer. Para quem oferecemos tão pouco.

Quantos sinais são necessários até compreendermos que já não nos importamos com alguém?

Ailin Aleixo

Eu posso? Por favor, deixa vai?

Pedir permissão para ser você mesmo é algo que ultrapassa meu entendimento. Simplesmente não consigo processar.

Acho muuuuuito deprê assistir um marmanjo tirando do fundo do estômago um jeito razoavelmente meigo— mas no qual preserve o mínimo de dignidade– de pedir “autorização” para namorada para sair com os amigos. É tão incompreensível, irracional e amedrontador quanto só sair para almoçar depois de pedir a benção do chefe… Um relacionamento é o terreno no qual deveria me sentir completamente à vontade e poder exercer o direito de ser eu sem me preocupar com julgamentos—afinal, se aquela pessoa compartilha a vida comigo, nada mais óbvio do que ela saber, entender e aceitar que a tal vida inclui amigos, família, vontade de ficar sozinha, gatos/cachorros/iguana, desejo de mandar pra pqp o motorista da frente, anseio desesperado por uma tarde sonolenta e muda na rede. Mas tem gente que não compreende, e o faz por uma única razão: tem uma existência tão vazia que basta uma única pessoa para preenchê-la toda. Mas não dá pra ser a extensão de alguém: é triste demais.

Viver um relacionamento baseado em “permissões” é como usar uma tornozeleira de monitoramento: você pensa ser livre e vive felizão nessa ilusão. Quando menos espera, no momento mais divertido, alertam que você passou dos limites e ordenam que volte para seu devido lugar. O equivalente humano do “junto!” canino. Quem necessita conhecer todos os passos do parceiro para se sentir bem, sofre de uma lamentável insegurança travestida de dominação. Em vez de cidadão se tratar e descobrir a razão da necessidade doentia de controle, impõe sua condição ao outro— e ainda deixa implícito que isso é “natural” em qualquer casal. Natural é ligar para avisar que vai chegar mais tarde porque decidiu ir ao karaokê. AVISAR. COMUNICAR. DIZER. FALAR. Pedir, pra mim, é usado em duas condições: nas desculpas e na licença.

É ridículo pedir permissão para viver a própria vida. O que dá, e pode ser delicioso, é vivê-la ao lado de alguém que também tenha uma.

Porque só quem vê sentido em si mesmo– independente de você ou de qualquer pessoa– pode ser boa companhia para alguém.

Ailin Aleixo

A chatisse das pessoas sem segredo

Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas planas surtem o mesmo efeito que muitos dias de sol seguidos: podem até ser agradáveis, mas são certamente entediantes. Não há nada para aprender com quem nunca se arriscou. Nada a dividir com quem jamais saiu da segurança do previsível.

O que desperta a curiosidade, suscita encantamento, não é a simpatia avassaladora ou a educação exemplar. O que faz nascer um certo feitiço é a falta de obviedade. Não é à toa que os mitos não nascem de águas calmas, mas sim da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre fatos e entes: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda. No máximo, enternecido. Podemos dar educados boas-tardes diariamente, mas ele jamais será tema de conversas. Jamais sairá da quitanda.

Somos inerentemente fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido com um amor tão lancinante quanto arriscado — por isso mergulhu-se à noite, escala-se o Himalaia, doma-se leões, come-se fora de casa. São todas tentativas de descobrir temperos que despertem o paladar em vidas insípidas. Por isso amantes são vitais para homens obtusos, que pensam conhecer cada detalhe de suas mulheres e se entediam com eles (e mal sabem como são enganados por sua própria falta de visão): o terceiro elemento incita a conquista, os faz ser, pelo menos por alguns dias, homens mais interessantes. Escondidos atrás dessa muleta emocional, sentem-se especiais por ter um segredo a esconder, algo só seu.

É pela nossa atração intrínseca pelo incompreensível, busca pelo indomável, que mulheres boazinhas são repetidamente abandonadas e trocadas pelas garotas más, que vivem como bem querem e fazem dos homens o que bem quiserem. Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, mas completas. Mais complicadas, mas com um impagável autoconhecimento. Um tanto inescrutáveis, o que pode incomodar os rasos, mas infinitamente mais interessantes.

Ter segredos é efeito de viver intensamente, a prova de que a realidade pode ser muito maior e significativa do que nossos forçados sorrisos de bom-dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. É ter coragem de arcar com o peso de ser único, independentemente de nossos atos serem louváveis ou não, aprovados ou não. É preferir guardar para si o que causaria estrago em alguém, não por medo, mas por carinho.

Quem não se arrisca, não faz besteira e não erra, não vive, apenas desperdiça o sagrado tempo que deveria ser aproveitado com paixão. Apenas caminha, sem deixar pegadas, sobre os dias, rumo à morte.

Ailin Aleixo

As mulheres mataram o cavalheirismo

Não preciso que ninguém pague a conta do restaurante: trabalho desde os 20 anos e posso muito bem arcar com o preço da minha almôndega.

Não preciso que ninguém puxe a cadeira para que eu sente: tenho braços e o mínimo de coordenação motora para realizar a tarefa.

Não preciso que ninguém abra a porta do carro para eu entrar: consigo usar minhas mãos pra isso. E, bônus, sem cair de cara no meio-fio.

Realmente  posso fazer tudo isso sozinha. Mas adoro quando um homem faz por mim.

Cavalheiros são uma raça superior; e mulheres que sabem receber essas delicadezas sem chiliques, também. Nada mais ridículo do que uma feminista ensandecida que interpreta uma simples gentileza masculina (chamar o garçom para servir o vinho, por exemplo) como uma ameaça devoradora à sua independência. Parece que ele está querendo extirpar o clitóris da cidadã. Ah, vá se catar! Beba o vinho e cala a boca: deixe o cara ser homem e cuidar.

Adoro mimos masculinos. Quanto mais flores chegarem ao meu trabalho, melhor. Curto que cedam a passagem para mim na escada rolante. Se ele quiser ficar do lado da rua enquanto andamos na calçada, tudo bem: não sinto minha liberdade ameaçada porque ele prefere que eu não seja atropelada.

É uma tremenda mentira dizer que afagos cavalheirísticos não fazem falta nestes tempos de tantas obrigações, deveres infindáveis. Para que me privar de coisas tão boas quanto ter uma jaqueta colocada sobre as minhas costas numa noite de vento frio? Aceito ser a parte mais “fraca” se isso significa ser cuidada com carinho.

Mas homem cavalheiro é um troço difícil de achar. E a culpa é, em boa parte, das mulheres: se parássemos de reclamar da falta de modos e galanteios dos machos e nos tornássemos melhores professoras (seja como fêmeas, seja como mães), todas estaríamos mais satisfeitas. No final das contas, eles são frutos da nossa educação. Se a maioria tem o grau de gentileza de um hooligan é porque deixamos de mostrar que ser zeloso não é sinônimo de ser veadinho e que ser carinhoso não broxa; nos omitimos na hora de apontar a trilha certa e só saímos da moita no momento de dar bronca porque eles enfiaram o pé no estrume. Daí já é meio tarde: a merda está feita.

P.S: Da mesma maneira que as mulheres deixaram de admitir e achar natural serem subjugadas, está na hora de reivindicar sermos tratadas com gentileza. E tratar da mesma forma. Porque, pra mim, ser gentil não está associado a querer traçar alguém; apenas acho que o mundo, com um pouco mais de tato, se tornaria um lugar mais agradável para passar a vida. E como é o único lugar que todos temos…
Ailin Aleixo < disponível em: http://revistaalfa.abril.com.br/blogs/mulher-honesta/2010/10/24/as-mulheres-mataram-o-cavalheirismo/>