Recomeçar é preciso, e admitir os erros também.

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“Nunca me arrependo de nada que eu faço/fiz.” – A frase mais falsa que já escutei.

Cada vez mais as pessoas vão sentido a necessidade de firmar para os outros certezas que nem mesmo elas têm. Preciso dizer que: a gente se arrepende sim. E que egoísmo seria da nossa parte não admitir os próprios erros e ainda usá-los como porta-bandeira para justificar o início de um novo caminho, momento ou “qualquer outra coisa que exija uma falsa autoafirmação”.

A gente se arrepende – claro que sim, e quase nunca fala sobre isso, mas continua caminhando, dá uma olhada pra quem tá do lado que já não é mais tão próximo assim. Suspira com os momentos que já passaram, e por vezes lamenta a bagunça que ficou. Seja a amizade que se foi mal resolvida, o namoro que terminou avesso a tudo ou qualquer outro relacionamento que envolva (re)sentimentos.

A gente se arrepende do abraço que não deu, do eu te amo que ficou na garganta, das brigas bobas que armou por nada, das palavras proferidas com raiva, aquelas que doem mais que pedras. Se arrepende daquele dia que era pra ter ligado e pedir desculpa, mas não ligou e por isso mesmo ficou. Se arrepende, se arrepende mais um pouco, mas sabe muito bem que, às vezes, não se tem como voltar atrás. E que cansativo seria se a vida fosse assim. O aprendizado está justamente em seguir em frente.

Penso que é no mínimo justo não atrapalhar aquele caminho que você já obstruiu uma vez, ou até mesmo voltar atrás em algo que já não faz mais sentido pra si mesmo. Há um certo altruísmo em ver alguém seguir em frente sem atrapalhar, e mesmo de longe se sentir feliz pela vitória alheia. É ver no recomeço do outro uma oportunidade de seguir adiante também, é ver “que tudo ficou bem”. É deixar passar por você sem tocar, mesmo que nesse momento você perceba o quanto perdeu, mas também o quanto aprendeu.

Pega-se outra estrada, já não mais com o coração pesado… Pois a certeza que a gente pode e deve se arrepender daquilo que fez ou deixou de fazer, é a mesma certeza que nos conduz a outros momentos onde já não mais devemos errar. O que vai é lição. O que fica é aprendizado. C’sta lá vie!

 

Lya Coutinho

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Sobre ciclos, lembranças e o presente.

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O presente é sempre o início de um novo ciclo. Hoje, arrumando alguns sentimentos, lembrei de tantas coisas e de como tudo e todos que já passaram pelo meu caminho ainda estão aqui… Hoje eles são eu. Lembrei dos velhos amigos, almas antigas que me ajudaram nessa caminhada. Os novos, os de momentos, lembrei até daqueles para os quais eu fui um porto seguro, ainda assim partiram se desfazendo do meu cais. Lembrei do amor(singular, ainda acho que amor verdadeiro é só uma vez na vida), das paixões, das razões por as quais tive que abrir mão de muitas coisas.

Lembrei do orgulho, aquele velho defeito que nenhum novo ciclo tem ajudado a libertar, mas ao qual tenho dado máxima atenção, afinal esse é um grande mestre em acumular saudades no coração. Lembrei das viagens que eu planejei, prometi e não realizei. Lembrei até dos meus eletrônicos que ocupam espaços físicos, mas não produzem afetos na alma. Lembrei daquele perfume que eu usava quando tinha vinte anos, a empresa que o fabricava não me perguntou se poderia tirá-lo de linha. Talvez, graças à memória olfativa o cheiro seja o único sentimento que a gente possa colocar dentro de um vidro. Lembrei da adolescência, da infância, dos dias em que matar aula era a minha única preocupação.

Lembrei de muitas coisas que não couberam nas minhas lembranças, e por isso acabei dividindo com os outros, mas também lembrei de algumas que eu guardo só pra mim até hoje. Em meio a todas lembranças possíveis, por alguns segundos fechei os olhos e agradeci, prometi tentar ser alguém melhor neste novo ciclo. Lembrei que ainda poderia errar algumas vezes, mas que esses novos erros seriam caminhos para chagar ao “acerto”. Pedi a oportunidade de ver o pôr do sol por muitos e muitos anos, e agradeci por todos que já vi até hoje. Agradeci por estar viva, com amor, com dor, lembranças, felicidades e saudades.

Agradeci pelos caminhos que passei e os que ainda virão. Ser grato por tudo que já passou é essencial quando iniciamos um novo caminho. A gratidão é bagagem nobre no coração, ajuda a encontrar atalhos certos em estradas duvidosas. Estou no início de um novo ciclo, estou andando sobre aquela linha tênue que grita no amanhecer de cada dia: “Carpe diem, quam minimum credula postero.”

Lya Coutinho

Vá pelo caminho que te faz feliz…

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Não te falei, mas depois daquela noite que fomos parar num quarto qualquer encharcados de chuva, eu consegui te ver além. Além das entrelinhas que você escreve a sua vida, esperando que alguém possa te ler de forma completa. As palavras que foram surradas no ouvido, ficam ecoando na minha cabeça.

Já não consigo mais te encaixar nessa imagem que você usa para “se representar”. Acredite, não há possibilidades de eu está errada… Senti o seu coração bater no meu peito como se fossemos UM. Vou te pedir um favor, mesmo sendo ninguém para pedir isso: Não se esconda, vá pelo caminho que te faz feliz!

O seu sorriso é incrivelmente lindo quando vem do coração, quando é conquistado. O tom da voz amanhecida, desprovida das confissões de uma noite de amor é quase uma poesia não-verbal. Vá ou fique, faça o que quiser… Mas trate de ser feliz já, não como você diz ser e sim como você é. Que no futuro você possa ser como o viajante do poema de Frost, que você possa lamentar a escolha com um suspiro, mas que tenha a certeza de ter seguido no caminho que te faz(fez) feliz…

“Dois caminhos divergiam num bosque amarelado, é triste por não poder percorrer ambos e ser um viajante. Parei e olhei até ao fundo de um, tanto quanto podia. Até onde o caminho se curvava na vegetação. E ambos naquela manhã igualmente se estendiam, em folhas que nenhum passo havia escurecido. Deixei o primeiro para outro dia. Embora sabendo como caminho conduz a caminho, duvidava que algum dia ali haveria de regressar. Direi isto com um suspiro em algum tempo futuro: Dois caminhos divergiam num bosque amarelado, e eu – Eu tomei o menos viajado. Isso tem feito toda a diferença…” (O Caminho Não Percorrido – Robert Frost)

Lya Coutinho

Um registro de nós.

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Hoje a nossa música tocou na rádio, e já faz algum tempo que a gente não se vê, não contei os meses. Desaprendi a contar, acabei me acostumando a esperar, em meio a tantas idas e vindas, certas e incertas. Hoje lembrei e até senti falta daquela velha angustia de chegar cedo em casa, ter que organizar tudo pra te receber da melhor maneira possível.

 Lembrei da última vez que você voltou: abri a porta e lá estava você analisando as “plantas” da varanda – “Você regou o meu Bonsai com vinho? Confessa!”

 Uma das muitas coisas que eu gosto(gostava) em você, é o seu jeito de abraçar, encaixado e apertado, direto na alma. O cheiro do seu cabelo misturado com argan, o cheiro do amaciante na sua roupa que ofuscava a fragrância de qualquer perfume, lembra? Eu ainda não consegui entender a questão das microcápsulas perfumadas que você me explicava incansavelmente.

 Meses se passaram, e eu, eu poderia listar milhões de detalhes da nossa convivência perfeitamente complicada. Sim, complicada, porque éramos opostos que estranhamente encontravam uma forma de se completar. Fugíamos do relacionamento convencional: Fotos no Facebook, juras eternas de amor e bate-boca nos bares da vida. Nós éramos do vinho em casa, da cumplicidade em ação e não em palavras, do sexo sem pudor, da cerveja no boteco da esquina com os amigos em plena segunda-feira.

Os meus “muitos amigos” e os seus poucos. Você sempre esteve certa em relação aos meus, a multidão, às vezes, é solitária quando ninguém entende verdadeiramente o que/quem a gente é. Não queria que o dia terminasse sem deixar registrado de alguma forma o que de melhor a gente já foi um dia, tentei lembrar sem muito esforço de alguma briga boba, mas a memória falhou, ou os momentos de felicidade realmente estão em maior quantidade…

 Antes de ir deixei um bilhete colado na geladeira: “Confesso que reguei os Bonsais com vinho, por favor, mantenha a receita. Regue com vinho e amor, da mesma forma que você regou a nossa relação. Um dia eles irão crescer da mesma forma que você me ajudou a crescer como pessoa. Com carinho, de alguém que foi plantada na sua vida, regada por você, cresceu… E daqui pro mundo.”

“Mas o tanto que eu levar de você, eu deixo um pouco pra me misturar…”

 (Terminei Indo – A Banda Mais Bonita da Cidade)

Lya Coutinho