Ela é de peixes

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Ela tem dois caminhos que se confundem quase sempre. De um lado, sonha em chegar lá – mesmo que não saiba exatamente onde é esse lugar. Acredita que mais importante que o caminho são as pessoas que encontra no meio dele. Para o barco, dá carona, gosta de companhia. Seu jeito é meio à luz de velas quando o sol desaparece no horizonte.

Ama como se houvesse amanhã, como se fosse durar uma vida inteira porque ela tem esperança. Pra ela não acaba, não se finda, não vai sumir num piscar de olhos. Pensa que o mundo inteiro se resolve num abraço, muito mais que num beijo. E envolve, se envolve, é sempre num cruzar de braços. Mal dá pra ver que ela é cheia de abismos, que por dentro ainda existe alguma coisa que não a deixa sossegar. Continua nadando.

Se alguma coisa a machuca, prepara-se pra mudar de rumo. Já te contei que existem dois caminhos pra ela, e que eles se confundem. Nada pra baixo com toda a força do mundo quando tem que nadar. Mergulha com tudo, ela é intensidade pura. Vai no fundo do oceano e não prende o ar, não precisa disso. Se mistura com as ondas e vem de forma violenta. Te acerta ainda na praia e toda a tranquilidade de antes se transforma num turbilhão. Mas foi você quem provocou isso, foi você que pediu pra ver. Ela escapa como se tivesse guelras.

Ela se recusa a largar sua moradia. Seu corpo, sua casa. Quem tenta violar suas regras encontra placas de aviso na surdina, na calada da noite, em toda janela que deixa aberta. Algumas setas, alguns alvos. Ela não quer que você chegue perto, não quer que você entre. Melhor se afastar, melhor deixar pra lá. Ela parece frágil feito líquido, transparente feito água, mas você já conseguiu enxergar as profundezas de qualquer mar? Não, nem vai enxergar as dela. Ela não deixa.

Sonha com um mundo que ainda não existe, sonha com alguém que ainda não existe, sonha com tudo. Seria capaz de viver nos sonhos e construir sua vida neles. E constrói, na verdade. Tudo em volta dela é sonho, tudo em volta dela é algo que você não consegue ver. Ela vê. Ela enxerga coisas que ninguém enxerga o tempo todo. Talvez porque essas coisas estejam dentro dela, dentro dos tesouros perdidos num naufrágio submerso, e não nas coisas que você jura que vê na superfície.

 

Daniel Bovolento, publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/

 

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Uma ode às mulheres diretas

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Ela entra sem bater portas e vai direto ao ponto: ou isso ou aquilo. Numa prova de múltipla escolha com ela você não teria opção nenhuma, teria que rebolar um pouco pra dar à ela uma boa justificativa, na lata. Enquanto você fica em cima do muro, ela dispensa os meio-termos: tem pavor de gente indecisa, de se esconder atrás de motivos, de venerar os rodeios. Se você é labirinto, ela não brinca. Aprendeu que não vale a pena bancar Teseu e muito menos o Minotauro. Esses personagens ela deixa pra mitologia grega e eles não cabem nas histórias que ela quer contar.

Ela caminha na sua direção e você sabe que é ela porque treme. Treme mesmo que ela esteja de tênis de corrida ou salto agulha, tremeria mesmo se ela estivesse descalça. Você sente peso e ela se sente leve. Sente que tirou um peso grande das costas ou, se ainda não tirou, vai tirar em breve. A grande vantagem de ser direta é essa: não perder tempo com o que poderia ser. Ou é, ou não é. Não tem 8 ou 80, e ela também não aceita um 40.

Tem quem diga que a vida não é bem, preto no preto e branco no branco, mas quem disse que você precisa definir as coisas assim? Ela é a prova viva de que você pode colorir o mundo do jeito que quiser, com um balde de tinta ou giz de cera, desde que saiba como quer pintá-lo. E se depender de outra pessoa pro mundo dela ter cor, ela se adianta e tira a prova dos nove sem deixar que alguém faça malabarismo com a vida dela. Porque uma hora cai, ela diz, e só quem pode equilibrar a vida sou eu.

Se ela gosta, ela liga no dia seguinte. Se ela gosta mais ainda, ela vai pra cama e ai dele (ou de você) se acharem alguma coisa sobre ela. Se a cantarem e ela não quiser, é não na cara e sai fora, amigo, porque você tá me incomodando. E você vai perceber se ela gostar de você porque ela vai dizer com todas as letras que te quer – e que não quer também. Há quem goste e quem não goste disso. Particularmente eu acho incrível a forma como ela lida com as vontades e se põe em primeiro lugar. Mas quem sou eu pra achar alguma coisa se ela sabe que a dona do mundo dela é… ela.

Uma vez perguntaram à ela o porquê da pressa e ela disse que não é pressa, é que a gente se acostumou muito a dar voltas e mais voltas quando tudo o que a gente quer sempre esteve ali na frente. E depois que aprendeu isso, deixou de se importar com o que pensariam ou com o que ela mesma julgaria errado. O importante era não perder tempo pra ser um pouco mais feliz. E então ela foi. Foi em linha reta e dizem por aí que ela tem sido muito mais feliz do que antes era, quando ainda colocava os outros, a culpa e um monte de obstáculos à frente dela.

Daniel Bovolento, publicado em: http://superela.com/

A melhor coisa que eu nunca tive

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Você não foi aquele encontro marcado na Faria Lima que eu liguei pra dizer que iria me atrasar porque, bem, eu nunca precisei ir. Não foi o telefonema ca-ra-de-pau do sábado de noite, de última hora porque meus amigos desmarcaram a balada, pra chamar lá pra casa e dizer que tinha Netflix, Pepsi Twist e carinho, justificando o convite com o frio que eu ainda não sentia por não ter você. Você não foi.

Você não foi quem mudou a estação de música do carro durante a viagem pro Rio, justo na hora em que eu encostei os dedos no botão, senti o choque e ri com os nervos à flor da pele. Nem foi pra você que eu sorri logo em seguida numa estrada escura enquanto o sono batia como se dissesse “fica calma, eu tô aqui por você e vou te manter segura mesmo que eu fique exausto”. Não tive que te levar em casa às quartas (que seria o nosso dia) depois do jantar, e nem era por segurança, eu queria passar mais tempo com você mesmo. Também não tive que fingir azia e reclamar da gastrite quando era o começo do amor. Não precisei sentir.

Não foi você quem me pediu pra nunca te esquecer? No meio daquele cruzamento perto da Paulista, no meio de um café badalado embora fosse meia noite, quando eu não sabia mais se queria olhar pra sua cara. Foi pra você que eu não mandei as cartas, sim, eu escrevo algumas à mão e guardo, mas elas também não foram. Foi você que sorriu pra mim e disse que eu era fofo, mas fofo? Fofo é meu mundo, dizia você. Mas não disse, não pra mim.

Não precisei te contar sobre os meus amores passados e como aquilo doía. Como quebrar o coração de alguém é ter o seu quebrado pela metade. E não tive que te ouvir chorando num sábado chuvoso, me dizendo que o ex ainda balançava a tua vida. Eu só queria balançar na rede com você e dizer que iria ficar tudo bem. Eu não tive que abaixar a cabeça com receio e coração pesado por ouvir que alguém te habitava. Eu fui atrás e bati na tua porta. Mas não foi você.

Não foi pra você que eu disse que aquele meu medo bobo de ficar sozinho era precaução. Que eu só dizia que não tinha tempo, que era muito trabalho, que eu não conseguiria gostar de ninguém assim pra não confessar que, merda, eu já tava gostando. Já tinha caído, já tava encostando a cabeça no meio fio e confessando que era você. Era você que me via e não dizia nada, mas eu sentia. Sentia uma coisa bonita que há muito não palpitava, sentia uma vertigem diferente, daquelas que não doem, sabe? Sentia como se eu pudesse largar o terno e gravata pra te levar embora daqui e viver o sonho da casa, dois filhos, um cachorro e muito café. Labrador, por favor. Pra mostrar como o amor é grande.

Foi você até ontem. Quando eu cheguei primeiro, num incrível ato irônico de quem só chega atrasado. Foi você quando chegou perto e jogou o braço no meu ombro, sorriu pra mim. Foi você quando as suas amigas riram baixinho quando eu disse que iria sentir tua falta. Foi você quando eu finalmente me levantei pra ir embora e dei o abraço mais apertado do mundo. E mesmo não tendo sido, não tendo acontecido, mesmo que ontem você tenha fugido e me dito que iria embora de vez, eu ainda acredito que foi você. Por uns dias ou pra sempre. No meu mundo perfeito, tudo isso teria acontecido e você nunca, nunca, nunca teria ido, mas agora você vai e eu tenho a certeza de que você foi a melhor coisa que eu nunca tive.

Daniel Bovolento, publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/

Afaste-se de um cara que…

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Se pesa demais, causa cãibra, enxaqueca, dói nos olhos e turva a visão, afaste-se. Mas não é chegar pro lado, disfarçar essa solidão a dois que você sente e mentir pra si mesma de que é fase, de que amanhã ele muda,de que tudo ainda tem jeito e que hoje foi só mais um daqueles dias (que sempre se repetem) em que ele mostra que não existe pra você.

Ele é seu homem do talvez, sua sombra arrastada pela casa que promete companhia e só entrega falta. Vai matando a sua confiança e sua crença aos poucos e provoca um blur inexpressivo em todas as vezes que você tenta sorrir, faz com que você desmanche os lábios repuxados e você não entende. Não entende como ele abusa de você, já que o teu corpo não tem marcas, já que por fora vai tudo bem, obrigado. E por dentro, como você tem andado?

Afaste-se de um cara que nunca está ali por você e que nem se esforça pra redimir a ausência. Que não está presente em nenhum momento e que não te faz presente quando deveria ser. Desacelere um pouco e pense no tipo de cara que você (não) tem com você. Se ele for do tipo que faz a dor parecer latente sempre, que fere com as palavras enquanto ri, que descancara o mínimo da sensibilidade exigida de um ser humano, afaste-se porque amor não fere e nem faz sangrar, a gente é que tem mania de achar que sofrer demais significa amor.

Você fica desolada, ou nem tanto, já que já sabe, já prevê a tragédia mas mantém um apego bobo. Cê acha que você nunca mais vai amar (ou encontrar) alguém como ele? Essa é uma daquelas bobagens que a gente conta pra gente ou ouve de alguém pra justificar o erro, pra adiar a decisão de partir porque cortar laços dói, vai doer agora, mesmo que lá na frente seja um pouco melhor. Então você segue acreditando que pode esperar uma transformação cósmica enquanto se envenena por dentro.

Você continua ouvindo A Banda Mais Bonita da Cidade declamando uma das minhas músicas preferidas sem nem ouvir o que eles dizem, com uma calmaria dolorosa que confessa a falta de coragem de se afastar em “só me deixe quando o lado bom for menor do que o ruim”. E então você entende, mas continua esperando que ele te deixe ao invés de se afastar. A gente sempre espera pelo fim do mundo mesmo, eu te entendo. Mas cá entre nós, se eu pudesse te dar um último conselho, seria esse a seguir. Como eu já escrevi numa outra ocasião, ao contrário do que você pensa, você não vai morrer por ele. Nem pela falta dele.

Daniel Bovolento, publicado em: http://www.casalsemvergonha.com.br

 

É você e vai ser sempre você

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É você e vai ser sempre você. Eu já disse isso em outro desses textos meus e não consigo deixar de pensar em como essa frase martela na minha cabeça. Já falei sobre independência e sobre como eu não preciso de você pra nada. Já falei sobre deixar você ir embora e sofrer uma, duas, trinta vezes e mais um pouco toda vez que abrisse a porta e desse de cara com esse seu sorriso de quem ainda tem esperanças de que eu largue esse modo de ser e entenda tudo isso. É você e vai ser sempre você. Mesmo que seja teimosia minha e eu te reinvente a cada dois minutos dizendo pra mim mesmo que você não é nada que eu sempre quis e conte pros outros uma versão diferente de nós dois.

Eu te defendo sempre que meus amigos me dizem que é loucura. Que você me faz mal. Que você me descompleta. Como é que eu vou deixar que falem mal de você na minha frente mesmo que eu esteja te odiando com todas as forças que eu nunca sonhei em ter? Só eu posso reclamar da nossa descontinuação. Só eu posso reclamar dessas invenções de vocabulário que a gente sempre faz tentando expressar isso tudo com palavras que não existem.E por onde você anda? Ouvi dizer que se sentiu perdida, mas também achou melhor não me ter mais por perto. Ouvi dizer que conheceu uma bebida de sabor doce e gostou (apesar de sempre ter odiado sabores doces e amores mais doces ainda). Ouvi dizer que é perda de tempo ficar esse tempo todo pensando sobre como a gente consegue gostar um do outro e cismar em se perder por aí mesmo não tendo problema algum.

Mas a gente se esbarra, eu sei. Um dia a gente se encontra de novo. Seja aqui ou em marte, no céu ou no inferno. Depende da tua religião ou da tua forma de me querer de volta. Um dia eu te provoco mais um pouco e te estrago só mais um pouquinho de um jeito que só eu sei fazer. Um dia a gente se põe lado a lado pra reclamar da vida e acender um cigarro barato pelas ruas dessa cidade. Um dia você esquece o guarda-chuva de novo e eu te dou cobertura, abrigo e um pouco de mim de novo. Um dia desses, quem sabe, a gente não precise se despedir e possa ficar pra sempre nesses nossos joguinhos que só interessam a mim. Vão nos chamar de loucos e desvairados. Mas nós somos jovens, meu bem. É você e vai ser sempre você. E talvez isso não seja tão ruim assim.

Daniel Bovolento

Depois de você

03

Eu queria acreditar que você vai ser pra sempre, que vai ser como um daqueles meus bonequinhos bem cuidados que eu deixo no criado mudo pra me sentir segura, que vai me olhar de madrugada e dizer que as coisas vão ficar bem e que foi só um pesadelo. Quero acreditar tanto que me preocupo todos os dias com a possibilidade de jogar minhas pernas pro lado e não ter mais você. O espaço invadido me desacostumou e já não sei mais fazer cama e casa pra um só se não for pra pra nós dois.

Eu entendi o que é dormir mais tranquila, sem o pesar das pálpebras incomodando numa insônia regada a How I Met Your Mother e dois potes de iogurte desnatado – desculpa, o sorvete acabava rápido, então eu regava a solidão com algo mais light pra ver se diminuía o peso dela. Entendi o que é saber de cabeça um número de telefone que não é o seu e que serve tanto pra emergências quanto pra amenidades, porque você me escutaria mesmo se eu quisesse te falar em silêncio, não escutaria?

Você pega na minha mão e eu sinto uma firmeza diferente, uma promessa de que vai ficar por mim e me levar pra andar de bicicleta sem rodinhas segurando o meu banco. Eu sinto vontade de te amar de um jeito que eu só amei no jardim de infância, de um jeito que pede pra empurrar do balanço e te ver sorrindo lá no alto pra depois voltar voando pra mim. Depois de você eu aprendi a amar de um jeito bobo pra caramba. Sem o peso do mundo, sem vermelho na boca, sem sair por aí sendo Hilda ou furacão. Eu aprendi a comer sílabas e degustar palavras porque você me interrompia e me devorava e me fazia ser de um jeito que eu nunca imaginei que seria. Sua.

Eu congelo a queda livre e tento desacelerar pra não te deixar perceber as coisas. Essas coisas todas que a gente esconde pra não se mostrar demais, pra não deixar ninguém ver que o melhor lado é o lado de dentro e que eu me importo com tudo isso. Você me diz pra confiar em você e o problema é que confio, confio e confundo as coisas. Será que ele. Mas acho que é melhor. Talvez eu não devesse. E você me pede pra parar de pensar tanto assim e deixar um espaço na poltrona porque chega a tempo da novela. Porque hoje você compra chocolate pra gente. Porque sim, meu bem.

Te peço paciência e me leva contigo até onde der. Até onde a estrada for boa e você gostar da companhia. Até onde a gente puder rir um do outro e se abraçar no fim do dia sabendo que mesmo que as coisas mudem, a gente teve isso, que a gente ainda vai ter uma camiseta do outro guardado em algum lugar da casa só pra dizer que esqueceu e voltar pra buscar. Promete que mesmo que o tempo passe e a gente passe com ele, você vai ligar pra mim e pra minha mãe nos feriados pra fazer piada com ela. Pra ela continuar dizendo que você é o amor da minha vida agora.

Minha mãe me jura que existe alguma coisa ali. Mas bate tanto medo. E se, e se, e se, e se. E se você me olhar de verdade como ela conta que olha, como ela diz que ele te olha com tanto carinho que o afeto já virou teu cobertor invisível, te admira e sabe que tem a mulher mais incrível do mundo com ele porque ele te enxerga assim, te olha e não te atravessa, estaca os olhos nos teus e tenho certeza das coisas que ele diz porque o corpo todo dele diz. Já percebeu que ele treme e alarga os lábios involuntariamente quando te vê, minha filha? E eu reparo que dessa vez eu vou por mim e a gente vai amar por dois.

Daniel Bovolento, publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/

Garotos de aluguel

15

Sorria como se você quisesse isso, repito. Mas sou amador na atuação. Não tem mais choro que resolva, não tem mais buquê que dê jeito, não tem mais nada que se possa fazer. Ela me aluga – e mal sabe que se espalha feito erva daninha pelo meu peito. Encrustada em cada uma das vísceras. Ela não liga pra minha dor e perfura fundo as minhas entranhas para se instalar ali. Já disseram uma vez que ganha mais quem tem o poder. Quem ama mais só tem a culpa e o consolo da companhia. Não é justo comigo. Mas com amor é mais caro. E é assim que eu pago o preço de estar ali. Não tem mais coração quebrado ou briga de madrugada. A hemorragia sentimental já atingiu níveis alarmantes. Eu já tive um AVC emocional e ela nem ligou. É que ela não paga por isso. Paga só pela parte social. A minha parte – de verdade – ela descarta. Sem saber que. Não tem jeito. É dela.

E faz do jeito que bem entender sem nem me visitar. Enfermo ou inferno, tanto faz. Se perguntarem por aí, ela diz que acabou. Assim, sem dor nenhuma. Sem cólera nem complicações. Se perguntarem como eu vou, ela diz que eu fico. Sem nem pensar duas vezes. Dizem que eu vou sobreviver. Que a gente sempre consegue sobreviver a quem ama menos. Mas não garantem a recuperação total sem sequelas ou cicatrizes. Os médicos me perguntam o peso e eu digo que é muito. Que dói as costas. Que quebra os ossos. Que prende à cama. E homem não chora. Só pode ser mesmo uma infecção no canal lacrimal. Mas terminou. Sorria como se você quisesse isso. Não tem mais dor. Não tem mais nada. Em coma induzido pelo abandono. Com uma placa de aluguel atravessada no peito.

Daniel Bovolento, publicado em:  http://entretodasascoisas.com.br/

Cospe ou engole

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Me atiro num pulo ou nem subo no muro.

E você, ah, você que não escolhe e acha que o tempo é seu servo, você que pensa que a eternidade existe pela espera, você que confunde a calma calmaria tranquilidade com indecisão medo dúvida que nunca é sanada. Você precisa parar ou cair de vez, sem interferências cósmicas antropológicas ambientais de força maior que te façam parar no meio do caminho. Você, que não é como eu, precisa entender que não é de açúcar pra evitar andar na chuva – e se for, é melhor que se desmanche de uma vez só, sem essa coisa de piedade bondade cautela, essas coisas que atropelam a gente e deixam a gente estirado no meio da rua, sangrando agonizando morrendo aos poucos sem nunca morrer de vez. Você precisa deixar de esperar, de esperar por socorro apoio certeza e se decidir.

Você, como diria Cazuza, vê se ao menos me engole, mas não me mastiga. Você precisa reaprender a andar nas ruas avenidas prédios elevador sem parar em cada andar pra se certificar que as coisas vão indo, você que é muito comedido e nunca teve nenhum arranhão de bicicleta patinete moto amor ou uma dessas coisas todas que machucam saram cicatrizam e bola pra frente. Justo você que tá aí e não se mexe, melhor ficar parado imóvel estátua fria de si mesmo se a ideia for desistir no meio do caminho. Mas escolhe ficar parado. Escolhe, decide, me conta, eu respeito, você vai entender, eu também vou e se isso for te fazer feliz ou me fazer feliz ou fazer de nós dois infelizes que tomaram as decisões erradas, tudo bem. Pelo menos tomaram. Decidiram-se. 8 ou 80 e não tem outra numeração pra você que é sempre metade do que podia ser.

Você que é o revés dos meus riscos e ainda assim é um risco que ainda não entendeu isso, você que simpatiza com a prolixidade das reticências sem ter consciência de que esperar demais cria bolor em mim em você na gente nos outros nas histórias e em tudo mais que não se deixa levar. Você, é, você mesmo, que tá se debruçando nos braços sem o peso de preocupações, sem o peso de ter que se decidir e acaba deixando o destino sorte tarot búzios astros decidirem por você. Você que podia me ter, mas não tem por muito pouco, por muito perto, por não ter cruzado a linha em tempo hábil, por ter deixado a decisão de lado ou por nunca ter se decidido. Você que nunca sabe o que fazer e nem percebe que só perde tempo dinheiro beijos suspiros felicidade amor e todas essas coisas que parecem uma coisa só quando eu não uso vírgulas pra respirar. Você que podia me deixar sem fôlego, mas não deixa porque não é nem um pouco igual a mim que sou 8 ou 80. Ah, você…

Se atira logo num pulo ou nem sobe no muro.

Ou me cospe, ou me engole.

Daniel Bovolento

Feliz aniversário, meu bem

10

Feliz aniversário pra você e parabéns pra mim. Por ter te beijado debaixo da chuva num dia quase perdido (se não fosse você pra me salvar). Por ter te enxergado de maneiras não óbvias e ter reconhecido em você os meus opostos mais bonitos e esclarecidos em forma de caos. Por ter insistido em te encontrar numa esquina qualquer e pegar um lápis pra te escrever desde que pus meus olhos em você.

Feliz aniversário pra você e parabéns pra mim. Por ter viajado de um canto do mundo pro outro pra salvar a gente. Por ter esperado pra acordar do teu lado e ouvir um bom dia com gosto de eu-nunca-vou-deixar-você-não-importa-o-jeito-que-for. Por ter entendido que a gente se cruza, se esbarra, se entende, separa e segue a vida por lados diferentes sem nunca deixar de se encontrar. Por ter preparado a vida com café, açúcar e adoçante pra te receber sempre que você me visitar.

Feliz aniversário pra você e parabéns pra mim. Por ter aprendido um pouco sobre gentileza com os seus gestos, por gostar mais de cachorros porque você os ama, por pensar mais nos outros e nas ações que a gente realiza no mundo pelo seu sonho de trabalhar com causas na África. Por ter dado mais valor a trilhas sonoras e momentos marcados por música. Por saber ler sinais de tempestade de longe, como eu sempre li os seus, meu bem.

Feliz aniversário pra você e parabéns pra mim. Por nunca ter comemorado com você porque a gente sempre desalinhava os planetas antes da hora certa. Por ter sido um ciclo vicioso que se acabou. Por ter sido transformado, mesmo que por um minuto ou um dia, no homem da vida de alguém. Por enxergar esperança em mim até quando eu mesmo não teria tido nada além de medo. Por me entender melhor e saber que eu posso sempre ligar pra você pra me entender mais ainda.

Feliz aniversário pra você e parabéns pra mim. Por conhecer mais sobre signos e pessoas, Zona Norte e Zona Sul, saudades e angústia, peito pesado e alívio no telefone, compartilhar e ser feliz. Parabéns pra mim por ter tido você, por ter sido você, por ter vivido você. Por ter tido a certeza de que você foi a mulher da minha vida. Por ter escrito sobre você em todas as minhas entrelinhas e, olha, nas linhas que nunca escrevi também. Por entender que alguns amores nunca terminam, mas simplesmente adormecem. Feliz aniversário, meu bem.

Daniel Bovolento , publicado em: http://entretodasascoisas.com.br/