Uma carta ao meu ex. E ao seu também.

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Ok, sem Correios nem remetentes específicos; menos que uma carta, talvez apenas um desabafo. Serei muito prepotente em dizer – e garantir – que sentir felicidade pelo ex é uma das maiores provas de maturidade nos dias de hoje?

Já tive três namoros e, sabe, até pouco tempo atrás eu fazia parte daquela massa de gente que deseja torturas cruéis ou a morte a quem fez parte do meu passado amoroso. É aquela coisa do término em que só uma das partes o consentiu – e, obviamente, essa parte não é você -, é o tal do divórcio litigioso e o adeus temprano de que a gente tanto tentou evitar.

Todos os dias as pessoas se conhecem e se você for solteiro, confesse, também é daqueles que tá doido pra engatar um namoro. Tá difícil, eu sei, mas mais difícil do que começar um relacionamento, sem sombra de dúvidas, é terminar um.

Fui apaixonado e me doei de todas as formas, até doer demais em mim. Mas são dessas dores que a gente leva da vida que surge o amadurecimento a cada novo casinho que a gente resolve investir. Se você era controlador, hoje já está tentando controlar só suas finanças e projetos pessoais; se era ciumento ao extremo, hoje sabe que é saudável sentir um ciuminho comedido e romântico; se você se privava de tudo em nome do amor, hoje já se choca ao saber que desperdiçou bons goles de cerveja entre amigos depois do expediente. É tanta mudança que até vale a pena, vez ou outra, dar uma fuçada no passado pra ver como o ex-amor da sua vida está.

Já sabia que sua viagem para Cambridge estava ótima e que o atual namorado era um cara bacana e romântico. ‘Talvez eles estejam explodindo de felicidade’ – pensei ao ver as fotos deles em todos os lugares que um dia planejamos ir na vida. Descobri, então, que ele já voltou da Inglaterra e as aulas no Brasil já haviam começado. A última foto em solo europeu era de uma cartinha dos amigos estrangeiros, dizendo o quão incríveis foram aqueles 9 meses e tantos dias que passaram juntos.

Nove meses e tantos dias, sabe Deus se fiquei mais ou menos tempo namorando o rapaz, mas foi tempo suficiente para que eu sofresse pelo dobro de tempo até me sentir curado. Então sorri. Lembrei o quanto ele queria fazer esse intercâmbio, lembrei o quanto ele merecia um cara bacana ao seu lado – por mais que, por muito tempo, eu tenha achado que esse cara só poderia ser eu -, lembrei até a voz dele ligando pra dar bom dia e as vezes em que tentei forjar uma amizade para, quem sabe depois, ser contemplado com uma volta triunfal. Aí chorei.

Mas chorei de felicidade, por mais impossível ou surreal que possa parecer. Eu tô tão feliz quanto ele, a vida por aqui também está ótima e tudo se ajeitou de um jeito como há tempos não se ajeitava. Parece que finalmente percebi que torcer pela felicidade de quem já te fez feliz é o primeiro passo para seguir em frente. Sem dor, embora as marcas cicatrizadas permaneçam. Sem anunciar aos quatro ventos, embora seja possível que, uma hora ou outra, ele leia esse texto e até dê um sorriso de canto por saber que ainda é lembrado. No entanto, precisei escrever, colocar pra fora essa coisa boa que é superar e torcer a favor.

Por isso, que meu ex seja tão feliz quanto eu. Que tenha tantas memórias boas de mim quanto eu tenho dele. Que sofra de amnésia pra esquecer as coisas ruins que rolaram entre nós – porque depois de muita análise, acho que consegui! Que tenha outro e outro e outro ex, mas sem precisar comparar qual foi melhor ou pior. Que ame intensamente, muito mais do que me amou um dia. Que tenha um futuro brilhante, que dê sempre valor à família, que faça muitas viagens e realize, com quem quer que seja, todos os sonhos que um dia a gente tentou planejar.

E assim passei a sempre desejar o melhor. Talvez por puro individualismo, altruísmo ou sentimentalismo barato. Porque a vida ensinou que tudo que a gente deseja pros outros, no fim das contas, sempre vem em dobro pra quem desejou. Ou porque um dia a gente aprende que quem já nos fez tão bem, merece, mais cedo ou mais tarde, ser feliz também.

Milton Schubert, publicado em: http://www.brasilpost.com.br/

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Sobre o medo de se apaixonar outra vez

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Das dores que a gente carrega na vida, muitas delas doem porque alguém fez doer. É o amor mal resolvido, aquele caso que a gente sabe que, no fim das contas, fez doer o coração. É a promessa que não foi cumprida, a mentira que a gente descobriu quase que sem querer, os desencontros que se tornaram, sem vontade alguma, tão-somente desamor.

É aí que a gente se parte em dois e faz um acordo consigo mesmo, se fechando pra balanço e deixando bem claro, a quem possa interessar, que não tem mais jeito, um beijo e um abraço pra essa coisa de se apaixonar. Parecia bom, né? Sentir friozinho na barriga, fechar os olhos e acordar rapidinho só pra ter certeza de que nada, absolutamente nada, era um sonho bobo que logo deixaria de existir.

Mas sabe qual é a graça da vida? Quando a gente menos espera, a gente se esquece dessas promessas de não se apaixonar de novo, perde o medo de mergulhar fundo, de dar a volta ao mundo por alguém que sabe, de um jeito tão único e especial, arrancar um sorriso nosso a qualquer hora do dia, mesmo quando a gente acha que nem tem motivo pra sorrir.

Hoje deu vontade de dizer que se eu consegui perder esse medo, você vai conseguir também. Nem precisa ter pressa, muito menos achar que qualquer bom dia é cantada e que qualquer cutucada é pedido de namoro.

Assim o amor chega. E arrebata. Sem régua que meça, sem balança que pese e sem dizer quando e o quanto chega para, por fim, ficar.

Milton Schubert