Choque de fascínio

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Gosto de quem sabe onde se meteu. Sem perguntas óbvias, desvenda as minhas sombras e entornos. Entre tantas opções, me escolhe. Gosto de quem quer mesmo ficar com quem demorou a encontrar – não tem mais volta, não tem mais fuga. Entre tantos desencontros, um choque de fascínio. Que fica, que pulsa. E instiga. Gosto de quem quer ser tudo, e não mero resto ou fugaz relâmpago. Gosto dos doces de espírito, capazes de contagiar sem esforço. São pura leveza, destemor infantil. Dos que olham e vêem, em vez de desviar os olhos – tão mais fácil. Dos que me puxam sem saber as lágrimas ao olhar para o céu. Dos que mal fazem idéia do poder que têm sobre mim e habitam meus sonhos inconfessáveis. Ferinos mansos. Gosto dos que percebem verão no inverno e atravessam as estações comigo. Dos que planejam viagens e transformam para sempre as memórias de uma cidade no meu coração – há tanto tempo isso não acontece. Prefiro os que são tão fortes quanto eu, embora raríssimos. Nunca quis gelar os começos ou tornar agradáveis os desesperos internos. Mas acontece. Invente qualquer desculpa. Ou me enfrente com verdades – tenha peito, por favor.

Paula Pfeifer

O homem dos meus sonhos

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Brinco com as minhas amigas que tá mais fácil acertar a Mega Sena do que encontrar um amor. A-M-O-R. Não essas tosquices de hoje em dia que se resumem a um test drive sexual com zero de intimidade. Muitas das pessoas mais interessantes que conheci ao longo da vida tinham a clássica síndrome Peter Pan meets George Clooney: o carinha que não quer crescer (e já tá pra lá de balzaco) e ama repetir pra si mesmo que é um solteiro convicto. Oh, wait – um dia todo mundo se apaixona.

A parte boa dos tropeços pelo caminho é que fica bem claro aquilo que a gente NÃO quer de jeito nenhum. E a pessoa dos nossos sonhos toma forma, muito embora ela exista apenas…nos nossos sonhos. A vida real é dureza, intimidade é difícil e encontrar cumplicidade verdadeira, artigo de luxo. Tão mais fácil descartar os caras ao primeiro sinal de chatice ou manter várias cartas na manga para quando a gente enjoa de um ou de outro. Só que, putz, cadê o desafio de construir uma história com alguém? Pra mim, a graça reside nisso. Uma história. A dois.

O homem dos meus sonhos me deixa ser doce. Me desarma e me causa desassossego. Ao mesmo tempo. Gosta de vinhos – franceses e portugueses, por favor. Pede desculpas com flores – tulipas, claro. Fala outras línguas, assim posso ficar olhando com um sorriso no rosto enquanto ele diz palavras cuja pronúncia vou lembrar para sempre só porque ouvi da boca dele. Fuma ocasionalmente, porque eu também fumo ocasionalmente e gosto, não vou mentir.

Ele me faz rir e entende o meu sarcasmo ácido, que nada mais é do que uma forma de defesa boba. Faz perguntas sobre as minhas viagens, quer saber de todos os meus dissabores. Sabe que a vida é curta, vive o hoje e não promete o que não pode cumprir. O homem dos meus sonhos também é doce. Nem demais, nem de menos – uma ternura assim, palpável. Ele gosta de filmes, sabe os diálogos de Before Sunset e vai me fazer surpresa quando Before Midnight for lançado.

Tem manias chatinhas, porém toleráveis. Abraça, abraça muito, abraços de urso. Beija e puxa pra perto sem a menor cerimônia. Escreve cartas e esconde-as nos livros que estou lendo só pra me fazer torcer o queixo quando encontrá-las. Quer ter apenas um filho. O homem dos meus sonhos sabe que só gosto de música suave e por isso deixa tocando Ben Harper, Jack Johnson, Diana Krall, Norah Jones.

Conversa por horas a fio e tem argumentos fortes. Manda mensagens fofíssimas quando sente saudade e não tem vergonha nenhuma de dizer o que sente. Ele também acha que frio é igual a felicidade, e sua estação preferida é o inverno. Aprendeu a fazer Cosmopolitans só porque eu gosto e sou preguiçosa. Não me deixa dirigir e protege com o olhar. Acha que o céu do Uruguai tem um azul diferente de todos os outros céus. Me compra canetas e diz que adora as bobagens que escrevo. Sabe todas as minhas comidas favoritas e ama sair pra comer. Ele escolhe vinhos e quase nunca erra. Tem uma coleção de pimentas em casa.

Fala sempre de frente pra mim e não tenta conversar no escuro. Pede carinho e dá colo. E me tapa quando vê que estou descoberta. O homem dos meus sonhos sabe fazer companhia nas horas boas e ruins. Me beija na testa e diz que me ama. Muito. ♥

Paula Pfeifer, escreve para o http://sweetestpersonblog.com/

Quero

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Quero teu desatino. Teus urros contidos, tuas palavras não ditas. Quero teus dissabores. Tuas feridas abertas, tuas mágoas passadas. Quero teu avesso. Tuas loucuras presas, teus medos indizíveis. Quero tuas marcas. Tuas piscadelas safadas, tuas sobrancelhas em arco.Quero teus enganos. Teus movimentos errados, tuas estradas de equívoco. Quero teu esplendor. Tuas vitórias inocentes, tuas batalhas sofridas. Quero tuas tolices. Tuas memórias de infância, teus recuerdos queridos.  Quero teus disparates. Teus atrevimentos gostosos, tuas gracinhas delícia. Quero tuas mãos. Em mim. De todos os jeitos. Vem?

Paula Pfeifer, escreve para o http://sweetestpersonblog.com

Sorrateiro

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O que chega de repente, despudoradamente sorrateiro. De mansinho ou a galope, me interessa. O que não pede licença, invade de impulso. Com boas ou más intenções, me desperta. O que acha que manda, cheio de ordens. Quase obedeço – e me instiga. O que não tem pudores, escancaradamente prazer. Desnuda com os olhos, veste com a boca – e me enlouquece. O que traz desassossego, puro atordôo. Seduz meu espírito, me entrego.  O que me cala a boca, altamente impassível. Explode as certezas, espatifa argumentos – me rendo. O que puxa pra perto, com zelo suave. Me toca, me tem. O que  pega na mão, todo territorial, ah sim. Esse, me arrebata.

Paula Pfeifer, escreve para http://sweetestpersonblog.com

Riso cretino

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Bem me quer ou mal me quer: importa que queira. Das insinuações ficam os sorrisinhos indecentes; dos disparates, o arrepio safado da adrenalina. É essa boca maldita, o riso cretino, o pescoço severo, o charme contido. Diz e não diz, vem e vai. Some e volta. Fica olhando de fora, pensando se toca ou não toca. Pega à força. Sem pausa pra respirar. É o jeito. Vem?

Paula Pfeifer, escreve para o http://sweetestpersonblog.com

Abissais

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Despedida provisória ou adeus iminente? Não alcanço teu coração, não aparto tuas dores. Me resguardo nas reticências, melhor assim. Das contradições, ficaram sorrisos. Das palavras duras, as doces. Dos erros, apenas as madrugadas entrelaçados. Estremece mas permanece, sabe como? Faz bagunça por dentro – e ando sem vontade de catalogar sentimentos e arquivar memórias. Às vezes a imensidão da saudade pesa. E traz junto aquela falta doída da pele.  As individualidades abissais não mais me interessam – quero alguém com espaço por dentro. Sabe o aparentemente aleatório? Não existe. Vem com força porque tem que vir. Fica?

Paula Pfeifer

Com carinho

As vezes dá saudade. Sem presença, sem notícia – chega sorrateira, bem safada. Saudade de sentir: coração pulsando, vento norte no estômago, arrepio na espinha. São suspiros perdidos. Queixo franzido. Sombra por dentro. Entre tantos esquecimentos, um impulso. De fé, tentativa. Alma que ensaia um sorriso maroto. Quer sair do casulo. Quer virar do avesso. É saudade boa, folhinha miúda. Que faz transbordar colorido no escuro. E torna as impermanências suportáveis. Me mostro ao mundo, te guardo pra mim. E lá do alto da roda gigante, pisco pro anjo que te rege, te guarda e ilumina. Com carinho.

Paula Pfeifer

Descompasso invisível

O motivo dos silêncios não é preto nem branco. Talvez cinza. E o gosto do desgosto é amargo. Escorregadio que só, tão distante. De uma boniteza assim, escandalosa; de uma doçura assim, infantil. Porque não invade de abraços? Pode ser tanta coisa, pode fazer bem. Tenta? Às vezes um duo é deleite, my dear. Não minto nem falo a verdade. Só sinto. Não sei o que, não sei onde, alguma coisa. Perto do coração. Descompasso invisível, desassossego selvagem. Faz uma falta súbita, dá uma ânsia seca. Te desembrulho em pensamento como um presente. Não sei o que há nessa caixa: vai que é supresa dourada, repleta de luz e calor. Quem sabe? Quebra esse silêncio como uma porta estourada. Vem ser meu cúmplice, dilatar minhas pupilas, acabar com a minha paz. Abro a porta devagarinho e te deixo entrar. Quer?

Paula Pfeifer

Te quiero

Talvez você. Talvez nós. Talvez um dia. Te guardo nas distâncias, te busco no céu da madrugada. Clareza, inocência e doçura: é só o que quero. Saudades, sorrisos e suspiros: é só o que guardo. É tão bonito que nem sabe; toca tão fundo e nem faz idéia. A mágica suave dassintonias finas. Raríssimas como eclipses, cintilantes feito cometas. Bagunçam tudo. Abrem janelas, batem portas, limpam os caminhos. E varrem para sempre todas as cinzas de tristezas passadas. Te quiero. Para algumas coisas, se reza baixinho, se pede em silêncio. Um pouco de fé, no tempo exato. Talvez com calma. Talvez dê certo. Fecha os olhos, que logo chega. E vai ser bom.

Paula Pfeifer