Um abraço

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É que eu não esperava, sabe? Digo, eu estava no meio de uma crise. Eu sei que você não fazia ideia, mas o fato é que as coisas estavam meio cinza. Talvez, você ainda não faça.

Você já teve muitas oportunidades e nenhuma parecia a certa? Era mais ou menos isso. Eu sinceramente não sabia aonde ir, ou porque deveria ir.

 Engraçado, eu precisei me perder do caminho pra encontrar com você. Acabei descobrindo que nunca estive perdida, as coisas só tinham que ser assim. E olha, eu não acredito muito em destino ou acaso.

Mesmo quando eu olhava o seu sorriso de menino bobo, eu não tinha certeza alguma. Contudo, de uma forma estranhamente natural eu sorria também.

O que eu tinha a oferecer a alguém como você? Sinceramente, alguns poucos versos. Eu tinha tanta bagagem mal resolvida que me impedia de descer um degrau e encontrar você no fim da escada.

Lembra quando me disse pra não se embaraçar? O irônico é que ninguém poderia estar mais embaraçada com a vida do que eu.

Quer saber por que resolvi me arriscar? Eu precisava saber como era o teu abraço. Já pensou? Tudo por causa de um abraço.

Dentro do teu abraço eu não encontrei um norte ou uma bussola. Eu me encontrei. Como se tivesse marcado um encontro comigo mesma, dentro dos teus braços. Eu era leve de novo.

Como eu disse, eu não esperava. Contudo, naquela noite dentro dos teus braços, eu encontrei você…

Por isso eu te escrevo, porque quando menos esperava, eu encontrei meu amor.

D. Andrade

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No fim do dia

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Por que no final da tarde dá mesmo essa vontade de deixar pra lá. Não importa quantas xícaras de café ou taças de vinho que vamos esvaziando quase sem perceber, a noite se aproxima tão pesada e solitária que tenta afundar o que há de concreto em nós.

No fim da tarde estamos tão cansados que só queremos ser acolhidos, procuramos cada lugar pequeno, apertado e escuro onde possamos nos esconder dessa imersão não consentida. Queremos tropeçar e cair, torcendo para que a queda machuque, porque assim poderemos chorar uma dor física e no meio de toda lamentação colocaremos também toda a frustração invisível.

Às vezes, quando o sol vai se pondo, revelamos a parte mais sensível e delicada que possuímos. Somos fracos, cansamos de ser forte. Os discursos outrora escutados com desdém agora nos atravessam como fecha inflamada bem no meio das nossas certezas de concreto. É efeito dominó, colocamos tudo em cheque. Será que vale a pena? Será que vale mesmo a pena?

Por isso mesmo queremos nos esconder, estamos expostos. Estamos indefesos, assustados e sem rumo. Tudo é motivo de dúvida, de se pensar umas duas vezes ou até mais. Não queremos fazer investimento sem fundo, queremos ser fortes. Contudo, estamos cansados de sermos super-heróis. E no fundo não é do mundo que estamos com medo, mas das nossas escolhas, daquilo que não escolhemos e daquilo que queremos.

O engraçado é que no fim do dia acabamos pensando, o mundo é mesmo um sujeitinho egoísta que não se importa com as feridas e confusões da alma humana… Mas, só estamos cansados de ser tão mecânico e impessoal. Não dá pra ser filtro o tempo todo, estamos tão cansados de selecionar o que nos atravessa ou não, mas ser esponja também é assustador.

E é assim que amanhecemos em uma noite afundada em escuridão: cansados, assustados, com as certezas a despencar ladeira abaixo, com uma garrafa de café ou vinho vazia, com a alma inundada em tanta incerteza.

Só não sabemos que no fim da noite poucas coisas terão sobrevivido ao fim de tarde. As certezas de concreto vão mesmo se esvair, é natural. Contudo, as “certezas por um fio” permaneceram intactas, elas podem ser imersas as mais profundas tempestades e avaliações, sempre, e sempre, irão emergir ainda mais fortes e invisíveis.

E o caminho de casa… Podemos mudar as certezas de lugar, podemos mudar as incertezas de lugar, podemos mudar a casa de lugar, mas jamais esqueceremos o caminho de casa. Jamais nos esqueceremos de quem nos deu abrigo no fim do dia.

D. Andrade

Inocência

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Quando ainda se é uma criança a maior dor é ralar o joelho, o maior medo é de arrancar o dente que ficou mole, a maior certeza é que a mãe vai resolver qualquer problema, a maior preocupação é com o trabalho de ciências sobre o sistema planetário, a melhor expressão é: “quando eu crescer…”, o maior desafio é planejar o futuro.

Na infância, a inocência é a maior e mais inédita fantasia que um ser humano é capaz de usar.

Até que… a gente cresce.

E crescendo a descobre mais um monte de coisa.

Descobre que existe dor maior que o machucado do joelho e que, por muitas e muitas vezes, essa dor vai ser invisível, não vai haver ferida, mas que, ainda assim, vai machucar pra caramba… E que mesmo maltratando tanto, não vai ser possível gritar e chorar, somente suportar.

A gente acabar por desvendar que há medos maiores e mais terríveis, que alguns vão nos acompanhar por grande parte da nossa vida, e que o pior medo que pode existir é o medo de confiar nas pessoas, mas que em algumas ocasiões ele será essencial.

Envelhecendo a gente percebe que o colo da mãe também não dura para sempre.

As certezas são poucas e mudam muito.

São tantas preocupações que surgem… E olha que eu ainda nem envelheci tanto.

A melhor expressão agora é: “quando eu era criança…”.

O desafio de planejar o futuro não mudou em nada.

Contudo, se querem saber outras conclusões que eu tirei, aqui estão elas…

Aprendi que o amor é meio louco, ás vezes ele aparece feito viajante que: veio, mostrou um mundo novo e foi embora. Ele também gosta de ser poesia, música, chocolate, lembrança, fotografia… O amor é eclético. Já o vi pintando de roqueiro e, enquanto dançava numa trilha sonora eletrizante sincronizou a batida do coração com a melodia da musica, já vi ele dançando sertanejo enquanto tocava poesia cantada de amor abandonado. Ah… Já vi o amor pulando carnaval vestido do arco-íris enquanto a neblina ameaçava cair.

Não sei…

Descobri que os simpáticos sabem como conquistar, mas é dos sábios a capacidade de se afastar sem fazer com que a casa desmorone e, principalmente, a sensatez do momento certo de voltar, ou quem sabe, a delicadeza de julgar ser necessário não voltar, mas, simplesmente, cuidar de longe.

Entendi que amizade tem mais haver com respeito do que com conceitos compartilhados e que solidão não é estar sozinho, mas perdido de si mesmo.

 O difícil foi perceber que nós não amamos certas pessoas, nós só amamos certos momentos que elas nos proporcionaram e nessa vontade descarada de voltar ao mesmo porto, aprendi e sofri ao perceber que um pôr-do-sol nunca é visto duas vezes.

Constatei que é possível se apaixonar várias vezes pela mesma pessoa, no entanto, o amor só nasce uma vez e, se for verdadeiro, ele nunca vai morrer. Vai mudar, se transformar e se adaptar, mas não vai morrer.

Talvez essa seja minha crença mais precipitada, mas não importa. No momento, eu quero e vou acreditar em almas gêmeas, em amor pra vida inteira, por isso mesmo escrevo, porque se amanhã isso mudar, ao menos terei a certeza que tentei.

D. andrade, escreve para o http://www.relicarioabstrato.blogspot.com.br

Eu quero

09

Eu quero mesmo é alguém que me compre, me aceite, pague caro por mim, não tenha medo, mas compre o bilhete premiado da loteria e descubra que o prêmio é uma cautelosa menina agitada.

Quero alguém que tome doses diárias de mim e não tenha medo da contra indicação. Quero alguém que leia meu diário e não discuta comigo quando achar seu nome escrito ao lado de palavras simples.

É demais pedir alguém que saiba abrir a porta sem ter que forçar a maçaneta? Que entre no meu desarrumado e ache um lugar pra si sem se perder?

Quero uma pessoa que seja a minha pessoa e, mesmo assim, não exija de mim nada além daquilo que espontaneamente eu possa oferecer. Que goste quando meu cabelo assanhar, que sorria quando eu contar minhas piadas sem graça, que escute minhas músicas e não faça julgamentos, que aceite tomar meu sorvete favorito em um dia frio de chuva.

Que entenda que eu tenho uma história de lutas e glórias antes de chegar até aqui, mas que eu estou disposta a escrever outra mais sensata, mais cheia de graça, mais autêntica.

Quero alguém que não tenha medo dos meus medos, mas que também não os menospreze, eles existem por um bom motivo e eu odiaria fingir que não.

Quero alguém que contrarie as estatísticas, as previsões, as apostas e aposte em mim sem medo.

Eu ainda estou na prateleira, estou à espera do meu comprador, mas… se você chegou até aqui, me folheou, me leu um pouquinho, gostou, mas não quer comprar junto comigo todos os meus sonhos, nem mesmo os mais fáceis e simples, desista. Eu só saio daqui nos braços de quem me comprar de verdade e, então, não terá me comprado, mas ganhado uma fonte rejuvenescente e trasbordante de esperança.

Não saio daqui pra virar enfeite empoeirado de estante da sala de estar, só saio daqui pra viver de verdade, realizar cada desejo simples e complexo, solitário e amigável, visível e invisível.  Não tenho manual de instruções, nem muito menos prazo de garantia, não suporto pessoas que são marionetes seguindo o manuscrito e idealizo o amor da forma mais romântica possível.

 Não adianta querer me comprar pela metade, ou paga o preço todo ou não leva. Se você me comprar os sonhos também eu comprarei os seus, mas não, não adianta pechinchar, só saio daqui pra ser vivida.

D. Andrade, escreve para http://www.relicarioabstrato.blogspot.com.br/