Cartas, Cinemas e Rock and Roll

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Ela teimava em ser inverno, mesmo com a temperatura beirando os quarenta.

Ele, a ausência do coringa. Não conseguiu o sete de copas necessário para cessar a taquicardia. Faltou sorte e açúcar.

Ela remendava aquele domingo de janeiro, de um drama exibido na sessão das vinte e três, com pipoca e mãos na coxa […]

Ele e todo o seu carinho-de-menino-agridoce, agora em pause. Vez ou outra soprava acompanhado de outros (a)braços em algum estágio -letal- daquele sonho recorrente.

Ela fez cena, foi tema, vazia. Foi assim, de maré, de azar e seda rasgada, de lua. Cheia. De pratos jogados contra a parede para suprir ausências. De vazios bordados no peito.

Pó. O amadeirado do pescoço. O jeans despido. Sua alma cheirando a desejo. O lençol branco manchado de mentiras. Nem Bossa Nova, nem Jazz.

Jaz. Cremado.

Ele Prosecco, ela chovia.
Ela saudade, ele sorria.
Ele partiu, ela partida.
Eder Fabrício, publicado em: http://universo–paralelo.blogspot.com.br/

Uma Crônica Sobre o Intervalo Entre Um Amor e Outro

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Tinto, preciso de mais uma taça de vinho tinto. Em plena quarta, romance de quinta. Debruço-me no parapeito e observo luzes e pessoas em piloto automático. Uns sobem, outros sabem, e meu coração na contramão. Pra cima tem cinema, bem ali na esquina, e pra baixo, algum bar, desses em que sempre tem algum bêbado triste, com os cotovelos no balcão, com um jeans velho e uma camisa listrada aberta no peito. Seu cabelo é desgrenhado, mas você não liga […]

Estou enterrado nesse apartamento desde aquele “não”. Sem sua boca, sem poesia, sem banho e com a barba por fazer. Retalhos de um quase eu. Apaguei a claridade com os olhos e enxerguei seu meio sorriso – eu adoro as suas covinhas e sua timidez quando sorri -, parece que eu posso sentir você ao meu lado. Parece. O seu maço de cigarros mentolados, abandonado na escrivaninha, ao lado do abajur cor de sorvete de creme. Minha camiseta de time que você usava para dormir continua com o seu cheiro, sua orquídea na varanda não floriu esse ano, e seus discos continuam na estante com os meus… Tudo está no mesmo lugar, só que com saudade. Tudo ali do mesmo jeito, só que cinza. Desde que você partiu eu sou assim, sou só metade, só saudade. Perdi o tom, o ritmo e minhas cores. Fiquei mo-no-cro-má-ti-co.

Vez ou outra, lembro-me de quando éramos. Você vestida de sorriso e vestido-rosa-clichê. O batom era claro e sempre tinha um enfeite no cabelo. Teve aquela noite em que seus olhos borraram, lá pelas duas da manhã, quando te pedi pra ficar. Mas eu pedi pra ficar de verdade, disse que seria seu melhor namorado e que ficaríamos sempre juntos. Você lacrimejou, piscou os olhos com um brilho diferente e a sua voz faltou. Você queria vodka, mas eu disse que teria que ficar bêbada da minha saliva. Você então fez café. O filtro de papel tinha acabado pela manhã e você usou o coador de pano. E foi o meu melhor café. Escolheu um DVD da minha coleção para assistirmos de conchinha durante a madrugada. Tinha ‘500 dias com ela’, mas você preferiu um musical francês. ‘As canções de amor’, com aquele ator que você adora: Louis Garrel. Fumou quase um maço de cigarros aquela noite. Lembro que pela manhã, falou meio dormindo que me amava e eu dei um beijo na sua testa suada e disse que também te amava. Mas você não ouviu, e acho que mesmo que se me ouvisse, talvez não acreditasse.

Eu não sei o nome desse sentimento que sobra quando deixamos de ser, mas eu sei que dói. Eu sei que essa porra de sentimento mastiga o coração da gente. É quando não existe mais ninguém para apertar suas mãos. Sinto-me morto depois que você fechou a porta e partiu aos berros pelas escadas, aos prantos. O senhor Benjamin, meu vizinho do 513, veio me perguntar no dia seguinte se eu tinha te magoado muito, e eu respondi apenas com um olhar triste. Eu não precisei usar nenhuma palavras e ele entendeu direitinho. Sempre soube que aquele velhinho gentil e falastrão era mais inteligente do que a maioria dos meus vizinhos. Teve uma vez que ele bateu na minha porta para pegar açúcar emprestado, disse que tinha feito as contas erradas no mercado. Descobri mais tarde que era aniversário da morte da esposa dele, a senhora Dolores, e então, na verdade, o que ele procurava era apenas companhia para tentar não pensar muito nela. Ainda bem que eu fiz o convite para ele entrar, lembro-me de que jogamos xadrez a tarde inteira.

Tomo mais uma taça de vinho e observo a chuva, daqui de cima, longe de toda essa gente. Perdi a vontade de encontrar outro sorriso senão o seu. Fico com o meu silêncio, engarrafando vontades. Mordo até a língua numa conversa desajustada comigo mesmo, enquanto tento te convencer de que. Aposto que está desperdiçada no sofá, conversando com seus fantasmas. Tenho certeza de que está de pijamas, com uma panela de brigadeiro, enquanto assiste a uma comédia romântica bem dramática. Sua 3×4 agora assombra e desliga o sono. Tentei queimá-la, mas o palito me acordou quando começou esquentar meu polegar e o indicador. Antes do sol acordar resolvo dormir, na sala mesmo, e você me decepciona mais uma vez quando não aparece nos meus sonhos. Sabe, eu já não sonho com você faz um tempo. Quando sóbrio, pergunto-me quando esse intervalo acabará – dizem que a tristeza é só um intervalo entre um amor e outro, então, eu torço para que o relógio caminhe rápido, que o tempo carregue essas lembranças empoeiradas que moram debaixo do tapete, para enfim eu despedir-me de você.

Eder Fabricio, publicado em: http://universo–paralelo.blogspot.com.br/

O pedido de casamento que eu não fiz

 
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A gente casa domingo meu amor, e pode ser do jeito que você sugeriu: Na praia e com trajes bem leves. Mas me leve tá? Me leve sempre pro seu mundo embaralhado. Pode ser sem convidados excessivos, somente com as pessoas que, de verdade, querem o nosso bem. Lembra quando te pedi em namoro? Seus olhos borraram naquele quarto […]
 
E eu senti uma enorme vontade de te acolher no peito e te proteger daquele ex namorado grosso que ainda é um fantasma. Amor de verdade é isso: Zelo. E eu vou pedir para você usar seus óculos de grau quando fizermos a nossa próxima viagem foda. Porque eu não quero uma vitrine do meu lado, impecavelmente linda e perfeita. Quero alguém de verdade, e, seria tolo da minha parte te achar menos atraente por isso. Porra são seus óculos e eu acho que te deixa com ar misterioso e intrigante. Cola em mim, eu cuido de você quando sentir medo daquelas tempestades vespertinas que bagunçam a cidade.
 
Prometo não deixar nada e nem aquele ex, bagunçar o que há de mais precioso em seu peito. Tenho seus fones de ouvido no meu carro, pra quando você enjoar de Radiohead. Baixei o CD da Lana, eu sei que você gosta. E fazer o que você gosta, pra mim é melhor que. Você sabe. Deixo minha camiseta de time para você dormir quando não trouxer pijamas. Sei que sente frio de madrugada. Prometo te buscar às vezes no trabalho, só de bermuda, sem cueca, do jeito que você gosta. Faço Strogonoff de carne, que é seu preferido. Até flambo ele com conhaque, pra te poupar do risco de incendiar a cozinha. Leio seus medos. Se Dotoiévski ficar chato, pulamos para Drummond. Se o seriado da TV a cabo não for bom o suficiente para te fazer sorrir, eu preparo um lanche torto de atum ou peito de peru –para respeitar sua dieta- e te levo no sofá com suco de laranja. Eu compro tulipas amarelas na terça, sem ser necessariamente uma data especial. É que para mim, todas as datas são especiais quando estou com você.
 
Só que você partiu antes daquele filme francês que ficou pela metade. Porque eu me esqueci de ser inteiro. No meio daquela nossa discussão que não disse minhas vontades, pegou sua bolsa preta de couro e desceu as escadas as pressas enquanto chamava um taxi. E eu achei que já fosse um troféu ganho. Jurei que ligaria no dia seguinte. Poderia até dizer que tinha certeza disso. Mas, se tem uma coisa que a vida não nos dá, é a certeza. Ela não existe.
 
Um amor enjaulado dentro do peito não é amor. Não é suficiente. É como se ele só existisse para você. Quando não verbalizamos, o amor deixa de ser. Não há elo. Diga, seja, aja! E após seis meses, vez ou outra, naquelas madrugas frias e insones ainda me lembro dela. Ela se casou com o ex. Aquele! Aquele que sempre foi um fantasma em nossa relação. Às vezes eles assombram pra valer. Aquele fantasma que sabia se expressar melhor que eu. E hoje eu estou com a Giulia. Conversamos sobre tudo, melhor pecar pelo excesso, que pela falta. Dizem que na intimidade não precisamos verbalizar. Mas acredite, precisamos! Mas isso é outra história.
 
 
Eder Fabricio, publicado em http://universo–paralelo.blogspot.com.br/

Sobre dar um tempo e a necessidade de se reconstruir

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Jogou a aliança no assoalho do carro. Olhou-me fundo nos olhos e pediu um tempo. Meus olhos imploravam para você ficar mais um pouco, eu suplicava para que você continuasse a remar nosso barco. Juntos. Abracei e cheirei a nuca, beijei, toquei, tive medo de ser a última vez. Pude ver cara a cara, aquele coração machucado que se esquivava e implorava para eu ir embora. Ás vezes aquela pessoa que amamos escorre por entre os dedos mesmo […]

Na verdade a outra parte não vai embora, não nos abandona da noite para o dia. Os dois é que se perdem em algum momento da relação. Aquele momento em que não houve compreensão. E agora não adiante chorar, é chegada a hora de se reconstruir. Pelo seu parceiro, mas principalmente por você mesmo.

Essa coisa de se tocarem e já sentirem vontade de tirar a roupa, aquele vício de várias ligações durante o dia todo, mensagens pra lá, mensagens pra cá, os planos rápidos para viagens, para se perderem embaixo de lençóis e se alimentarem um do outro, o desejo de estar perto todo instante, vontade de ser o pão e a comida. Tudo isso acaba. Já é via de regra e todos devem estar preparados para o fim da paixão.

Os sinais de que vocês não vão bem são perceptíveis: As brigas acontecem em uma frequência maior do que normalmente aconteciam. A irritabilidade por coisas fúteis se faz presente como a sombra. Os sorrisos são opacos e breves. Até as mãos dadas parecem perder aquele imã. Contrariam vontades para evitarem brigas. Você se pergunta aonde foi parar aquele ser feliz e radiante que fazia juras de amor ao pé do ouvido enquanto transavam ouvindo aquela música só de vocês. Esse é um momento de reflexão. Essa é a linha tênue que separa a paixão do amor.

Existe um momento em que o bolo não cresce e você terá que ter paciência e perseverança. A paixão tem prazo de validade e esse momento é crucial: Ou perdemos e abrimos mão por estarmos vivendo esse momento morno –porém absolutamente normal- ou superamos e nos reinventamos para dar boas vindas ao amor. Porque o que vem depois da avassaladora paixão é a calmaria, a paz… O amor. É o momento em que os olhos falam. O momento em que acreditamos de verdade e por inteiro na pessoa que escolhemos para estar ao nosso lado, é um momento em que vamos precisar nos reinventar diariamente, é uma espécie de combustível que se faz necessário ao amor. O combustível da paixão é o sexo, o toque, mas o do amor vai além: É presença e ausência… Presença do carinho, sorrisos, propósitos, respeito, confiança, zelo, companheirismo, parceria. Ausência de egoísmo, de insegurança, de achar que só sua voz na relação é a que vale.

Todos os dias, o universo nos permite uma nova chance, ele nos dá escolhas e possibilidades de fazermos algo novo. Você pode acordar e chorar por seu amor ter te pedido um tempo na relação, ou lutar para reconquistar aquele sorriso que te faz tão bem. Esse lance de abandonar o barco não é legal, o caminho a nado, de volta para a praia, é para os fracos. Opte por remar. Reconstrua seu relacionamento quantas vezes forem necessárias. Por mais que a outra parte esteja cansada, respeite aquele tempo, se por um estação as mãos do seu parceiro fraquejarem e ele descansar os remos, ele esperará que você seja forte o suficiente para continuar. A reinvenção de um casal que se ama é a coisa mais linda do mundo. São pessoas que acreditam e se doam um ao outro, e, na verdade, a outra parte só está descansando um pouco para quando as suas mãos fraquejarem.

Eder Fabrício, publicado em: http://universo–paralelo.blogspot.com.br/

Uma crônica sobre corações inquietos que dizem SIM ao amor

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Não usaram palavras como especial, diferente ou qualquer coisa do tipo, apesar de terem se reconhecido no instante em que se olharam. Era o primeiro encontro, e não que isso fizesse diferença ou fosse alguma barreira para dar nome às suas emoções, mas era cedo demais para tentar nomeá-las; precisavam mover-se até os ponteiros se acertarem.

Não queriam ser um clichê empilhado de promessas. Ao invés de discutirem fidelidade e ciúme -previsível demais- trataram de levantar logo da cama e foram comer lanche natural com suco de maracujá, de madrugada mesmo, durante uma mordida e outra, planejaram mais “sim” ao invés de “não”, mais sorrisos, mais nudez e mais viagens. Sim à Campos do Jordão, sim às futuras parcerias e sim à forma mais bonita de se prender -sendo livre. Porque você é o meu porto seguro e o tudo o que eu preciso nesse exato momento é dormir com a sua cabeça no meu peito, sentindo seu cheiro.

Eder Fabrício, publicado em:  http://universo–paralelo.blogspot.com.br/

(Des)Amores Inventados nas Tardes de Sábado

06

A barba era cerrada, e foi a primeira coisa que lhe agradou ao olhar o rosto do desconhecido. Imaginou como seria se aqueles pelos percorressem seu pescoço, ombros e costas. Aquele rosto “sujo” deixaria a pele avermelhada e gostosamente irritada com o atrito. Aquela barba era ridiculamente afrodisíaca.

Ele indicava a vaga em que ela deveria deixar o carro. Sentiu vontade de beijá-lo ali mesmo, no estacionamento do subsolo daquele prédio, entre as tubulações e carros desligados, provavelmente enquanto algum segurança se divertia, assistindo o vídeo por quatro ângulos diferentes. Ele estava de bermuda, camiseta polo e chinelo, largado como adolescente despretensioso que joga vídeo game à tarde com o vizinho do andar de baixo, após sair do ginásio. Mas ele já era pós-graduado em Marketing e Cafajestagem, e aquele sábado nublado de São Paulo começava a ficar interessante.

Possivelmente, usava o apartamento para rituais-sexuais-descomprometidos, e isso não minimizava nenhum pouco a vontade dela de arrancar logo aquela bermuda. Subiram até o sétimo andar. Antes disso, a caminho dali, passaram em uma loja de conveniência e compraram cervejas. Ensinaram-lhes desde cedo que não é educado chegar de mãos vazias e que o álcool é um psicoativo que aumenta a libido e diminui a timidez. Ela reeditava ali mais um mentiroso caso de amor, um conto-nada-de-fadas, e a cada pegada mais forte pela cintura, lembrava que não deveria ligar no dia seguinte. A cada sussurro no pé do ouvido, cravava as unhas nas costas e na possibilidade de não responder o próximo e-mail. Colecionava amores em estado gasoso, desses que evaporam rapidinho após o orgasmo.

Quando percebeu um possível traço de afinidade, levantou-se e foi tragar um cigarro. Enquanto ele tomava banho, cansado e exausto de tanto sexo e diálogos, ela tratou de correr os olhos pelo quarto do rapaz. Passeou pelos livros na estante do quarto e pelos DVDs de séries americanas por ali espalhados. American Horror Story ao lado do controle remoto. Parecia não ser do mesmo dono do boneco cowboy do Toy Story, que sorria sentado no assoalho no canto do quarto. Na ponta dos pés foi espiar a sala. Enquadrou cada pedaço sem se preocupar se a atitude seria invasiva e deselegante, não havia outro olhar lhe censurando mesmo. Fugia-lhe a necessidade de ser elegante.

A TV led de 50 polegadas era o excesso para equilibrar a falta. A parede verde escura da sala guardava mensagens em giz escritas por amigos e familiares. Leu “Orgulho da mamãe” e ficou imaginando como seria sua mãe e em qual momento teria feito a dedicatória. “Londres te fez bem, subiu de vida, mano” – essa, possivelmente, seria uma observação de algum amigo íntimo que poderia comentar dessa forma sem parecer invejoso ou coisa do tipo. Havia uma lista de presença com alguns nomes relevantes, ali assinados. Com certeza não ofereceria a ela um giz para um rabisco, e isso não fazia a menor diferença no momento. No vaso branco, próximo ao sofá, faltava uma planta qualquer ali, algo verde e com vida, talvez uma samambaia. Em vez disso o vaso era povoado por inúmeros palitos de incenso queimados, em repouso na areia. Mirra, Cravo ou Patchouli camuflaram o cheiro dos inúmeros baseados ali fumados. Imaginou vertigens em meio ao quadro dos Beatles e a mesa de sinuca e jantar. Sorriu de canto.

Voltou à realidade quando ele abriu a porta do banheiro. Sabia que o amor estava longe disso tudo. Não o acharia assim, em um encontro casual.

– Preciso sair para fazer algumas coisas – ele disparou.

– Claro, sem problemas – o gosto do amor inventado lhe desceu a garganta.

– Eu não valho nada – ele tentou novamente se dissipar daquele instante.

No momento seguinte ela se reinventou e pagou com a mesma moeda. Chumbo trocado não dói.

-Eu também não.

Eder Fabrício

E se depois do fim do mundo o amor continuar?

02

Quando te vi pela última vez você deixou bem claro que isso não era amor e fez questão de colocar todas as nossas contraditórias opiniões em questão. Disse que eu vivia demasiadamente na sua cola e ressaltou o quanto isso te chateava, lembrou do meu excesso de romantismo e até jogou na minha cara que eu deveria ser menos emotivo, que eu deveria dar mais razão às coisas e pensar com o cérebro, não com o coração.

Me mostrou que diferente de mim que prefiro pessoas mais novas, você opta por se relacionar com pessoas mais velhas, que possam te ensinar coisas. Fiquei me perguntando durante um tempão qual o motivo do meu apego aos mais jovens. De repente, se deve por não enxergarem minha insegurança ou por serem mais inexperientes e consequentemente mais inseguros que eu. Me passou pela cabeça que talvez eu fosse tão irrelevante e desnecessário, que não tivesse nada a te ensinar ou acrescentar.

Pontuou que não somos feitos um para o outro e que não somos um conto da Disney. Prefere os que malham, enquanto eu prefiro a literatura e propagar pensamentos com a ajuda do álcool e do cigarro. Embora minha princesa tenha fugido com um príncipe com os bíceps cheio de durabolin e o abdômen rasgado, ainda prefiro Stephen Chbosky à supino articulado.

Prometi para mim mesmo que não traçaria mais histórias sobre você ou sobre o que fomos, que não descreveria por exemplo, a estranha sensação de estar fora de mim ao sentir cheiro do seu pescoço, mesmo que você tenha acabado de sair do cabeleireiro, com o seu perfume removido por toalhas brancas úmidas. 

Seu iphone conectado no rádio do carro para você transformar um vídeo da Beyoncé num super programa de domingo. Repouso um Alpino no seu ombro, você diz que vai engordar. Sua maneira arrogante enquanto articula. Nossas mãos se reconhecendo. Minutos depois se perde nos meus braços, essa batalha eu sempre ganho. Seus olhos verdes combinam com os meus castanhos.  Meus sonhos regressam nesse instante.Peço mais uma chance? Prometo me transformar no que não sou? É que teu beijo ainda é reticências. Todo o meu pesar nunca foi de mentira como você supos. Seria uma furada tentar novamente, às vezes acho que todo o meu melhor ainda seria insuficiente. Longas cartas para ninguém.

Te conto um segredo: tinha planos de uma vida só nossa, com noites de sexta feira regada a Prosecco, Jamiroquai e qualquer outra coisa que você goste. Nosso quarto teria o mais potente ar condicionado, só porque você gosta assim. Teríamos nosso cachorro e planos de como não ter planos. Seríamos. Se. Somente se.

Você me diz que não partiu. Explica que eu deixei que você partisse. Talvez. Metade da razão é sempre de quem vai, enquanto a outra, de quem fica.

Eder Fabrício

O tom de um reencontro

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Eu prefiro a hidro quente, você fria. Gosto de dormir de conchinha cheirando seu pescoço, você gosta de deitar de bruços. O ar condicionado ataca minha renite, mas você morre de calor. É inexplicável o que nos une. Desejo somente que nossas vontades se toquem e deem as mãos por longos anos e que possamos construir nosso elo da forma que acharmos conveniente: em cima de lençóis brancos e limpos, atrás de mesas de café ou novamente em poltronas de cinema.

 Nunca fui o tipo de cara que se prende aos romances naufragados, sempre achei suficiente, por exemplo, saber que a pessoa está bem e seguindo sua vida após o término. Mas existem relacionamentos que possuem algo a mais, uma carga maior de entrega mútua, relacionamentos que fazemos questão de saborear novamente nas esquinas da vida entre um verão e outro. Empatia, sinergia, química, chame como preferir, eu simplesmente gosto de ter novamente, cara a cara, alguém que um dia me fez bem. Gosto do abandono no palco e da volta triunfante para uma nova turnê.

 Nosso romance sempre terá aquela trilha sonora enigmática e gostosa embalada por Thom Yorke. Você com seu modo alternativo demais dentro dos seus conceitos, discreta no jeans com camisa branca, demasiadamente inteligente quando articula qualquer tema, ali mesmo, na mesa de bar, e charmosa quando marca a borda da taça do vinho com o formato dos seus lábios. E existe a maneira como você sorri. A maneira que seus quadris se movem. Você é deliciosamente atrativa aos meus sentidos. Todos eles. Fico torpe.

 Eu te proponho uma cerveja e um bom papo. Você não hesita. Entra no meu carro. Uma, duas, três cervejas e agora a lua parece mais cheia e próxima. Nossos olhos se entregam com mais facilidade. Os elogios soam naturalmente e entre um toque no braço, rosto, cabelo, te entrego minha vontade: beijar sua boca. A sua coincide. Sua boca, novamente presa a minha. O cheiro cítrico do seu pescoço, misturado com o seu suor -esse cheiro é só seu. É inevitável, chovem lembranças de quando éramos. Quando você me fazia sonhar sempre que. Quando sussurrava segredos íntimos no meu ouvido depois de. E sorria gostoso quando.

 Temos somente dia de hoje, então, eu vou lhe dizer olhando bem no fundo dos teus olhos, que você é sim muito importante para mim e que me reencontrar com você essa noite, me faz um bem imensurável. Não consigo quantificar ou qualificar as sensações de prazer que você me proporciona. Talvez aquele amigo mais crítico ache uma recaída boba e tenha vontade de me chicotear em praça pública, ou aquela amigona sincera me recrimine por eu cair mais uma vez naqueles conhecidos (a)braços, mas você sabe que acelera meus batimentos cardíacos e o que me faz tremer as pernas. Suar as mãos. Virar as costas para esses momentos por orgulho ou medo de ferir o ego, isso sim seria uma grande burrada.

 O que foi dito no ápice de nossas crises, quando colocamos um ponto e vírgula, foi dito da boca para fora. Todos exageram no tom da despedida, do término. Passam do ponto. Despedidas são pesadas, difíceis mesmo. A nossa não foi diferente. Entendemos os reais e possíveis motivos do término. Amadurecemos, superamos e começamos novamente desejar o bem, um ao outro. O saldo final é positivo, fica o afeto e o carinho por alguém que em um determinado período de nossa vida, foi parceiro. Então façamos um trato: Vamos guardar nossos bons momentos, somente esses.

 Qual o tom de um reencontro? Pinto de cor vermelha. Amores que nos marcaram e suas inúmeras possibilidades de brilharem novamente apesar dos pesares. É aquela gostosa sensação de degustar novamente aquele salmão com molho de maracujá que você adora e lambe os dedos sorrindo. Você é a pequena e insubstituível peça que completa meu quebra-cabeça.

Eder Fabrício

Diagnóstico e Receita

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Um novo rosto.
A sua maneira de sorrir.
Você me oferecendo a última mordida do seu temaki.
Você cantando “janta” no meu carro.
Dizendo “não” pra Heineken, prefere Coca.
Eu perco o sono quando lembro do seu jeito.
Suas caretas bravas acompanhadas de sorrisos.
Sua boca quente, ora me beija, ora verbaliza, exclama, sorri, pede, dá.
Minha.
Só minha.
Tem a sua leveza proibida para menores de 18 anos.
Tem a sua coragem e suas vontades, típicas de quem tem 18 anos.
Pede as contas no emprego e me manda um torpedo dizendo para eu não brigar.
Como eu brigaria?
Ainda é cedo amor, mal começou a vida.
Deixa eu te mostrar aonde podemos ir?
Presta atenção, sua presença me faz bem.
Ver seus olhos negros brilhando me tranquiliza.
Mora em mim, as portas estão abertas.
Diagnostico: Vontade incontrolável de você por perto. Receita: Sua presença de 6 em 6 horas.

Eder Fabrício