Um tempo em que ninguém tem tempo

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Coloquei a minha vida num liquidificador. Essa é a minha impressão. Parece que pisquei é passou meio ano. Tenho batido meus dias de modo que já não sei mais quando começa um e o outro termina. Perdi um pouco do meu brilho nesse picadinho. Empenhei tanta energia no trabalho, dei tanto espaço, que agora me encolho no que sobrou.

Tenho me deixado pra depois como as fotos que eu preciso revelar, as barras das calças que eu dobro, a consulta no dentista, no oftalmologista, no ginecologista e em todos os outros istas que eu preciso, o inglês que me atormenta, os primos e tios que eu adoro, mas que eu veria imediatamente se e somente se estivessem no hospital.

Fiz da minha cabeça a primeira gaveta da cômoda, onde guardo tudo que eu não posso perder, mas não tenho tempo de organizar. Ando assim fragmentada, desatenta, com medo de me perguntar mais seriamente como estou me sentindo. Reparei que não percebo quando meus colegas saem de férias e quase não converso com quem realmente importa.

Nessa sucessão de desencontros, parece que virei meus olhos para dentro. Tenho um milhão de dúvidas e só duas certezas: cheguei onde cheguei por escolha e tenho outras escolhas além daqui. A parte que eu não sei é se, no fundo, eu estou sendo impaciente.

Desde que surgiram as telas, os minutos passam mais acelerados. Substituímos qualquer espera por Facebook e Whatsapp. Eu não sei até que ponto isso é saudável, até que ponto é produtivo, mas como ando permanentemente entretida, resolvi deixar essas perguntas pra depois.

Vou vivendo na ilusão de que me sobra muito tempo. Mas é bem capaz que eu pisque e a gente esteja no Natal.

Sara Westphal, publicado em: http://papelbaunilha.blogspot.com.br/

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A questão não é ter um namorado – é ter o namorado certo

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Você me pergunta por que eu não tenho namorado como quem tenta descobrir o meu defeito. Eu digo que não sou tão fácil, como quem responde “perfeccionista” na entrevista do RH. Não é mentira, mas também não é por isso. Poderia colocar a culpa nos homens e dizer que é difícil se comprometer. Poderia colocar a culpa “nos tempos” e dizer que é difícil admirar. Poderia fazer que nem aquela jornalista que escreveu “se você está sozinha é porque você é chata” e ficar me redimindo pelas minhas neuroses, mas nada disso seria sincero.

O que eu tenho pensado ultimamente e tem me trazido alguma calma é que o amor é muito específico. Não é mesmo fácil encontrar. Aparência, interesses comuns e vida profissional são critérios genéricos. Se não fossem, a plataforma do amor seria o Linkedin.

Não é assim que funciona. Pelo menos pra mim. Sempre estranhei essas pessoas que conseguem emendar namoros. Sai um, entra outro e fica tudo bem. Antes achava que tinham muita sorte. Hoje penso que são mais flexíveis. Talvez valorizem mais a companhia do que a pessoa. Gostem da estabilidade de ter uma programação. Adaptam-se melhor ao outro, enquanto eu me prendo a detalhes.

Apaixonante pra mim é o cara que trata bem o garçom. Que me chama de um jeito fofo. Que tem pensamentos bonitos. Que nunca tenta tirar vantagem. Que consegue desenrolar uma conversa agradável numa festa cheia de desconhecidos. Pode parecer loucura, mas para mim a paixão está intimamente ligada aotom de voz e à qualidade da playlist. Gosto de quem me olha com inteligência, de quem me abraça com vontade, de quem não se expõe demais.

Toda vez que eu vejo um casal feliz, imagino que eles sejam resultado de algum alinhamento cósmico super complicado. Se já é difícil amar alguém, imagina amar alguém que te ama de volta. Que também valoriza em você o que mais ninguém percebe. Considero uma missão fazer-se insubstituível num mundo em que ninguém mais levanta a cabeça, tão entretidos que estamos com o visor do telefone.

Como disse uma amiga, a questão não é ter um namorado: é ter o namorado certo. Enquanto ele não chega, eu trabalho, saio, vou à academia. Às vezes eu surto, mas não há muito o que eu possa fazer. Preciso ter paciência para esperar o que mereço. Estou sozinha e não é culpa minha. O amor é raro.

Sarah Westhphal

Perto de mim, só gente bonita

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As portas da igreja se abriram e lá estava ela, linda como eu já imaginava, ao lado do pai emocionado. Olhou para o altar com um encantamento de menina, sorriu e se deram as mãos. Antes do primeiro passo, ela virou-se pro pai, beijou sua mão e perguntou com toda doçura do mundo: vamos? Enquanto ela entrava, agradeci por poder estar presente e fiquei tentando adivinhar o que fazia este momento tão bonito. O vestido era perfeito, mas não era isso. O cabelo estava lindo, mas não era isso. A música, a decoração, estava tudo tão mágico mas ainda era pouco. Ao vê-la caminhando radiante e iluminada em direção ao seu príncipe, pude perceber que a beleza daquela noite era ela.

Percebi, de uma maneira concreta e definitiva, que beleza interior é externa. Não é um jeito de dizer. Primeiro a frase soou estranha e depois pareceu muito clara. A beleza interior transparece o tempo todo, é violentamente evidente. A verdade com que se olha, a delicadeza com que se responde, o interesse com que se ouve, a capacidade de discordar respeitosamente. Tudo isso influencia a presença da pessoa no mundo: muda o jeito que ela gesticula, que se move, que ri.

São atitudes assim que tornam a beleza consistente. Se parar para pensar, somos bem mais ação que contemplação. Se tirarmos as oito horas de sono, sobram dezesseis horas para interagir: conversar, trabalhar, comer. Fazer dessa interação uma boa experiência requer muito mais que um rostinho de miss.

É claro que beleza física importa. Toda mulher que eu conheço quer se sentir bonita e isso tem garantido a sobrevivência de boa parte das revistas de globais e BBBs. Mas acho que se fala muito pouco sobre o outro lado. Pessoas bonitas têm pontos de vista interessantes, riem de si, são autênticas. Pelo menos para mim, seria bem pertinente se as dicas de beleza fossem além da maquiagem. Quer ficar mais bonita? Experimente não constranger os outros, espere a sua vez de falar, escolha assuntos agradáveis, não espalhe segredos que não são seus. Atitudes egoístas deixam as pessoas muito muito feias e isso conta mais que a cor do batom.

Ao ver minha amiga entrando na igreja, encontrei a minha definição de beleza: bonito é quem a gente pode admirar. Não sei se é assim que funciona para todo mundo, mas é assim que eu tenho escolhido meus amigos. É esse tipo de gente que eu quero por perto: gente generosa, positiva, justa, gente que nos abre os olhos e nos puxa pra cima.

Para tudo que não seja isso, a beleza não passa de um atributo provisório.

A feiúra é uma questão de tempo.

Sarah Westphal

Adoráveis cafajestes

Levante a mão quem nunca pensou “mas comigo ele é tão diferente.”

Escrevo para as que permaneceram com as mãos abaixadas. Para aquelas que conseguiram enxergar o sorrisinho cretino daquele cara gente boa que te fez perder algumas noites segurando o celular. Daquele que inventou as mentiras mais toscas pra te conquistar, pra te perder e pra te conquistar de novo. Daquele que nunca te dispensou, porque cafajeste que é cafajeste jamais dispensa: administra.

Definitivamente, ser cafajeste não é para qualquer um. Exige anos de prática. Tem que saber exatamente o que uma mulher quer escutar, a hora certa de dizer e usar os maiores clichês da face da Terra sem parecer meloso. Tem que fazê-la sentir especial, ter alguma coisa entre mocinho de novela e astro de filme pornô. Tem, acima de tudo, que entender que o segredo do pudim é o banho-maria. Não dá pra deixar esfriar, não dá pra deixar ficar quente demais. Quer enlouquecer uma mulher? Faça-a esperar. Não existe nada mais insuportável que a espera.

21 h: Passei o dia inteiro imaginando esse encontro, estou pronta e maquiada, contando os minutos. 22 h. O telefone não toca. “Segura a onda, ainda dá tempo” digo pra mim mesma, tentando não me concentrar no que está acontecendo.  23 h. No desespero, começo a me enganar: “Tudo bem, sou moderna…se ele não ligou, eu ligo”. Chama, chama e cai na caixa. Ligar de novo é perder a dignidade. Vou dormir arrasada, até que no dia seguinte ele arruma uma desculpa e quase me convence. Digo quase, porque a gente sempre sabe. Já sabia antes mesmo de começar. Cafajeste que é cafajeste tem ficha suja. As amigas alertam, repassam o histórico de corações partidos, mas agora já é tarde. Você quer pagar pra ver.

O primeiro encontro é lindo. O cara não é tão bonito quanto ele acha que é, você é mais legal do que ele pensava e provavelmente vocês vão sair de novo.  Começa assim. Aos poucos, os encontros vão ficando cada vez mais esparsos e você cada vez mais a fim. O ponto de interrogação só aumenta. Definitivamente, ele tem alguma coisa a mais. Essa coisa é controle. Cafajestes sempre têm o controle. Eles leram o nosso manual de instrução e vão usar todas as funções em seu favor. Massagem, carona de volta, café da manhã na cama. Eles só não pedem porque ganham antes. Cafajestes sabem de uma coisa que os galinhas não sabem: mulher é bem melhor quando ama. E não é preciso fazer nada. É só dizer.

Nosso ponto fraco é a vaidade. Diga que eu sou bonita, que gosta de estar comigo, diga que eu sou divertida. Mesmo que eu finja que não acredito, lá no fundinho eu sei que é tudo verdade. E daí se as atitudes não forem coerentes? A gente gosta mesmo é do discurso. Vamos ler e reler a conversa, supor, interpretar, repetir, pedir opiniões alheias, descartar opiniões contrárias até conseguirmos criar uma história verdadeiramente intrigante para pensar o dia inteiro. Cafajeste que é cafajeste sabe que, de uma mulher apaixonada, o pior que se pode esperar são explosões momentâneas de raiva que, se o cara for mesmo inteligente, se resolvem antes de começar.

Cafajeste que é cafajeste sabe que quando a gente insiste na briga, a ressaca moral é forte e a gente pede desculpa por ter perdido a calma. Cafajeste que é cafajeste sabe que a gente tolera qualquer coisa, menos indiferença. Talvez a única coisa que um cafajeste não saiba é que uma hora a gente se toca e até acha fofo. Umas se cansam, outras vão embora. Algumas simplesmente administram.

Sarah Westphal