Solteiro sim, feliz também

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Todo mundo quer alguém, eu também. Mas desse todo mundo pouca gente se vê feliz sem alguém. E eu, ah, eu me vejo. Eu devo me ver. Comigo as coisas vão bem, poderiam estar melhores como sempre desejamos que sejam, mas de verdade, está tudo bem.

Eu tenho um emprego e uma família para me dar apoio. Tenho amigos nos quais posso contar e de vez em quando me aventuro em uns beijos que não me lembro direito quando acordo, vezes conhecendo alguém por um app no celular, vezes entre uma ou outra dose numa sexta no bar ou no meio de uma pista para dançar. Faz parte, vida que segue.

Se eu não conseguir ser feliz sozinho eu nunca vou conseguir fazer alguém feliz comigo.

Por mais óbvio que pareça isso é algo que sempre deve ser lembrado.

Eu não quero ter alguém comigo para me ajudar a ser feliz se eu não sei fazer de mim mesmo alguém feliz. Falando nisso, eu preciso me cuidar mais. Preciso arranjar um tempo para arranjar tempo. Tempo a gente sempre arranja. Confesso que caio fácil na desculpa de que “a vida anda corrida né, chego em casa cansado demais e quero dormir logo”. Quem nunca? O que eu tenho percebido é que essas desculpas têm se tornado parte da minha rotina; daquela mesma rotina que eu digo detestar. E nessas se passam semanas, meses e anos. Existe uma academia me esperando para me ajudar a ficar bem comigo mesmo, não com alguém. Tem aquele curso que eu sempre esqueço de me inscrever. E as férias que eu poderia planejar melhor para viajar.

Hoje eu não estou disposto a esperar alguém aparecer. Até porque não sou eu quem manda.
Eu mal consigo esperar a comida do microondas ficar pronta e já fico pausando os segundos mesmo sabendo que vou comer depois, o que dirá aceitar esperar que chegue alguém, que vai me fazer bem, mas que não tenho nem dica de quando vai chegar? Esperar por algo que não se sabe quando vai chegar é escolher sofrer.

Quero muito mais que uma vida cheia de expectativas – a não ser pela próxima temporada do meu seriado preferido.
Quero o tempo que perco me preocupando com conversas nas quais não me encaixo, quero para mim o tempo das noites de sexta e fins de semana que perco me entristecendo ao ver a timeline das pessoas cheias de fotos com amores e histórias para contar, quero as experiências que só vou conseguir viver enquanto não tenho alguém, pois isso é só uma questão de tempo. Sabia? Eu sei. Já tive outras pessoas, daí elas foram embora para que chegassem outras. E tudo se repetiu algumas vezes.

O mundo coloca muito peso nas costas de quem é solteiro.
É depressivo ir ao cinema sozinho, ir a um show sozinho, ir viajar sozinho. As pessoas cobram uma companhia como uma necessidade para a felicidade. Olham torto se você está sozinho num lugar em que “deveria” estar acompanhado. Te tratam feito coitado quando comenta que o fim de semana vai ser de chocolate e Netflix – como se fosse uma coisa horrível, né? Eu não ligo para nada disso e faço tudo isso porque se tem algo que eu gosto é de me sentir bem comigo.

Coisas desse tipo eu, sinceramente, nem dou ouvidos.
Eu é que não vou me desesperar em ter alguém para me acompanhar.
Chorei por quem se foi, choraram por eu ter ido, vivo enquanto alguém vai chegar, sorrio pelos meus próprios motivos.

Todo mundo quer alguém, eu também. Mas ultimamente estou querendo mais continuar com a minha paz. A paz de chegar em casa e colocar no canal que eu quiser e esquecer o tênis suado no meio sala. A paz de confiar em mim mesmo para me sentir bem. A paz de acordar com a cara amassada e sair para trabalhar assim mesmo. A paz de flertar quando achar que devo e dar bola quando achar que merecem. Quero viver as surpresas dos dias, alguns felizes demais, outros um pouco menos, mas todos muito bem vividos.

Solteiro sim, feliz também, com ou sem alguém.
Sempre amor, nem sempre por alguém além de mim mesmo.

Márcio Rodrigues, publicado em: http://umtravesseiroparadois.com.br/

A felicidade é uma escolha

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Pensa com carinho em tudo.
Olha o que você está fazendo com a sua própria vida. Presta atenção em como tem gastado seu tempo e, principalmente, com quem. Você merece cuidar um pouco mais de você.

Talvez seja esse o momento para você pensar no esforço que tem feito diante do reconhecimento que tem recebido. Talvez seja esse o momento para você colocar na balança as coisas que gostaria de viver diante das coisas que precisa. Talvez seja esse o momento para você entender que a vida raramente é do jeito que gostaríamos, mas que também, de certa maneira, nós podemos escolher como ela pode acontecer.

Tudo bem você não saber o que fazer, mas você sabe exatamente o que não fazer.
Você pode não saber lidar com a saudade, mas sabe como só vai aumentá-la se ficar relendo mensagens ou revendo fotos. É mais ou menos por aí.

Você merece cuidar um pouco mais de você. E isso em nada tem a ver com esperar alguém ou se cuidar por alguém ou, muito menos, se cuidar na expectativa de alguma coisa acontecer. Isso tudo tem a ver com preferir viver do que sofrer.

Eu sei que você coloca seu coração nas mensagens que envia ainda que seja para perguntar se está tudo bem ou para falar algo do tipo: “vi tal coisa e lembrei de você”. Eu sei disso. Sei que só insiste porque acredita que se tentar só mais uma vez pode dar certo. Sei que só contraria o que sabe ser errado por acreditar que o que sente é o certo. E você não tem culpa, não há certo ou errado. Você está acima de qualquer julgamento unicamente por preferir seguir seu coração, mas é justamente do seu coração que você precisa cuidar um pouco mais.

Escolha ser feliz.
Se você for um homem, escolha se achar interessante e atraente para si mesmo antes de esperar que achem isso de você. Se for uma mulher, escolha se sentir sedutora, sexy e inteligente para si mesma, escolha se apaixonar pelo que vê no espelho toda manhã.
Se você for um ser humano escolha cuidar um pouco mais de você e estará escolhendo ser feliz. Passe a margarina no pão com mais carinho pela manhã, contabilize as voltas que a colher de açúcar dá se misturando com o café.

Pensa com carinho em tudo.
Não transfira o peso da felicidade em atitudes de outras pessoas. Não meça seus sorrisos pela velocidade que te respondem suas mensagens. Não viva a paranoia de se sentir a pior pessoa do mundo. Não entre na cilada de se comparar com outra pessoa para aquela pessoa que você quer ou já quis. Você não precisa provar nada para ninguém além de você, você não precisa gastar energia com quem não gasta um minuto com você, mas tudo isso você precisa perceber.

A felicidade é uma escolha.
É uma escolha sobre aproveitar o tempo e celebrar as menores coisas do dia. É uma escolha sobre comprar uma roupa para se sentir bem com si próprio, não com outra pessoa. Felicidade é uma escolha sobre dar chance para quem se propõe a te dar a vida. Felicidade é a escolha sobre sentar neste ou naquele banco no metrô, se ficar nesta ou naquela faixa no trânsito, se assistir este ou aquele filme, se viajar para este ou aquele lugar.
A felicidade é uma escolha, não uma prisão. Felicidade não é a necessidade de ter alguém, não é a necessidade de ter quem você gosta, mas que não te quer. Felicidade não é a dependência de elogios de terceiros para se sentir bem, não é o terror daquela droga de mensagem não respondida.

Pensa com carinho em tudo.
Não dá para escolher ter bom humor todos os dias, mas dá pra escolher correr atrás de viver um dia com bom humor.
Olha o que você está fazendo com a sua própria vida.
Você merece cuidar um pouco mais de você.

Marcio Rodrigues, publicado em: http://umtravesseiroparadois.com.br/

Menos likes nas fotos, mais likes na vida

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A gente não quer só dizer que está tudo bem; responder ao perguntar “tudo e você?”. A gente não quer essa coisa de “vamos marcar um dia” e perceber que na verdade esse dia nunca vai chegar. Ah, a gente não quer mesmo.

A gente ama marcar e realmente comparecer nas coisas marcadas. A gente é o tipo de gente que gosta de ter gente por perto. Gente de verdade, sabe? Gente imperfeita, que erra, mas tenta acertar com vontade.

Bem que por um lado seria mais fácil exigir menos e só viver por aí beijando bocas. E dia seguinte postar um “gente, o que eu fiz ontem?” igual as pessoas fazem, né? Mas a gente não gosta muito disso não. “Então vocês são santos?” Pelo contrário.

A gente coleciona boas aventuras, lembramos de alguns beijos, de outros nem tanto, porém. É que funciona assim: Se for pra gente ter qualquer coisa é melhor a gente nem ter nada. Essa história de curtir a vida do jeito que se curte um pacote de salgadinho não é muito a nossa praia. Por isso a gente é meio exigente sobre o que queremos.

Mas evite confusões: a conotação do verbo “exigir” aqui configura em algo parecido com almejar, ou seja, é que a gente sabe bem o que quer e não aceitamos nada menos que isso. “Nossa, mas o que tanto vocês querem então?” A gente quer quem queira a gente. No fim, é só isso.

Esse alguém pode ser bem diferente da gente. Pode gostar de refrões que não achamos graça e pode amar filmes que nunca vamos assistir, isso nem importa, desde que esse alguém goste da gente. Dá pra ver como é bem simplista no fim, né? Não tem exagero nenhum não. Com alguém que goste da gente fica mais fácil viver a vida de um jeito mais contente.

Pois sabe como é né, é bom demais ter uma risada pra acompanhar a nossa e ter uma mão pra aquecer tipo nessas noites de inverno. É bom demais dividir o edredom e dormir feito uma pessoa só. Isso é realmente bom demais.

Essas coisas acontecem quando a gente tem alguém que gosta da gente.

Também é por isso, no entanto, que a gente fica tão triste com algumas coisas.
Dói demais conhecer alguém que se parece bacana e depois ver que esse alguém não dava a mínima pra gente, sabe? É chato porque a gente gosta de se dedicar pra caramba. A gente é meio cafona. A gente gosta de pedir pra avisar quando chegar em casa, a gente termina as frases não com um =) mas com um <3.

Olha, pra gente isso se chama carinho, mas tem que não goste tanto assim.

Tipo aquelas pessoas que veem a forma da gente cuidar como uma forma da gente se apropriar. E aí dá um nó cabeça: ué, a gente não tem poder de se apropriar de ninguém, pra quê pensar assim? Essas pessoas são estranhas. A gente acha que elas tem medo de pessoas como a gente; de pessoas reais.

A gente sofre tanto, vocês nem fazem ideia do quanto.
Não entra na nossa cabeça como alguém pode ler a nossa mensagem e não responder. É claro que a gente sempre espera uma resposta boa, mas melhor que isso é ter pelo menos uma resposta, seja qual for. Mas tem umas pessoas que perdem tempo jogando ao invés de ganhar se divertindo. Esse negócio de “não vou ligar porque já liguei muitas vezes” não cola muito com a gente.

E aliás, a gente gosta mesmo é de quem toma uma atitude, sabe? Nossa, como a gente gosta! É outra coisa boa da vida: alguém que diz pra gente o que sente; alguém que diz que tá com saudade da gente e como fazemos falta. Ou até mesmo alguém que diz pra gente quando erramos.

No fim das contas as coisas são meio práticas, né? Pra gente é, mas tem gente que gosta de dar uma complicada, vai saber o por quê.

Sim, a gente imagina um mundo bem bonito. É que pra gente funciona assim: fazemos com as pessoas o que gostaríamos que elas fizessem com a gente. É tipo o 2+2=4 do coração, sabe? Por isso que às vezes o mundo parece mais legal pra gente. A gente primeiro mergulha nas pessoas, depois a gente vê se vamos nos afogar ou nadar. E deve ser por isso que muita gente torce o nariz porque a gente gosta de postar frases e músicas bonitas. Ué, o que a gente mais gosta é de espalhar coisas boas. Pra que dar atenção para as coisas ruins? As pessoas parecem gostar de sofrer, enquanto a gente gosta de viver.

A gente não quer só dizer que está tudo bem; responder ao perguntar “tudo e você?” A gente não quer só o “visto por último tal hora” (que aliás agora dá pra esconder, né?). A gente não quer só esses likes nas nossas fotos, a gente quer like nas nossas vidas.

A gente não quer só puxar assunto, a gente quer ser puxado também. A gente não quer só chamar pra sair, a gente quer convites também. A gente quer a vida real; a gente quer quem queira a gente. A gente quer você se você mostrar que quer a gente. Provavelmente a gente seja eu e você. Nós, todos uma coisa só.

Marcio Rodrigues, publicado em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/

A pessoa que eu quero

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Não é perfeita.
A pessoa que eu quero tem um monte de defeitos.
Mas pelo menos reconhece todos eles e tenta lidar com eles.
Algo que raramente consegue. Mas tudo bem.

A pessoa que eu quero me fala o que preciso ouvir e não o que eu gostaria.
Eu preciso da verdade, por mais dolorosa que seja.
Preciso saber onde errei pra tentar consertar antes de ver tudo se arruinar.
Preciso saber onde acertei pra tentar melhorar antes de ver tudo se acomodar.
Eu não preciso ter razão sempre.

A pessoa que eu quero pode até não conseguir me entender – afinal, nem eu mesmo me entendo – mas ela tenta. Ela tenta se colocar no meu lugar.
A pessoa que eu quero nem sempre acerta mas sempre tenta.
Eu gosto mais de tentativas do que realizações.
É difícil conseguir algo, mas é ainda mais difícil tentar conseguir algo.
Os primeiros são quase sempre os passos mais difíceis.
Requer mais esforço sair do lugar do que permanecer onde está.
São as tentativas que me seduzem e me fazem ver o quanto alguém pode se esforçar por mim. Como eu disse, admito que nem eu mesmo me entendo, e por isso, não me cabe julgar as vitórias, mas me cabe valorizar as batalhas.

A pessoa que eu quero não gosta de joguinhos.
Normalmente ela me liga quando sente vontade, me diz que sente saudade quando está com vontade, me chama no chat pra falar qualquer coisa quando sente vontade, me chama pra sair quando sente vontade. Ela não espera que eu faça alguma coisa para que possa fazer também. A pessoa que eu quero, entretanto, não é submissa à mim ou aos meus caprichos, ela tem muita personalidade. A diferença é que ela sabe aproveitar o tempo, sabe que talvez seja mais inteligente aproveitar o tempo fazendo alguma coisa para que algo bom aconteça do que esperar com que algo bom aconteça sem que nada
precise ser feito.

A pessoa que eu quero admite que erra.
Insiste em defender o jeito que pensa, mas não procura vencer, procura argumentar pra me convencer Mas isso dura tempo suficiente para perceber que estamos perdendo tempo. Então ela releva. Então eu relevo. E a gente se acerta sem que precisemos estar certos.

A pessoa que eu quero sabe reconhecer coisas boas.
Sabe que eu gosto de cuidar e que é claro que eu tenho ciúmes, mas é só porque… bem, tenho ciúmes mesmo, não tem por quê.
Mas ela sabe que amo me dedicar por nós dois e que as nossas pequenas coisas são só nossas. A pessoa que eu quero sabe como é bom ver um filminho embaixo do edredom, sabe como faz bem uma gentileza aqui ou ali a troco de nada, sabe como mensagens surpresas melhoram o meu dia, sabe que se eu não quero sexo em uma noite qualquer é porque eu não estou confortável pra me dedicar como merecemos. Ela sabe reconhecer minha sinceridade.

A pessoa que eu quero gosta dos meus sorrisos imperfeitos!
Diz que gosta de ficar comigo pra ver as nuvens dançando no céu.
E diz também que tudo bem eu não saber cantar direito, mas é divertido me ver cantarolando meus refrões preferidos. Ela diz que faz bem pra ela me ver bem, mesmo que eu não saiba muita coisa tão bem assim.

A pessoa que eu quero sabe que se estamos juntos é pra construir algo bom juntos. Sabe que se eu não dormir bem a noite, os dois não dormem. E vice-versa. Sabe que apesar de normais, nossas discussões não podem nos ferir e não podem desgastar a construção do que vivemos, por isso ela consegue ver com mais do que com dois olhos.

A pessoa que eu quero não renega o passado.
Ela sabe da importância de cada dia já vivido e cada boca já beijada; sabe de tudo que viveu pra chegar até onde estamos. Vez ou outra ela traz a tona alguma experiência de modo que possamos aprender juntos; os dois sempre ganham. Mas a pessoa que eu quero não é refém do que não existe mais, não se aprisiona numa saudade do que já viveu, nem desenterra lembranças que de certa forma não me farão bem.

A pessoa que eu quero responde minhas mensagens, nem que seja pra dizer “não posso falar agora”. Ela entende que se a procurei é porque desejava falar alguma coisa, e que por mais que não fosse nada de importante, ela entende que é bonito ver alguém dedicado um segundo da própria vida pra outro alguém, entre tantos outros “alguéns” que existem nesse mundo.

A pessoa que eu quero não tem vergonha de chorar.
Ela não precisa ser forte o tempo todo. Ninguém precisa, aliás.
Essa pessoa sabe que quanto mais sincera ela for com ela mesma, mais será comigo, mais seremos um com o outro. Ela sabe que apareci na sua vida pra somar, que a minha felicidade é multiplicada pela dela, que não somos viciados nem dependentes um do outro, mas que juntos somos melhores. Por isso ela desabafa. Me conta dos medos infantis, dos problemas em casa e no trabalho. Deita no meu ombro e chora por se sentir uma pessoa fraca. Ela desmorona dentro do meu abraço. A pessoa que eu quero nada pra dentro de mim com o jeito que me olha.

A pessoa que eu quero sabe a diferença entre exibir e compartilhar.
Ela entende que podemos sim mostrar pro mundo como gostamos um do outro, desde que isso não agrida outras pessoas de alguma maneira. As pessoas não veem como a gente. Nossa felicidade não precisa ser jogada na cara, não precisa ser provada pra ninguém. A pessoa que eu quero entende que por mais bonito que seja mostrar na internet o quanto a gente se gosta, o que precisamos mesmo é convencer um ao outro o quanto nos gostamos.

A pessoa que eu quero faz um sexo que podemos chamar de “nosso”.
Não me coloca em lista de desempenho, não me estabelece em ranking, não me julga nem pior nem melhor, mas entende que tenho o meu jeito de fazer as coisas, e mais, que eu sempre posso mudar. Sempre posso aprender. Sempre podemos.

A pessoa que eu quero não tem muita frescura não.
Com ela é difícil ter tempo ruim. Chuva nenhuma impede a gente de sair. Sol nenhum é o bastante pra nos esconder. Ela vai à praia se for preciso, vai ao campo, usa cachecol, usa regata. Usa sapato, usa chinelo. Come de talher, come com a mão. Ela é normal. Ela gosta de falar com meus amigos – mas é sincera ao admitir quando não vai com a cara de algum deles -, gosta de falar de bobagens, gosta de rir do que acha graça e não do que deve rir. Ela prefere dizer mais sim que não. A pessoa que eu quero vive comigo pela gente, não por mim. Ela gosta das minhas qualidades e de como somos bons juntos.
A pessoa que eu quero tem beleza fácil.
Daquelas que me dá vontade de tirar uma foto do jeito que acorda. Que os cosméticos ou roupas de marca podem valorizar, mas que nunca vão substituir a beleza amassada de acordar ao lado. Ela tem gesto sincero, riso frouxo e entende que não adianta querer ser algo a mais do que é; entende que se eu digo que gosto não falo por falar, falo por sentir.

A pessoa que eu quero não liga muito pra dinheiro.
É claro que ela tem suas vontades e corre atrás do que precisa pra realizá-las, mas ela também vê prazer na vida por viver. Vê valor num dia de sol na cabeça disfarçado de óculos-escuro, vê valor no jeito que a chuva bate no vidro e escorre devagar, vê valor na gente comprar qualquer coisa pra comer, nem que seja metade da pizza mais barata, vê valor em qualquer coisa desde que estejamos juntos. A pessoa que eu quero constrói comigo o valor das nossas coisas!

A pessoa que eu quero vive nesse mundo onde eu mesmo digo que ninguém mais presta. Ela tem muitos dos problemas que eu também tenho, tem muitos dos traumas e dos sonhos, tem muito do que eu sou. Somos da mesma espécie. Respiramos o mesmo ar.

Sei que falando desse jeito todo a pessoa que eu quero parece perfeita, mas não é, mas ela é pra mim exatamente do jeito que eu gostaria de ser pra alguém.

Márcio Rodrigues, publicado em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/

Eu odeio joguinhos mas preciso aprender a jogar

10

Tipo você.
Eu gostaria de perguntar a noite como foi o seu dia, mesmo tendo falado com você durante ele todo. Sei lá, inventaria algum assunto, transformaria mais uma viagem de ônibus em uma viagem cheia de detalhes, com gente dormindo, rindo, ouvindo música alto, gente de todo o tipo. Eu detalharia cada detalhe pra você. Assim, redundante mesmo.

Gostaria de saber quem são seus amigos para que eu pudesse ilustrar cada um deles na minha cabeça toda vez que menciona algum deles. Eu gostaria de ter a liberdade de poder te ligar a qualquer hora. Gostaria de te chamar pra sair mais vezes do que já saímos. Eu gostaria de te dizer que ficaria feliz em te ver alguns dias a mais durante a semana. Gostaria de poder te abraçar depois de uma risada nossa. Gostaria de te dizer sem titubear que te vi linda todos esses dias até aqui.
Gostaria de tanta coisa sobre você mas ainda não é hora de saber.

Apesar de eu saber que não é algo bom, eu gostaria de poder acelerar o tempo, só hoje, só essa semana, só esse mês, gostaria de ver o tempo correr pra saber se vou sofrer com você. Eu sei que isso é surreal, que essa história de tentar prever só me deixa mais longe do que é real, mas fazer o quê, é algo que eu gostaria mas não é algo que vai acontecer.

Gostaria de não ter que medir minhas palavras com você. Não que eu deixe de ser quem sou quando estamos conversando, mas sabe, eu tenho pressa em ser feliz. Tenho pressa em poder tocar o seu rosto sem aviso-prévio, tenho pressa em poder te abraçar de surpresa nos corredores do supermercado, tenho pressa em te ver deitada no meu peito no cinema, tenho pressa em te ver de pijama numa noite de sábado de edredom. Mas eu sei, nem adianta ninguém me dizer, eu já sei que eu preciso esperar.

A dor faz a gente acumular muita coisa boa pra despejar em uma pessoa.
Sortuda quem for essa pessoa.

[…]

Eu sei que tenho que esperar, mas você sabe o quanto eu já te esperei?
Eu sei que é preciso te dar um tempo, mas você sabe quanto tempo eu já estou aguentando por mim mesmo?
Eu sei que eu preciso te dar espaço, mas você sabe quanto espaço sobra aqui entre os meus braços?

Eu só tenho pressa de você por ter certeza que tenho muita coisa boa pra te oferecer.

[…]

Eu não quero estragar tudo. Não quero te assustar.
Não de novo.
Não quero ser quem mete o pé pelas mãos alegando ser na melhor das intenções. Aliás, eu nem preciso das melhores, as boas já podem bastar. É que tenho dessas, não sei viver do mínimo se sei que posso dar o máximo. Mas estou aprendendo a me controlar.
É que quando a gente vê que a vida recomeça a gente volta a se empolgar como na primeira vez.

Um instante inédito na vida é capaz de ocultar qualquer reprise do passado.

Márcio Rodrigues, publicado em http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/

 

Aqueles que gostam de abraços nas escadas rolantes

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Quando a gente gosta de alguém a gente gosta de contar para os amigos.
É bom demais falar pra quem gosta da gente sobre quem novo que estamos gostando.
Rola aquela excitação dos parques de diversões e repetimos as mesmas histórias para todos os nossos melhores amigos, aí fica aquela chuva de copia e cola no whatsapp falando sobre o mesmo assunto em todas as conversas. Que coisa mais terrivelmente deliciosa.

Do nada passamos a nem ligar pro trânsito insuportável de cada dia, muito menos pra lotação do transporte público. Isso não significa que os problemas sejam resolvidos, mas que começamos a dar menos importância para todas as coisas que nos irritam e passamos a focar na importância em todas as coisas que nos fazem bem. Rola uma cegueira gostosa sobre as coisas ruins da vida.

Engraçado que quando estamos gostando de alguém tudo é motivo de assunto.
Uma volta qualquer do trabalho pra casa passa ser uma volta que tinha dois cachorros no caminho, um casal rindo na avenida, o preço do sorvete que aumentou, a blusa que foi esquecida e a noite esfriou, as vontades de comprar algumas coisas, as dívidas pra pagar outras, os planos pro fim de semana, o resultado do futebol, as coisas que eu chefe diz, aquela pessoa chata do trabalho, aquela pessoa legal, o sabor da comida no almoço, o vídeo engraçado do dia… E por aí vai. Acontece que gostamos de compartilhar tudo o que vivemos com quem estamos gostando. É um lance de compartilhar a vida em sua essência. Pois essas mesmas coisas passam pelos nossos olhos todos os dias, mas é só o coração chegar chegando e começar a bater mais forte que essas coisas ganham importância especial.

E como ficamos bobos, né? Sim, ficamos insuportavelmente bobos. Se não tem assunto, inventamos um novo. Se tem, falamos sobre o mesmo mil vezes. Antigamente as orelhas esquentavam pelas horas no telefone, hoje são as teclas do teclado do computador ou a tela do celular que faltam cair de tanto digitar o dia todo. Ignoramos um amigo aqui e outro ali, mas aquela pessoa, ah, aquela pessoa não. E poxa, rola uma licença sentimental nesse caso, né? Não é uma questão de não se importar com mais ninguém, mas sim de se importar muito mais com alguém especial. Aí faz sentido, né?

Tem um negócio que muda também: auto-estima.
Da noite pro dia começamos a escolher as melhores roupas, e nos dias em que “vamos ver aquele alguém” acontece toda uma dedicação em escolher a roupa mais legal e o perfume mais gostoso. Também começamos a comprar um pouco mais. Pois é, viver uma história com alguém não é o que podemos chamar de barato, mas tem o lado bom que a gente gosta de se cuidar um pouco mais. Funciona assim: num domingo qualquer você faria qualquer coisa, até mesmo iria ao shopping dar uma volta, agora, num domingo com a companhia daquela pessoa podemos até ir ao mesmo shopping, mas algumas dívidas são feitas lá. As vitrines chamam mais atenção e uma história liga a outra. Alguém fala “Ah, sempre quis comprar um desse” e na cabeça já liga o botão do Possíveis Presentes Pra Dar™. Alguém diz “Vamos só dar uma passada?” e algumas novas sacolas cheias de compras vão segurar a vela dos dois na volta pra casa. Nós passamos a consumir a vida de um jeito diferente.

O passar dos dias são comemorados com festa.
Há quem poste nas redes sociais: “sexta-feira, sua linda!”, há quem não fale nada mas nem por isso comemora menos. Há quem explana, tipo: “@fulano olha isso, lembrei de você!”. E é louco também como parece que começamos a atrair algumas coisas. Aquelas matérias sobre “coisas pra fazer no fim de semana” começam a aparecer perto do fim de semana. Aquelas promoções tipo “faça x coisa e ganhe um par de ingresso” brilham nossos olhos e não pensamos duas vezes em ver qual é.

Fazer qualquer coisa fica mais legal quando estamos na companhia de alguém legal.
Até uma escada rolante começa a ter um sabor diferente. Mudamos da raiva em ver as pessoas ocupando a parte da esquerda, ao esquecimento em se ver ocupando a mesma faixa da esquerda só pra manter ali uma mão dada. Ou então, para os mais ligeiros, rola aquele degrau maravilhoso que parece ter sido feito pensando na vida dos casais. Perceba que para dois amigos conversarem é um tanto desconfortável. Um sempre vai ficar mais alto que o outro e vai ouvir menos; a comunicação é prejudicada até que alguém fala “Peraí, deixa a gente sair e você continua… Pronto”. Agora quando estamos na condição de poder abraçar alguém a qualquer hora, parece magia: alguém fica um degrau acima e o abraço se encaixa de uma maneira meio inexplicável. Pode até rolar um beijo aqui e outro ali, só a escada que poderia não parar de rolar. São alguns segundos que fazem tão bem. Daria pra ficar uma vida falando sobre como esses segundos são gostosos pra vida de qualquer pessoa.

A música diz que “quando a gente gosta é claro que a gente cuida” e poucas verdades são maiores do que essa. Nós somos aqueles que gostam de cuidar mesmo, de perguntar se está bem, se melhorou do resfriado, se comeu bem e devagar, se tem organizado as coisas, nossa, são tantas coisas pra se preocupar que as contas se perdem. Mas também pudera, não bastasse a vida que temos nós começamos a ver graça em cuidar da vida de quem estamos vivendo. Mas vale explicar: não é cuidar da vida no sentido fiscal da coisa, é cuidar da vida no sentido de zelar, de querer e lutar pelo bem da pessoa. Entende?

É então, nós ficamos bem diferentes.
Esses somos nós, aqueles que gostam de abraços nas escadas rolantes, que cuidam, que contam para os amigos, que dividem todos os detalhes da nossa vida tão básica, é, isso mesmo, que transformamos a nossa vida tão comum em uma vida interessantíssima sem muito esforço. Isso é bom, isso é gostar de alguém, isso é sobre como a gente fica quando a gente está gostando de alguém. Nós somos assim mesmo e pra sempre assim seremos, pois tem um treco chamado amor no meio disso tudo.

Márcio Rodrigues, publicado em http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/