Universo feminino sob tensão

550352_448259171877159_553948926_n

A receita é não ter receita.

Conhecer a forma como a humanidade se relacionou com a sexualidade, ao longo do tempo, é fundamental para compreendermos a forma como hoje, individualmente, as mulheres lidam com isso. Nossas crenças sobre o amor e sexo, muitas vezes tomadas como naturais, são resultado de um longo processo histórico. É preciso conhecê-lo para que possamos refletir sobre eles e fazer escolhas mais autênticas ao invés de simplesmente seguir antigas receitas que já não servem mais.

Casar, ter filhos e ser fiel não é receita de felicidade e muito menos a única forma de se viver. Muitas vezes o que acontece é exatamente o oposto. Tomamos isso como algo natural, mas natural mesmo é apenas o desejo que sentimos. Basta olhar para outras culturas para descobrir outras formas de se viver. Não existe nada natural no campo das relações humanas. Natural é ter orgão sexual, pênis, vagina, natural é ter desejo. A forma como isso será usado e compreendido pertence à cultura.

Quando entendemos algo como natural, automaticamente julgamos tudo o que não se enquadra nesse rótulo de anormal. A monogamia não é natural, a heterossexualidade não é natural, o ciúmes não é natural, amar uma única pessoa até que a morte separe não é natural, nem uma única forma de ser família é natural.

O abandono da crença de que as coisas são naturais abre um universo de possibilidades, dessa abertura a liberdade, tão temida por alguns pois nunca sabemos onde ela vai nos levar. Tememos a liberdade por que ela rima com responsabilidade. Quando abandonamos velhos modelos assumimos o risco que nossa forma de viver fracasse. Quando assumimos os valores do grupo, temos com quem dividir a responsabilidade, caso as coisas saiam erradas.

Cada um tem seu caminho e encontrá-lo foi chamado por Jung de “processo de individuação”, que nada tem a ver com individualismo, ligado ao egoísmo. Obviamente não temos como nos desprender totalmente dos valores das nossa cultura, ou nos tornarmos alienígenas de nosso tempo. No entanto ainda assim temos escolha.

Assumir que não existe receita é assumir que não existe uma única forma de estar no mundo, uma só maneira de se viver. Penso que o preconceito da incapacidade de enxergar a multiplicidade e possibilidades dentro de si mesmo. Do reconhecimento silencioso da nossa complexidade nasce o respeito ao outro e sua alteridade.

Quem se reconhece uno não vai entender as diferenças dos outros seres humanos. Quem acha que existe uma única forma natural e normal de ser, fomenta muitas vezes, de forma inconsciente, o preconceito. E o preconceito é uma partícula solta no ar, sozinha não causa grandes danos, juntas podem causar dor e morte.

Encontre seu caminho, liberte-se.

Andréa Beheregaray