Esquecer

03

Quanto tempo leva para esquecer um amor? Depende de cada pessoa, mas há estudos que apontam uns dois anos com o nosso pensamento dominado por alguém em especial. Como se o sentimento fosse uma ciência. A verdade é que pode levar alguns dias, meses, ou anos, claro. Em alguns casos, nem uma vida é o suficiente para esquecer.

Esquecer significa não sentir mais nada? Nem sempre. Superar um amor antigo não quer dizer que ele não será mais lembrado. Esquecer é um termo equivocado, representa uma ação do coração, mas a semântica indica uma atitude do cérebro. Esquecer é deixar de amar, mas não apagar da memória. Impossível tirar totalmente da cabeça quem um dia nos provocou sorrisos. Não há como eliminar alguém que foi motivo da nossa felicidade, pelo menos por algum tempo.

Existem pessoas que nasceram para mexer com a gente. Não importa o que façam, o que vistam, como são. É uma pessoinha que, apenas por respirar, nos balança. Cria uma sensação de apego inexplicável. Queremos estar perto e descobrir de onde vem aquele frio no estômago, contrastando com um ardor no peito. O tempo passa, nos envolvemos, amamos até, mas jamais esquecemos esses responsáveis por essa ambígua reação.

Dependendo da fase da vida, não significa que queremos aquela pessoa de volta. Conseguimos discernir que um ciclo foi encerrado e que a história acabou – mesmo que não tenha havido um fim. Não há motivos para ignorar a própria trajetória, com erros e acertos. O passado, um dia foi presente.

Recordar não é amar de novo, não demonstra qualquer tipo de recaída ou fraqueza. Faz parte do autoconhecimento necessário para a nossa evolução sentimental. Não há como seguir o caminho, sem se desgarrar dos passos antigos, mas lembre-se: abandonar o que ficou pra trás não significa esquecer. Para esquecer um amor, não é preciso apagá-lo da existência. Até porque amor não se esquece. Se supera.

Chico Garcia

Lembranças

01

Tá difícil seguir sem você. Parece algo intrínseco ao meu ser, entranhado na pele. Você marcou de uma forma que meu coração jamais vai esquecer, por mais que a cabeça se esforce. É uma falta que assombra o peito, questiona a vida. Me faz perguntar ao espelho se um dia eu vou sorrir novamente. Eu sei que vou. Pelo menos espero que sim, mas a sensação é de que o mundo será cinza para sempre.

A parte mais difícil está entre o despertar e o adormecer. No restante, até que lido bem, isso quando não lembro dos sonhos. Quando acordo, lembro de você antes mesmo de abrir os olhos. É como se eu sentisse teu cheiro. Na verdade eu sinto, relembro, revivo, recordo, renasço para falecer novamente. Durante aqueles segundos na cama, com a consciência turva, procuro teu corpo entre os lençóis. O vazio da cama rima com aquela angústia no peito. O raciocínio conecta, os olhos se abrem num salto e a dor preenche meu espírito, do corpo até a alma.

Você estragou tudo. Não tem mais graça acordar e fazer um café passado com torradas apenas pra mim. No anoitecer, gostávamos de nos debruçar na janela desse meu minúsculo apartamento e ficar observando as estrelas próximas da lua. Hoje o céu perdeu o seu encanto. Sinto-me em queda livre, despencando de uma realidade que estava aqui nas minhas mãos e virou pó. Como isso foi acontecer? Cada passo passa a não ter sentido a partir de agora.

Lembro de você quanto estou no chuveiro e no momento que estendo a toalha. Lembro da caneca lascadinha na ponta, que você insistia em usar. Lembro daquela meia furada que você adorava, da barba por fazer, da mania de me irritar, de trocar o canal sem me consultar, da forma como me beijava sem eu pedir. Lembro do carinho, do fogo, das brigas e do barulho do motor do carro dobrando a esquina. Lembro do toque do telefone quando você me ligava, da camisa surrada que eu usava pra dormir (essa que visto agora), dos brincos que você me deu, da vida que ganhei de ti. Lembro como eu era feliz o tempo todo ao teu lado.

Eu devia mudar de casa, de cidade, de vida. Tirar da minha retina a fotografia da nossa rotina, retratos de uma relação que parecia estar emoldurada pra sempre na parede do meu quarto, no mural da minha saudade. Mas fugir não adianta, as lembranças de você estarão sempre em cada detalhe do meu dia. Lembranças que me fazem esquecer como é a vida sem você.

Não deveria estar escrevendo isso. Parece que estou pedindo para voltar. Não estou. Quero apenas me eximir de qualquer culpa ou rancor, te mostrar o quanto você sempre fará parte de mim. Eu te perdoo por aquela vez em que você deixou os seus tênis pelo caminho e eu tombei feio quando me levantei no escuro para ir ao banheiro. Malditos tênis. Lembranças, que apesar de tudo, me fazem sorrir. Preciso seguir em frente, mas para isso tive que colocar você numa espécie de eternidade emocional. Só me resta agora reconstruir minha história, encerrar um ciclo, transformar você naquilo que você já é, no se tonou para mim: Lembranças.

Mesmo que eu te esqueça, você sempre estará comigo, seja naquele prato que a gente pedia no nosso restaurante preferido, ou quando eu passar na rua em que costumávamos levar o nosso cachorro pra passear. O sentimento um dia vai se apagar, mas aquilo que você representa pra mim, jamais. Lembranças representam histórias. Fatos que constroem a nossa existência. Lembranças de um futuro não vivido, de uma vida passada, de um presente que precisa ficar no passado.

Lembranças que me fazem rir e chorar, mas sempre lembrar. Lembranças que lembram nossas andanças. Caminhos tortuosos, saltos e tropeços, nossos passos de dança pelos palcos da vida. Lembranças que me fazem entender o porquê consigo superar o que passou. Simplesmente porque desisti de superar você. Não há como apagar a densidade de um amor vivido. Um amor é sempre eterno. Estará sempre vivo, através das lembranças. E um outro amor surge somente quando aquele sentimento que, insistimos em rejeitar, passa a se tornar algo puro, autêntico, edificante. Quando o sentimento se transforma em nada além do que lembranças. Lembranças são sempre eternas, mesmo que o amor um dia acabe.

Chico Garcia