NINGUÉM É FELIZ O TEMPO TODO. AINDA BEM

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Demora, mas vem. Depois do encontro, da festa, do êxtase, das delícias em fila, dos sentimentos em fartura, da esperança vigorosa, da promessa de felicidade, do amor em seus indícios, da saudade e seus inícios, depois de tudo isso ela vem. Uma fria e descabida tristeza sempre vem.

No fim de tanta alegria perfeita dá as caras uma dura, cruel e implacável sensação de desalento. Depois das emoções superlativas vem um quase nada, um vazio dolorido, uma luz amarela, abatida, luzindo acanhada pela fresta da porta, como quem espia um estranho, o quarto do homem sozinho que tropeçou em seu amor ensolarado e morre de medo do escuro.

É que o amor quando vem assim, em avalanche, desabando alegrias dormidas, acordando tanto sonho deixado, desacostuma a gente de sofrer. Aí essa vida tão, mas tão sofrida insiste, não desiste, e no meio de tanta ternura vem um tropeço, um acidente, um desvio involuntário. E toda a nossa imperfeição despenca das madeiras escuras do teto branco e nos machuca os olhos abertos que miram a vida. A felicidade farta de caixa d´água cheia até a boca se enche de folhas tristes, mortas. Um pesar de torneira muda se instala e nos faz infelizes.

Mas ali, bem lá no fundo de nossa noite inicial, na alegria mansa da lembrança do primeiro encontro, repousa cheia de saúde a nossa ventura. Porque a felicidade, ah… a felicidade há mesmo de ser temperada com tristeza e saudade e angústia. A leveza há de vir depois do pesar. E quem há de se saber feliz sem ter caminhado na desdita?

Fortalecer o amor é tarefa que se cumpre olhando a amargura de perto. Os problemas e as crises, as dúvidas e as inseguranças, o lamento e a dor, essas coisas têm de acontecer para lavar de verdade os olhos de cada amante. Tudo muito perfeito não existe. Não é humano. Não é, não.

Quando a perfeição é muita, os amantes desconfiam. É preciso um olhar de repulsa, uma mão que recusa o toque da outra, uma autossabotagem aqui, um ouvido mouco ali, uma explosão de raiva acolá. E uma dúvida, uma dolorosa insegurança abrindo as asas negras sobre o solo bom e verde das paixões em sua manhã. Sim, é preciso tudo isso para consolidar o amor.

De vez em quando me acontece de ser triste. Vai ser assim para sempre. É da vida. Depois passa. A angústia e a tristeza visitarão nossa alegria de quando em vez, como velhos vizinhos indesejados cobiçando nossa louça e nossa mobília e nossos afetos. Então seremos como dois soldados em guerra contra o que nos ameace, protegendo as costas um do outro.

Seguiremos assim até voltarmos a ser nada senão você e eu em nosso ontem, nosso hoje e nosso depois de amanhã. Perdidos em nosso caminho certo, seguindo honestos nosso rumo escolhido, cuidando de nós, tratando dos nossos. Vivendo o amor em sua longa e linda e eterna imperfeição.

Acontece. É que essa coisa de não ter felicidade o tempo todo se passa com todo mundo. Acaba de passar aqui, entre nós. E quando me fez triste, me mostrou o quanto eu tenho sentido felicidade. Ah… eu tenho andado tão feliz com você!

ANDRÉ J. GOMES, publicado em: http://www.revistabula.com/

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Carta aberta a você que ainda acredita no amor

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É, sim. A gente devia passar mais tempo juntos. Devia parar e sentar e conversar e lembrar nossas coisas. E lá, no terreno baldio das lembranças saborosas, estaremos nós, engatinhando por uma selva de pernas enormes em uma festa chata de adultos enfadonhos, ouvindo ao longe suas conversas altas e miradas importantes, até uma hora chegarmos ao abrigo sob a mesa grande, de onde roubaremos uns brigadeiros e cajuzinhos para nossa ceia secreta e submersa, protegidos do mundo e de suas questões inatingíveis em nosso universo simples e subterrâneo.

De nosso encontro, soltaremos os risos que um dia seguramos para a foto até doer o rosto. E a cada risada alta, o amor há de acordar de seu sono, o amor e sua energia atômica, sua força motriz poderosa, sua vontade que a tudo movimenta e estremece acenderá nas sombras e explodirá feito as bombas dos facínoras.

Seu estrondo despertará nossas coisas de amor que nos arrancam do sofá e nos põem de pé, em movimento, a seguir nosso caminho de um tempo novo, a seguir cenas dos próximos capítulos, rodadas na descida de nossa serra do mar, nosso corredor da vida onde se vai adiante mais do que se espera cair do céu.

Porque do céu nada cai exceto nós mesmos, despertos de nossos sonhos de grandeza em cada pequeno acaso de nosso dia depois do outro.

Juntos, aprenderemos de novo a pedir com jeito, a trabalhar com força e desejo e honestidade, repetindo delicadezas em todos os idiomas, batucando textos de amor como pretextos para amar.

E em nossa imaginação amorosa, inventaremos pessoas, cenas, famílias, festas, churrascos de domingo, casamentos repletos de gente amiga, disposta a reescrever a história toda. Ou ao menos a nos fazer sentir menos sós.

Assim, juntos, irmanados pela aventura do amor à vida, a nós mesmos e ao outro, criaremos uma nova ordem, um novo estado de coisas, e escreveremos a milhares, milhões, bilhões de mãos a nossa declaração universal dos direitos e deveres de amar.

Não que eu acredite que toda a miséria do mundo assolado pela raiva e a burrice vá frear sua marcha louca de uma hora para outra, e os exércitos se ajoelhem sob a beleza de um arco-íris monumental debruçado sobre todos os continentes. Mas ao menos estaremos juntos.

Amantes, amores, amados, avante. Ao trabalho!

 

André J Gomes, publicado em: http://www.revistabula.com/