Não preciso de ninguém, mas gosto de ter alguém

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“Você não precisa de mim para nada”, disse um ex, tentando justificar por que durante semanas comeu a colega de trabalho na hora do almoço. Tive que concordar. Eu não precisava dele para nada. Eu pagava minhas contas, minha carreira era promissora, tinha uma vida social que não dependia dele, um apartamento descolado.

Não precisava, só queria alguém que me desse amor, ombro amigo, esfregasse seus pés quentinhos nos meus, noites de sexo, manhãs de aconchego, sem que tivesse que dar em troca a minha individualidade, sem que tivesse que parecer frágil ou dependente. Quando ele foi embora, não tive que reconstruir a minha vida, porque eu já tinha uma.

Mas eu adoro homem. Gosto da presença, do papo, do humor, do cheiro, do corpo, do pau. Não preciso de nenhum para preencher os buracos afetivos que colecionamos pela vida. Estar com um é uma escolha, não uma necessidade.

Melhor ainda se é alguém que me paparica. Não me sinto menos dona do meu nariz se um cara me dá flores, se paga o jantar ou se me come de quatro. Isso só quer dizer uma coisa: estou sendo bem tratada, bem mimada e bem comida. Só isso. E adoro.

Aceitar gentilezas não muda o jeito que levo a vida e como me relaciono com os homens. Chorei no dia do meu casamento. Adoro deitar no ombro do meu marido na hora de dormir. Ele faz as compras e eu sou dona da caixa de ferramentas. Ele sabe que não preciso dele, assim como ele não precisa de mim.

Estamos juntos porque nos fazemos felizes, porque temos amor, respeito, carinho, afinidade, tesão. E eu valorizo demais um homem que faz de tudo pra me ver feliz. Valorizo quando ele faz o jantar, quando ele me pede pra ficar mais na cama, quando não me pergunta se vou demorar pra chegar em casa, se estou trabalhando ou no bar com as amigas.

Mulher que não valoriza ser bem tratada, bem mimada e bem comida, não é feminista. É boba.

 

Mariliz Pereira Jorge, publicado em: http://mpjota.com/

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Bom de cama, mesmo fora dela

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Aquele ditado que diz que “o melhor da festa é esperar por ela” pode ser aplicado perfeitamente ao sexo. Nada como a expectativa do que vai acontecer antes que aconteça. E isso é ignorado por muitos homens.

Falo das preliminares das preliminares. Não estou inventando mais uma fase para esse joguinho sacana, apenas jogando uma luz no seu caminho para que você chegue à próxima etapa super aquecido.

É simples. Mulher gosta de se sentir desejada, então, o quanto mais você preparar o terreno entres de encontrá-la, mais simples as coisas serão na hora H. Em outras palavras, é possível que você encontre essa mulher tão louca de tesão que ela mesma queira pular aquelas explorações intermináveis e peça que você vá logo para a fase final.

Sendo bastante direta. Ela vai querer o seu pau dentro dela porque não aguenta mais esperar por isso. Porque já passou o dia inteiro só pensando nisso. Porque as preliminares já rolaram antes mesmo de vocês se encontrarem.

Isso não é receitinha de revista. Isso é vida real. E na vida real o sexo começa a acontecer antes que você dê um beijo na boca ou que tire a roupa. Começa na hora em que você está no trabalho, fazendo um relatório anual no Excel. Ou tomando um cafezinho de máquina no corredor da firma.

Já tive que desabilitar o falecido Messenger para conseguir me concentrar e não me deixar levar pela putaria online. Um ex-namorado me atormentava com mensagens sacanas o dia inteiro. Eu me sentia uma Bela da Tarde reprimida que soltava a franga depois de bater o cartão e correr para a cama do safado.

Ele queria sexo. Queria sexo comigo. E nisso as mulheres são parecidas. Só o fato de nos despertar essa fome de sexo nos deixa com vontade de dar, literalmente, o que o outro quer. O tempo todo, inclusive quando estamos trabalhando ou no supermercado colocando sabão em pó no carrinho.

Moças de terninhos também abafam gemidos solitários em cubículos no andar do departamento de engenharia em busca de um alívio rápido pelo estresse causado pelo tesão. Ou sorriem abobalhadas pelos corredores de massa de tomate e macarrão italiano, só pensando que logo mais estarão de quatro.

Tem que ter talento para causar tesão à distância e elevar as expectativas de uma trepada. Por isso a fama de bom de cama atravessa os limites de um quarto se você é um homem de visão. Antecipar o sexo é meio caminho andado para que o sexo seja bom.

É verdade que a gente nem sempre ajuda. Os dois morrendo de tesão e a bobinha reprimindo sentimentos. Por pudor, se a relação for nova. Por preguiça, se ela já estiver estabelecida. Muita mulher ainda acha que não há nada de romântico em fazer sexo quando na verdade há poucas coisas mais românticas do que um homem que quer muito te comer. E mostra isso antes, durante e depois do sexo.

Então, chegamos ao depois. Você está cansado de saber que o sexo não acaba depois do orgasmo. Deveria saber. E se continua vivendo momentos de desconforto depois que a sacanagem acaba talvez não tenha aprendido.

Para a mulher não há nada pior do o silêncio e a distância que tomam conta do quarto se o cara é do tipo desajeitado com as pessoas. Quer dizer, há uma coisa pior. Você gritar lá do banheiro que o Uber chega em quatro minutos.

Amigo, essa história não acabou no momento que você jogou a camisinha no lixo. Mesmo que não haja a intenção ou energia para mais uma vez, o melhor a fazer é agir como se houvesse. Sacanagem nunca é demais, mesmo que fique só na intenção. Porque é quase garantia de um repeteco no dia seguinte ou no outro.

Tive histórias que faziam o quarto queimar, mas que esfriavam com a rapidez de uma frente fria. Cada um para seu lado até que algum dos dois fazia novo movimento. Tímido. E a coisa demorava a esquentar novamente como madeira molhada em lareira adormecida. Pode até acender, mas sempre depois de um trabalhão.

A gente dá três passos atrás na intimidade por falta dela. E acaba esquecendo rapidinho se foi legal ou não. Não adiante ser bom na cama e um bobão sem atitude fora dela.

Mariliz Pereira Jorge, publicado em: http://mpjota.com/

Mudaram as estações

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Tudo dependia da data, tinha apenas que ser a data certa. Até o hotel poderia ser o errado, mas a data, não. Programei minuciosamente o dia da viagem por uma única razão: queria chegar ao Japão na época da sakura, como é chamado o florescer das cerejeiras. Não entendo nada de flores, mal consigo manter meus vasinhos de temperos. O manjericão sempre amarela, a hortelão queima, a pimenta murcha. Nem é falta de cuidado, me falta jeito. Mas tenho uma fascinação tão grande pela mudança das estações, e não queria perder o símbolo da chegada da primavera lá do outro lado do mundo.

Mudam as estações, mudo eu. Não é a simples alternância de quente ou frio, de pedir vinho ou cerveja, de levar um agasalho ou não. Tudo se transforma a nossa volta. E eu posso ser diferente sendo eu mesma apenas porque a temperatura despencou ou está de rachar. É bom mudar, porque a gente enjoa da vida quando ela fica muito igual e cansa da gente mesmo.

Canso do meu cabelo, das roupas que visto, da bolsa que anda pendurada no meu ombro todos os dias. Enjôo dos meus caminhos, do sabor da comida, da mesma embriaguez da mesma bebida. Quero sentir frio, depois calor, para depois sentir frio de novo. Para nunca me acomodar, nem com a vida lá fora nem com a vida dentro de mim.

Gosto dos dias mais curtos, de ver as folhas caindo e o pôr do sol mudar de cor. Gosto de banho pelando, toalhas fofinhas, cama cheia de travesseiros, bolsa de água quente, aquecedor, de puxar a manta no meio da madrugada, meias de cashmere, camadas de roupas, luvas, cachecol, galocha no pé, xícara de chá na mão. O ar quente no carro, a lareira no fim de semana. Quero ficar mais em casa, não sair do sofá, dormir no meio do filme, tomar chocolate com conhaque. Não quero ter a obrigação de ir lá fora ser feliz. Está bom aqui dentro quando consigo olhar mais pra dentro de mim mesma. Quero que a vida desacelere do lado de fora e dentro da minha alma.

E, então, muda tudo de novo. Muda o tempo, mudo eu.

Quando a gente já se acostumou, a vida nos chama para a vida. Desentoca, chega de preguiça. Hora de sair da cama, de casa, de sorrir para o mundo. Desde sempre, setembro é um dos meus meses favoritos. Gosto de saber que o verão está chegando, mas ainda ter tempo de me preparar para ele. Quero meus vestidos, minhas rasteirinhas, minhas sandálias de salto, minha roupas mais alegres. Quero cortar o cabelo, fazer luzes, iluminar meus dias. Quero colocar uma colcha colorida na cama. Quero ver as árvores dando flores, e encher a minha casa delas. Chegar à praia de manhã e só ir embora junto com o sol. Estocar espumantes na geladeira, preparar spritz.

Quando desembarquei no Japão, as flores já tinham caído. Levei uma rasteira da primavera, que resolveu desabrochar uma semana antes. Não dá para controlar tudo, mesmo quando a gente se programa, pensa em todos os detalhes. “Go with the flow, live your life in the flow”, li num biscoito chinês certa vez. Hoje, nem sei se gosto mais de verão ou de inverno, há muito tempo deixei de lutar contra a natureza – inclusive a minha. É dizer não para a vida como ela é. E ela é bem boa se a gente aceita melhor as mudanças dela e as que acontecem com a gente.

Mariliz Pereira Jorge, publicado em: http://mpjota.com/

Beijo bem dado é meio caminho andado

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Acordei cedo para resolver problemas domésticos e fui direto de pijaminha para o escritório. Duas horas depois, já atrasada, dou de cara com meu marido no caminho para o banheiro. Me abraçou e o que era para ser um beijo rápido de bom dia, bom banho, bom trabalho, me levou de volta pra cama porque não há nada que deixe uma mulher mais excitada do que um belo beijo na boca.

Ele poderia ter desfilado pelado em minha frente. Ter agarrado a minha bunda. Ou enfiado a mão dentro da minha calcinha. Nada disso teria o mesmo efeito – é possível que eu tivesse escapado de suas mãos e pulado no banho para não chegar tarde ao meu compromisso. Mas beijo de língua é jogo sujo. E beijo de língua gostoso e demorado é golpe baixo. Esqueci o relógio.

Um beijo bem dado é meio caminho andado se você quer transar com uma mulher pela primeira vez ou pela centésima. E se quer que ela continue apaixonada por você e não por uma bolsa nova que brilha na vitrine. Um supre a carência do outro.

Tem toda a explicação científica de que o beijo aumenta a produção de ocitocina, o hormônio do amor, aquele que faz com que a gente amoleça e se apaixone até pelo Nerso da Capitinga depois de uma noite de sexo – é, a gente faz dessas.

Por causa do hormônio e de outras razões que eu desconheço, a boca tem ligação direta com a vagina. Você beija aqui e instantaneamente umedece lá. Então, não é à toa que a maioria das relações só vá adiante se o beijo fizer tremer o chão e molhar a buceta. Não se trata somente da primeira impressão, é o que estabelece a conexão imediata entre um casal.

Mas parece que vocês ainda não se deram conta disso. E eu coleciono reclamações da ala feminina de que à medida que o namoro ou o casamento avança a quantidade e a qualidade dos beijos diminui. Eu mesma já engrossei esse coro: tem cara que tira o beijo do repertório, só se lembra de beijar quando quer trepar, mesmo assim faz a coisa meio pró-forma ou nem isso.

Li por aí que 80% das mulheres reclamam que vocês fazem de menos o que deveriam fazer ao menos o suficiente: beijar, beijar muito, beijar gostoso, beijar com vontade, beijar na cama e fora dela, mas, principalmente, sem pressa.

Fosse só um capricho nosso, uma preferência de gostar mais por cima ou mais por baixo, mais rápido, mais devagar, mais para a direita, mais para a esquerda, sem problema. Mas abreviar o beijo, pular esse capítulo ou simplesmente esquecer que se trata do arroz com feijão necessário de toda relação é um baita de um tiro no pé.

Você pode alegar que capricha nas preliminares, que chega a ficar com câimbra nos dedos, que sabe exatamente onde fica e pra que serve o ponto G, que é mestre em fazer o quadradinho de oito. Se não caprichar no beijo na boca, está perdendo tempo. E pontos.

Experimente pegar com vontade a sua mulher, namorada, peguete, o título qualquer que ela tenha, e capriche no beijo, de verdade. Seja carinhoso, sensual, coma com os olhos e com a boca, envolva com os braço, apenas num abraço. Se você souber o que está fazendo, meu amigo, pode ter certeza que ela irá pedir que você vá direito às vias de fato.

Mas ainda que tudo que a gente, eu, você e todo mundo queira seja sexo do bom e do melhor, o beijo tem um papel que vai muito além. Ele e a frequência dele são os responsáveis por relacionamentos apaixonados e felizes porque fortalecem a conexão emocional, física e psicológica entre os casais. Eu sei, essa parte sempre soa como um blá blá blá, mas é a receita simples e eficaz que faz a diferença. Assim como deitar agarradinho depois que o jogo termina.

Mariliz Pereira Jorge, Texto publicado na revista GQ, da Editora Globo Condé Nast, na edição de agosto de 2014; e também em http://mpjota.com/

A incrível geração das mulheres chatas

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Não faz nem um mês eu disse aqui que a melhor desculpa de uma mulher que está sozinha é que não tem homem no mercado. É muito boa. Mas tem uma que disputa à faca o primeiro lugar: estou sozinha porque os homens têm medo de mulheres independentes. Uma ova.

E posso afirmar: a cada minuto que você reclama, tem outra mulher também independente e bem sucedida – mas muito mais esperta do que você – sendo bem sucedida na dança do acasalamento. E você aí, sozinha no bar com as suas amigas independentes, com suas bolsas caras, indo dormir sozinhas, reclamando da morte da bezerra e dos homens. Aqueles ingratos.

Não sei de onde tiraram essa ideia de que a vida só mudou para as mulheres. Não é possível que a gente acredite mesmo que fomos criadas para ganhar o mundo, estudar, disputar vagas de trabalho, fazer o imposto de renda, encarar hora extra, sair sozinha com as amigas, e que ninguém contou nada aos homens. Enquanto isso, os pobres empacaram no tempo e, portanto, hoje temos que conviver com trogloditas que ainda esperam casar com a dona Baratinha.

Tenho um irmão 11 meses mais novo do que eu. Crescemos na mesma casa, com os mesmos pais. Nós dois vimos minha mãe trabalhar a vida inteira, chegar em casa muitas vezes depois de todo mundo, dividir as contas da família no papel, fazer uma comida mais ou menos, viajar sozinha no Carnaval porque meu pai sempre detestou os dois.

Saídos da mesma fôrma, eu ganhei o mundo. Meu irmão casou antes dos 20 anos. Não estou contando nenhuma história que não seja a mesma de quase todo mundo que eu conheço. Esse discurso de que os homens não estão preparados para essa nova mulher seria revolucionário na época da minha avó, que se separou aos 50 anos, decidiu aprender a dirigir, fez vestibular para educação física e foi procurar emprego – porque, até então, o único duro da vida da dona Dorah tinha sido criar quatro filhos. Talvez tenha ficado mal falada na cidade. Mas era a minha avó, no tempo da minha avó.

Essa ladainha em 2014 não dá.

Quando é que a gente vai cansar de se fazer de vítima e parar de encarar os homens como incapazes? Se a gente se adaptou aos novos tempos, eles também. Ainda precisamos de ajustes aqui e ali, mas está tudo bem.

Eu não convivo com homens despreparados para essa nova mulher que sou eu, você e quase todo mundo. Tenho amigos homens, e eles querem, sim, mulheres parceiras e não dependentes. Choram no meu ombro por causa de pé na bunda.

Reclamam de mulher que não vale nada. Ficam perdidos sem saber como agradar essa fulana que, na verdade, não sabe o que quer porque cresceu acreditando que pode querer tudo. E pode. Só deveria parar de encher o saco.

Fizemos as nossas escolhas, eles fizeram as deles. Nenhuma mulher é igual.

Assim como qualquer cara pode vir com mil variações do que a gente aprendeu a conhecer por macho. Tem todo tipo por aí. Mas com todos os requisitos que a tal nova mulher – que de nova não tem nada – quer, não sobra um na face da terra que baste.

Inteligente. Óbvio. Antenado. Com certeza. Remediado. Tem remédio? Fodão. O tempo todo. Bem humorado. É o mínimo. Frágil. Nem pensar. Imaturo. Socorro. Machista. Deus me livre. Glúten free. Pra quê? Fiel. Possível. Rico. Com a graça de deus. Comprometido. Por que não?

Esqueça.

Eu agradeço por nunca ter tido um único namorado que não me quisesse da forma como eu fui criada. Ganho o meu dinheiro, bebo uísque, gosto de futebol, dirijo super bem, cuido do meu imposto de renda sozinha. Sei pregar botão, ainda que torto, não sei nem por onde começa a receita de suflê de cenoura, só vou ao supermercado pra comprar vinho e no dia em que tive que aprender a diferença de alvejante e água sanitária, dei um Google.

Compro bolsas caras, saio sozinha com as minhas amigas e nunca fui cobrada por ter que trabalhar domingo ou terça à noite. Neste momento em que escrevo e tomo vinho tem um cara lá na cozinha preparando o jantar. Um cara que me escolheu do jeito que eu sou, que vibra com as minhas vitórias e me salvou de jantar miojo ou cerveja pelo resto da vida.

Meus pais nunca perguntaram quando eu iria casar ou quando lhes daria netos. Mas sempre torceram que eu encontrasse um companheiro para dividir a vida. Eles se orgulham muito do caminho que eu quis seguir e nunca me fizeram pensar que escolher ser bem sucedida significaria ser mal amada. Conheço uma penca de gente que tem os dois porque isso aqui não é uma competição. Todo mundo quer a mesma coisa. Eu, você, o Arthur, o Marco, o Fernando, o Rodrigo, o João, a Cris, a Camila.

Todo mundo quer um chinelo velho pro seu pé cansado. Quer sossegar o rabo num relacionamento feliz e cheio de cumplicidade, de parceria, de mãos dadas no cinema, de silêncios que signifiquem enfim sós.

Chega desse discurso de ser mal compreendida pelo mundo e pelo homens. Tem muita gente avulsa por aí. Dos dois lados, por inúmeras razões. Se você acredita mesmo que ninguém te quer porque é independente e porque os homens não sabem lidar com isso, só quero lhe dizer uma coisa: você está sozinha porque é chata.

Vou jantar, porque depois tem uma pia de louça me esperando. Justo.

Mariliz Pereira Jorge, publicado em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2014/06/1476515-a-incrivel-geracao-das-mulheres-chatas.shtml

Não, não está faltando homem

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Eu nunca engrossei o coro da mulherada que adora dizer: não tem homem no mercado; os caras não querem nada; são todos iguais. É a melhor desculpa que qualquer uma pode dar para justificar o fato de estar sozinha. Com exceção daquelas que preferem não ter ninguém – e o mundo está cada vez mais cheio delas.

É assim desde que a gente tinha uma vida analógica, onde a forma natural de conhecer alguém era cara a cara, e as únicas maneiras de ser encontrada eram pelo telefone de casa ou por carta.

Troquei dezenas, senão centenas de correspondências com os garotos que conheci nas férias de verão, nos campeonatos de basquete ou de natação. A gente escrevia cartas, mandava fotos, fazia juras de amor, tudo com o carimbo do correio. Encontrava uma vez ou outra, não passava disso, mas deixava a autoestima tinindo e a nossa carência muito bem entretida.

Também já briguei muito com meu irmão por monopolizar o telefone de casa. Desliga essa merda, ele gritava na extensão. Eu morria de vergonha. Amarguei muito castigo e fiquei sem mesada por causa da conta.

Todo mundo dava um jeito, mas não faltava homem.

Então, eu fico surpresa quando ouço qualquer mulher vir com um chororô de que está difícil, que eu tive sorte. Talvez eu tenha tido mesmo. Mas para achar a pessoa certa, já me estropiei com um bocado de caras errados. Também me diverti horrores com uma lista interminável daqueles que só servem pra isso: diversão. E sei de uns dois que devem ter feito bonequinho de vodu com o meu nome porque eu não fui lá muito legal com eles.

Nunca faltou. Nunca tive medo que faltasse. Nem com 20, nem com 30, nem com 40. Mas nunca fiquei sentada, esperando.

A gente se conhece mais a cada pé na bunda que leva, a cada pilantragem que faz com alguém. São apenas essas experiências que nos mostram o que queremos e que tipo de pessoa será aquela com quem completaremos todas as bodas possíveis até que a morte ou a falta de amor nos separe.

 Não acredito que exista uma única pessoa certa para nós. O mundo está cheio de gente interessante. Sorte é estar na hora certa, no lugar certo quando o lugar e a hora são os mesmos de alguém que nos faz suspirar. Na primeira ou na segunda tentativa. Não foi o meu caso. Não é o da maioria. Pra gente só resta tentar, se ferrar, tentar, se foder, tentar, tentar, tentar, até que os relógios da vida deixem de boicotar as relações e aquela tentativa se torne nós dois.

 Eu não vejo as mulheres fazendo muito esforço. Tem que ter vontade, disposição e paciência. Não tem jeito, é preciso sair do castelo e subir no cavalo sozinha. Abraçar a vida. Aprender a ser feliz sem ninguém. Meter a cara. Enfiar os pés pelas mãos. O que não dá é ficar lamentando.

 O mundo nunca teve tanto homem disponível. Mas não depende apenas deles. Cada um pode e deve fazer a sua parte.

 Tem solteiro, separado, viúvo –sem contar os canalhas comprometidos que não saem da pista. Eles estão no bar, na balada, na praia, na mesa ao lado no trabalho, no casamento dos amigos, no curso de churrasco da minha amiga Letícia, atravessando a rua, na poltrona ao lado no avião, correndo no parque, fazendo compras no supermercado. Mas principalmente na internet. E se eu fosse solteira, estaria lá também.

 E já estive.

 Entrei num site de relacionamento quando o que eu tinha foi pro brejo. Fiquei na merda, me sentindo a mosca do cocô do cavalo do bandido. Se inscreva nesse site, me disse uma colega de trabalho. Vai fazer um bem enorme à sua autoestima. Recebi 264 mensagens em poucas horas. Flertei online com vários tipos. E depois de uma troca infinita de emails e papos intermináveis no falecido Messenger recebi um convite pra sair no dia dos namorados pra assistir ao show do Billy Paul.

 Ele não se deu conta de que é dia dos namorados, vai desmarcar, pensei. Até Papai Noel sabe o que acontece no dia 12 de junho. Me esperou fora do carro, dançou de rosto colado, me levou pra jantar. Engatamos dois meses de namoro. Triatleta, apartamento lindo, executivo de uma multi, e ficou apaixonado por mim. Mas ele não bebe, desanimei durante um jantar, enquanto terminava a segunda taça de vinho, querendo pedir a terceira. Ele no ice tea. Não vai dar conta quando me vir mexendo no gelo do copo, às 4h da manhã, dançando “Walking on a Dream”.

 Terminei.

 Mas ele era tão bom, que eu quis passar para uma amiga. Nenhuma acreditou. Uma pena. Era o tipo de cara que dificilmente alguma de nós encontraria no bar ou na balada, mas estava na internet procurando alguém legal como qualquer uma de nós.

 Talvez em cinco anos tudo seja mais natural. Até lá, as reações são curiosas. Muita gente dizendo não para o que nem conhece. Não é para mim. Não tenho paciência. Os caras só querem sexo. Bem, quem não quer? Mas quem quer apenas isso?

 Pode ser no Tinder, no Par Perfeito, no Bang with Friends, tanto faz. Quando a gente se abre para o mundo, um mundo de possibilidades se abre para nós. A gente precisa parar de olhar para os homens como se eles fossem nossos inimigos. Tenho amigos. Eles querem namorar, casar e dormir de conchinha. E já estão ficando chatos como as mulheres dizendo que a gente é tudo igual e não vale nada.

 Quanto desencontro.

 Pode ser no Facebook, no Twitter, no Tumblr. Nunca foi tão fácil e tão divertido – tenho certeza– conhecer gente nova. Não, não está faltando homem. Nem mulher. O que falta é que as pessoas saibam o que querem, deixem de ser chatas e parem de esperar que o príncipe ou a princesa caiam do céu. Pode dar errado de novo. Faz parte. Mas pode dar certo.

 

Mariliz Pereira Jorge, publicado em http://mpjota.com/ e http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2014/05/1461698-nao-nao-esta-faltando-homem.shtml

 

Seja a mulher que seu ex vai sentir falta

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Já faz algum tempo, recebi uma mensagem de um ex-namorado, que dizia: “vou passar o resto da vida me perguntando por que não deu certo”. Eu tinha todas as respostas, mas achei que nem era mais hora de falar.

Depois de oito anos de namoro, ele ficou em dúvida. Sofri com a dúvida dele. Mas a dúvida dele acendeu um ponto de interrogação dentro de mim. Terminei o namoro e não olhei pra trás. Nunca olho.

Sofro como um cachorro por um amor que quero que dê certo, mas quando desisto, deixo de lado como meia lata de cerveja quente. Você sabe que era bom, mas jamais será novamente.

Nem vem ao caso se sou ou não uma namorada inesquecível, mas fiquei pensando o que faz uma mulher se tornar assim tão singular para um homem. E nem estou falando de homens atormentados, daqueles que gostam de sofrer nas mãos de mulheres malvadas, aquelas que gostam somente delas e nada além delas mesmas. Homens se deixam seduzir por criaturas assim. Bem, quem não deixa?

Mas, então, me lembrei de um amigo que, depois de anos de libertinagem barata, começou a namorar. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se, um dos maiores baladeiros e pegadores que já conheci na noite paulistana. “Ela não é a mulher que mais amei, mas é a que me faz mais feliz. Vou casar”, me disse.

Ela me ama; ri das merdas que eu falo; não é linda, mas se cuida; tem um cheiro gostoso; cuida da vida dela; é independente, mas me pede ajuda pra usar um pendrive; está sempre ocupada, mas nunca deixa de atender quando eu ligo; é parceira, descolada, maluquete; aguenta meus ataques de mau humor; quer sexo sempre; é ciumenta, mas até acho graça, eu era um galinha. “Sabe como é, mulher tá fácil hoje, mas dessas que fazem a gente feliz mais do que uma semana… encontrei poucas.”

Sempre penso no que faz uma história dar certo ou não. E, no fundo, acho uma bobagem quando dizem que melhor do que ser amado, é amar. Não tem nada melhor na vida do que sentir, ver, ouvir, ler, que alguém perde seu precioso tempo pensando, querendo, gastando, amando você.

Mas é verdade que amar alguém é uma arte. Quem ama abre mão de si mesmo muitas vezes. Esquece convicções. Pede desculpas mesmo quando acha que está certo. Sofre de saudade. Morre de ciúme. Parcela passagem em 12 vezes. Sorri quando o telefone toca. Tem dor de barriga quando ele lê sua mensagem no whatsapp – e não responde. A gente fica praticamente ridícula.

Mas o outro, que também ama (e essa é a melhor parte), acha a gente, que no fundo é ridícula, o último biscoito do pacote, a última cerveja gelada do deserto, os últimos 5% de bateria no celular.

Amor é isso.

O importante é que a gente nunca seja mais ou menos. Que a gente faça tudo mesmo por amor. Que seja especial. Que seja inesquecível. Seja o tipo de mulher, que os nossos ex-namorados vão sempre lembrar e pensar: que pena que não deu certo.

Mariliz Pereira Jorge, publicado em http://mpjota.com