Antes dos 30

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Eu estava há cinco meses sem contato com meu pai. Não por briga, por nada. Apenas sabia que ele tá bem e ele também sabia, então assim a vida seguiu – como nos últimos quinze anos – e tudo bem pra gente.
Aí ontem eu liguei só pra dar um oi, mandar o clássico ~tô viva, heim~ e, após contar do meu trabalho novo, a sua primeira pergunta foi:
– “E aí, já tá se sustentando sozinha?”

Então, esse post não é pra falar sobre minha relação com meu pai, que já tá resolvida pra mim. O que quero aqui é refletir um bocado sobre essa pressão absurda que a sociedade nos impõe de sermos financeiramente bem sucedidos antes dos 30 anos.
Ah, não só isso: você tem que se resolver emocionalmente, academicamente, profissionalmente e ainda viajar metade do mundo – com o seu dinheiro, claro.

É óbvio que eu gostaria de já estar totalmente resolvida aos meus 26 anos, não precisar da ajuda de mais ninguém pra absolutamente nada, sair do país duas vezes por ano e tudo mais. No entanto, essa não é a minha realidade – nem a de ninguém que eu conheça. Talvez isso seja possível se você herdou a empresa do seu pai ou se conseguiu um emprego de salário acima da média do mercado. Fora isso, migs, num dá.
Só que é isso que o mundo espera e pressiona o pessoal dos 20 e poucos anos. “Na sua idade, eu já tinha dois filhos e sustentava todo mundo”: beleza, amigo, deve ter sido muito pica pra você, mas hoje as necessidades e cobranças são outras.
Me diz aí: há alguém de 20 e poucos anos que não leva trabalho pra casa? Que não trabalhe mais que as tais 40 horas semanais? Que não tem que abdicar de finais de semana? E tem que fazer isso enquanto vira a noite pra entregar o trabalho da pós, escrever a dissertação do mestrado etc.?
Porque, amigo, é preciso ter estrelinha no Lattes. É preciso fazer a pós pra tentar mudar de emprego e ganhar 200 reais a mais no salário merda de sempre. E é preciso fazer a comida, ir ao mercado, lavar a louça, tirar o lixo…
Isso sem falar nas séries. Não é fácil manter as trezentas séries em dia, viu? Mas isso é bom para estudar inglês.

E francês.
E espanhol.
E italiano.
E alemão.
Porque um bom profissional, para ganhar bem, tem que ser poliglota.

E fazer um esporte.
Porque mente sã, corpo são. Ou corpo são, mente sã. Sei lá.

E se for mulher, dieta nela.
Porque não pode engordar de tanto estresse, né mores, senão não ~arruma um homem~. Porque, né, no meio disso tudo, cê não pode apenas optar em não namorar ninguém, vai ficar pra titia – pausa para mandar beijo pra Alice e Rafael, meus sobrinhos gostosos.

Então trabalhe, ganhe bem, fale três línguas, seja culta, seja bonita, tenha um namorado, esteja depilada, cabelo arrumado, roupa da moda, seja descolada, faça pós-graduação, corra às seis da manhã, tenha um carro, tenha um iPhone, arrume a casa, troque de namorado [porque aquele foi abusivo], trabalhe mais, trabalhe todo dia, trabalhe e estude, trabalhe com algo que cê estudou, estude algo que cê trabalhe, faça doutorado, antes dos 30.

Antes dos 30 faça tudo isso. E sem ajuda explícita, porque ajuda é feio. Só vale aquela que não se comenta quando se fala de meritocracia.

Faça tudo isso.
Antes dos 30 anos.

E depois vá à Disney.
Pra brincar feito criança.

Fernanda Abreu, publicado em: https://www.facebook.com/fernanda.abreu.3954546?fref=nf

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