All in

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“Você tem muita sorte”, muitos diziam, pedindo que ela marcasse uns números para a Mega Sena. Ela nunca gostou de loteria. Nunca gostou de coisas que vêm sem esforço nenhum. E, principalmente, nunca gostou do mecanismo do “quase” que faz com que tantas pessoas joguem a vida inteira na loteria, sempre movidas por aquela sensação de que, dessa vez, foi QUASE. Da próxima vai dar certo, com certeza. E não dá, nunca dá. Mas, vez ou outra, a pessoa acerta a quadra ou a quina e ganha uns trocados… O suficiente para mantê-la sempre acreditando que vale a pena continuar tentando.

 É, a esperança é mesmo a última que morre e a primeira que mata. Ela sabia muito bem de tudo isso, mas, quando deu por si, já estava há muito envolvida na loteria que ele criara. Ele que, assim como prêmio de Mega Sena, não vinha fácil. Na verdade que, assim como prêmio de Mega Sena, não vinha nunca. E que se, por algum milagre do destino viesse, nem seria bom, nem seria aquilo que (ou quem) a faria feliz. Sabe essas pessoas que ganham milhões de repente e acabam enlouquecendo? Qualquer pessoa que tem milhões em sua conta sabe que isso não basta pra fazer alguém feliz. Mesmo tendo apenas uns poucos milhares ela já tinha aprendido isso. Sem tê-lo, ela sabia que ele não bastaria para fazê-la feliz.

E então por que era tão mais fácil se recusar a marcar seis números na cartela do jogo,  do que dizer não ao jogo dele? Não fazia sentido nenhum.  E tentar buscar um sentido a exauria. Quando ela se cansava de tudo aquilo e decidia que aquela era a ultima vez que jogava, ela acertava a quadra. Ele ligava, dizia coisas legais, mostrava se importar. Pelo menos o bastante para reacender aquela chama de esperança, dando a ela aquele sentimento já familiar de que tudo poderia mudar em breve. Ao invés de milhões, ela ganhava só 100. Mas com 100, ela ainda podia jogar umas 30 vezes sem perder nada… “Vou jogar só mais essas vezes então e se não ganhar é porque já era mesmo”. Mas claro que em outras 30 jogadas ela acertava outra quadra, outra quina…

“Até quando? Até quando?” – ela queria saber. Só ela poderia responder. Não, nem ela poderia. Sentimento não é algo que a gente controla, é algo que a gente sente. Banal como soa essa frase, ela tinha aprendido seu significado mais profundo: tentar lutar contra um sentimento só causa angústia e não diminui em nada o dito-cujo.

E assim, em meio a tantas cartelas não premiadas, ela sonhava com o dia em que o jogo deixaria de ser loteria para se tornar poker. Nesse dia, ela  sabia que pediria all in.. fosse com um par de ases ou com nada.

 

Por Paula Coury, publicado em https://sobreasaseraizes.wordpress.com/

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