Gente de paz tumultuada

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Eu estava aqui na minha, quieta, sem pedir nada a ninguém. Apesar de ter o coração meio tristinho, remendado, cheio de curativos, eu estava bem. Meus óculos escuros e minha maquiagem me faziam mais forte. Escutei de alguém que quando a gente começa a cuidar da gente o resto se renova. Eu acreditei piamente nessa conversa. E estava até me curando de todas as outras dores que acumulei, viu?

Mas quem disse isso esqueceu de avisar que quando a cura começa a fazer sentido, os outros sentidos se aguçam e atraem essa gente que pede pra ser amada. Eu não pedi, você diz que também não. Estávamos só por aí, vagando, batendo os quatro cantos do mundo e abrindo sorriso pro vento, fingindo ser feliz, preenchendo o coração de coisas leves…

Mas uma hora a gente sabe que uma coisa pesada tem que entrar, puxar a cadeira, pedir um chá e conversar. Matar nosso tempo, pedir pra ficar. Você, sabe-se lá como, bateu na minha porta e por ironia do destino encontrou-a aberta. Sorte ou azar, entrou sem pedir licença, anarquizou minhas emoções. E não pediu pra ficar, simplesmente se instalou. Habitou o que antes era vazio, sem graça, disforme, branco. Trouxe cor.

Sabe essa gente que balança nosso mundo sem tirar a mão da cintura? Talvez finalmente eu tenha encontrado alguém assim. Simplesmente ancora minhas pressas e freia minhas desilusões. Eu não pedi. Nem estava a fim. Mas sabe essa gente que traz uma paz tumultuada? Sabe essa gente que traz um vício brando pra nossas vidas? E faz da gente dependente, sempre querendo mais. Talvez eu nunca entenda, talvez você nunca tenha paciência pra me explicar, mas quando a gente encontra 50% de cura num abraço, o resto do mundo pode se danar, a gente só quer amar.

E, apesar não ter te escolhido, a espontaneidade dos nossos corações desordeiros nos uniu. Você amarrota a camisa da sanidade e faz morada na minha mente. Ainda bem que você não pediu pra entrar, porque eu não deixaria. Ainda bem que você não me convidou pra dançar, porque eu não iria. Ainda bem que você percebeu a minha esquizofrenia e simplesmente chegou, ficou, me pirou. Você é dessa “gente” que invade e ganha a causa sem dar uma palavra.

Marielena Fonseca, publicado em: http://www.marielenafonseca.com/

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