Entendendo a Mensagem de Amor do Paralamas

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Há algo na maneira como ele a toca, no jeito que ele passa as mãos nas suas costas ou quando coloca um fio desalinhado atrás da sua orelha. Tão suave como um sopro de ar, como a luz dourada do amanhecer quando toca a beira do mar e esquenta a areia gelada. Tão decidida, tão firme, com uma vontade que faz ela estremecer. Que faz ela querer rir e chorar, que faz ela sentir-se tão linda e tão perdida, tão à sua mercê.

É nisso que ela pensa, nas mãos dele e nas mil mensagens de amor que elas transmitem, enquanto busca por ele com o olhar no bar lotado. Ela, sentada em uma banqueta em um canto qualquer, cercada por pessoas em suas alegres expressões, com seus reluzentes drinques, em suas reluzentes roupas de sábado à noite. Ela, encolhida dentro de seus próprios pensamentos, quase pode ver a barreira invisível, tão fina e tão concreta, que a separa de toda aquela bagunça de álcool e conversas jogadas fora, que a mantém imune aos ruídos e cores enquanto ela procura por ele na multidão. E quando ela encontra, quando os olhos dele caem nos olhos dela, tudo para. Todos, absolutamente todos, desaparecem, varridos de suas perspectivas e, de repente, a vastidão do mundo parece tão pequena para a intensidade daquele olhar. Não há nada além dos dois, dos olhos verdes nos olhos azuis, e todas aquelas coisas não-ditas e que ficam ainda mais bonitas assim, caladas.

Mais tarde, já em casa, quando os dois tropeçam um no outro enquanto se abraçam, perdidos na mistura embriagada dos seus perfumes e gostos, os livros que ela já leu formam uma pilha esquecida ao lado da cama. Já não há ninguém ali, já não há mais interrupções ou desculpas, mas eles continuam em silêncio, a não ser que os sons das suas respirações mescladas ou o palpitar dos peitos um contra o outro sejam consideradas novas formas de comunicação. Enquanto ele faz ela se deitar, quando aquelas mãos macias e tão doces fazem ela desfalecer aos pouquinhos, ela passa o os olhos pelos nomes de autores e histórias da sua biblioteca improvisada e, sem se ater a nenhum, pensa como aquelas palavras agora parecem vazias, tão distantes, tão pouco reais. Tão frias. Tão diferentes do toque quente dele, das pernas entrelaçadas, dos carinhos que os dois se permitem sussurrar. Do muito que ela já leu, nada mais resta, não enquanto ela fecha os olhos e percebe quão pouco as palavras poderiam descrever a sensação de ser apenas um, mesmo sendo dois.

Não é uma história de príncipe e princesa, de um amor matematicamente perfeito, de uma lua de mel sem fim. São duas pessoas marcadas por suas decisões, boas e más. São duas almas cinzentas, que se iluminam juntas, mas que têm cada uma à sua maneira suas próprias fontes de escuridão. Estão quebrados por seus traumas e por suas escolhas e às vezes seus rostos são máscaras hediondas, quando deixam transparecer seus defeitos mais imperdoáveis. Às vezes, tão lindos quanto anjos, quando estão alegres, quando seus sonhos se tornam um pouquinho mais tangíveis. É uma história em que quase não há palavras, poucos adjetivos, poucos substantivos. O céu estrelado é o cenário e os verbos tomam conta da cena. Tudo que não falam, tudo que têm medo de dizer, demonstram com ações, com um fazer interminável, com uma energia que parece nunca acabar. Não é uma história sobre perfeição, mas, mesmo assim, se eles prestassem atenção ao mundo exterior ao menos um pouco, o mundo fora daquele quarto, se se dessem ao trabalho de interromper aquela mútua contemplação de sentidos, poderiam escutar tambores rufando ao fundo. Porque é uma história imperfeita, mas ainda assim é uma história de amor.

Parados ou em movimento, presos em dois lugares distintos, separados por uma multidão de desconhecidos, ou na solidão do quarto vazio, os dois experimentam algo que ninguém pode compreender, algo que só pode ser traduzido como a vontade de viver aquele encontro, daquela imersão um no outro, da boca dela se tornando dele, dos braços dele delineando o corpo dela. Eles não têm nada para dar e provavelmente vão tirar tanto um do outro, tanto, que a cada manhã estarão diferentes, estarão mudados. Ele, tão ela, talvez até descubra o timbre agudo da voz dela em seu próprio riso. Ela, inteira ele, com linhas diferentes, linhas moldadas pelos beijos dele, pelas mãos dele, pelas mensagens de amor que ele nunca falou.

Regiane Folter

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