De volta ao Polo Norte

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De mim ele gostava da postura, do mistério, da sedução que acontecia despropositadamente, gostava dessa mulher altiva que tem um olhar elevado de tão distraído. Ele se apaixonou pela mulher difícil, quase inatingível, que mantinha distância e causava medo.

Quando eu percebi, bem que tentei contar para ele a verdade, mas ele não quis escutar. Agiu como um guerreiro, precisou fazer de tudo, conquistar meus mundos, destronar barreiras de gelo, percorrer os labirintos ultrassecretos dos meus sentimentos para então ver com os próprios olhos o que o faria se acovardar.

É que eu sou um tipo de mulher que assusta os homens, ou pela frieza ou pela intensidade. Eles não me entendem. E não entender é o maior magnetismo do mundo quando o encontro acontece. Eu sendo polo norte e ele sul, mas no final somos apenas nortes a nos repelir. O não entender num primeiro momento atrai, e num segundo momento, aterroriza. Quando sou fria ele me quer intensa. Quando sou intensa, ele reza para que eu esfrie.

Eu já sabia que seria assim, mas ele não. Ele não sabia que a mornidão não combina comigo.

É que sou apenas uma mulher que quando tira a roupa despe a alma. Sou uma menina travessa que gosta de brincar de tirar máscaras e ri das quedas e dos desequilíbrios, e desvenda medos e desata posturas de grandes guerreiros.

Sou a mulher que espera dele o sorriso sincero, o olhar intenso, e o silêncio. E só.

Desprezo todo o resto.

Mas, mesmo prevendo a iminente fuga, eu, seguindo o meu esperançoso roteiro,  pergunto a ele:

“Vamos nos despir juntos?”

É aí então, que ele apressadamente veste de volta a fantasia de homem sexy/inabalável/poderoso, sai apressado sem nem ter o cuidado de fechar minhas portas e volta à caça de bonequinhas que suspiram por falas engajadas, egos bem alimentados e carros importados.

E eu, mais uma vez respiro fundo, e com meu olhar secular, meus pés descalços, e com o coração um pouco menos desnutrido pelas lembranças frescas guardadas, sigo sozinha pelo meu velho caminho rumo ao polo norte.

Clara Baccarin (Escritora, poeta e redatora. Autora do romance poético CASTELOS TROPICAIS (Ed. Chiado), trabalhando no segundo livro, MESA DE BAR. http://www.clarabaccarin.com/livros/ https://www.facebook.com/clarabaccarin.escritora )

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