Não é amor, é amor de verdade

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Loira, alta, olhos claros, pele clara, bem sucedida profissionalmente, era quase tudo, só não era amor. A outra gostava de praia, música eletrônica, bolsa Prada nos ombros e copo de vodka nas mãos, mas não foi amor. A última tinha cabelos pretos, peitos grandes, curtia Beatles e cerveja de boteco. A avistei sentada num dos muitos bancos da praça que estava pichado: “mais amor, por favor”.

Mas não adiantou, não tinha amor.

Não tinha porque eu curto mais Rolling Stones, uísque sem gelo e bunda. Também não sou chegado em praia. Gosto mais de viajar pras montanhas e, de preferência, carregando apenas uma mochila nas costas. David Guetta é o único DJ que conheço, assim mesmo, graças a parceria que fez com Snoop Dogg. Não sei o valor de uma bolsa italiana legítima, mas sei fazer um excelente risoto.

Mas se em meio a tudo isso existisse amor, mas um amor de verdade, nenhuma dessas diferenças faria a diferença nessas tentativas de amar. Na real, ainda que fosse alguém com uma forte conexão, sem amor verdadeiro, seria questão de tempo para saber quem deixaria o outro na mão primeiro. Amor de verdade, não exige afinidade. É aquele amor que não lhe faz desistir, mas existir.

Um sentimento que às vezes move pra cima e outras tantas pra baixo, mas que não deixa você de lado. Que não é frágil, mas fragiliza. Causa dor, mas porra, se não causar, não é amor. Amor de verdade não passa e não dá passagem. É livre, mas não é vadiagem. É livre de preconceito, egoísmo e vaidade. Amor verdadeiro não cega, ele te faz enxergar tudo o que é preciso pra acreditar.

O problema é que as pessoas querem um amor fácil de viver, mas não querem facilitar para o amor sobreviver. Querem um amor perfeito, mas não refeito. Todos querem se amar, mas se amarram. Querem se olhar, mas se encaram. Querem se encontrar, mas se esbarram. Querem paz, fazendo guerra. E, no final, desistem de tudo porque ela gosta mais Beatles e ele de Rolling Stones.

O mundo conspira para piorar isso. Hoje, “parecer” é mais importante do que “ser”. Homens e mulheres constroem um relacionamento sério com apenas um clique no Facebook. A quantidade de likes em uma foto de casal vale mais do que o número de vezes que esse mesmo casal sorriu juntos quando não tinha uma câmera apontada pra eles. Sempre tem um bom filtro pra fingir aquilo que não é.

O amor virou mercadoria das mais baratas no mercado das relações humanas. Perdeu valor em meio à liquidação de corpos. As pessoas pedem “mais amor, por favor” e, quando o recebem, consomem às pressas e enterram seus ossos ainda com carne para apodrecer e feder embaixo da terra. O amor morre sem que tenha atingido sua própria verdade. Tudo isso só para não deixar passar a próxima oferta.

Por isso, só vejo esperança, ainda que tola, nesse amor verdadeiro. Um amor puro que carrega a força de uma revolução nesse mundo injusto. Ainda que não exista algo mais serviu à injustiça que a entrega desse sentimento aos outros que não acreditam nele, prefiro ter fé em seu poder de transformação.

Talvez, se tivesse insistido mais em transmitir essa mesma fé, teria a chance de mostrar a ela que aprendi a tocar “Yesterday” no violão. Não sentiria saudade de fazer cafuné em sua cabeça e vê-la sorrir ao comentar dos fios brancos que esconde em meio aos negros.

Tomaríamos cerveja naquele bar que tanto gosta, onde o dono tornou-se meu amigo, enquanto divido meu olhar entre seus olhos e seu decote. Quando ela levantasse para ir ao banheiro, observaria sem menor pudor seu rebolado. E, ao voltar, confidenciaria isso em um sussurro de molhar até a alma.

Faríamos planos de assistir o próximo show dos Stones no Brasil. Dividiríamos uma doze de uísque com gelo de coco, pra suavizar o sabor que ela considera forte demais. Iríamos embora pra fazer amor e deixar ele nos fazer. Nos amaríamos com tanta vontade que nenhum poeta seria capaz de descrever e o mais cético de duvidar.

Apenas nos amaríamos de verdade a ponto de acreditar que é pra sempre.

 

Hernane Lelis, publicado em: https://nobrereputacao.wordpress.com

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