Amor de verão

tumblr_m131wmwn3V1qifkoeo1_400

Eu te conheci no verão. Te vi e pela primeira vez escutei perfeitamente cada uma das batidas do meu coração. Ecoavam, fazendo da cavidade torácica uma caixa de som. Senti cada partezinha do músculo que nos mantém de pé bombear sangue e vida dentro de mim. Acho que meu peito ressoava tão alto, que você ouviu. E quando seus olhos caíram dentro dos meus, a gente se apaixonou.

Não sei bem explicar como foi que isso aconteceu, da mesma maneira que não podemos divisar nada que está envolto à névoa e ao caos sempre associados ao místico ato de apaixonar-se. Dizem que é um processo complicado, que envolve lágrimas, trabalho duro e uma caprichada dose de paciência. Ao menos eu sempre escutei da minha mãe que estar apaixonado não é para qualquer um. Provavelmente não era para nós. Tudo aconteceu tão perfeitamente, como peças de um quebra-cabeça que enfim se encaixam depois de muito tempo perdidas em tempos de infância. Será que a poeira desse jogo de criança não era um sinal?

Na primeira hora você não desviou os olhos de mim por nenhum instante, esses olhos tão azuis, tão macios quanto o céu da praia ensolarada por onde caminhávamos aquele dia. Uma atitude impulsiva e qualquer, já que nem eu nem você somos muito chegados no quesito exercício. Mas na segunda hora, enquanto nossos sorrisos iam ficando mais firmes, ai contrário dos sorvetes meio derretidos que você me convidou para tomar, afirmamos entusiasticamente que todas as manhãs fazíamos aquele trajeto, com todo o ânimo esportista que podíamos reunir para começar bem a manhã. Você parecia tão inocente, mas mentiu tão cedo. Mentimos cedo demais.

Na terceira hora você me beijou. Na terceira hora mais cinco minutos eu deixei o que restava do meu sorvete cair no seu colo e nós dois rimos tão alto, como se quiséssemos competir o som da nossa felicidade com o barulho que vinha do mar.

Quando eu te conheci era verão e eu não imaginava que as horas iam passar tão rápido, rápido demais até. Na décima tivemos nosso primeiro encontro oficial, eu usando meu vestido preferido, o mesmo que você iria tirar com tanto cuidado cinco horas depois.

Na hora número 52 te ensinei a pegar jacaré nas marolas suaves da praia que separavam as casas das nossas famílias. Na 78ª, você cozinhava panquecas, ou era o que deveriam ter sido, se não tivessem se queimando enquanto fazíamos amor no chão da cozinha. Na 96ª conheci seus amigos e descobri alguns segredos embaraçosos de seus tempos de menino. De qualquer maneira, não demorou muito para você conhecer os meus, quando na hora número 115 minha mãe te mostrou meu álbum de formatura de terceiro colegial.

Eu te conheci num dia quente de verão e enquanto as horas iam passando e o calor ia dando lugar para a brisa amena do outono, fomos nos entregando a uma vontade tão mútua, tão intensa, que foi consumindo pouco a pouco nossos últimos dias de férias. Nos apaixonamos enquanto as folhas verdinhas iam aos poucos se amarelando. Porém, do lado de fora do nosso cantinho particular o mundo real foi aumentando de tamanho, se tornando mais e mais ameaçador. Acabou que as mesmas batidas incontroláveis do meu coração no dia que te conheci voltaram ainda mais desreguladas em discussões que terminavam tão rapidamente quanto começavam, embora fossem ficando mais longas, dia após dia. Trabalho, família, faculdade, outros relacionamentos mal resolvidos, tudo que havia ficado lá em cima da serra, na cidade grande onde tudo é cinza, inclusive o céu, parecia nos querer de volta. O fim do verão tornava o poder de atração desses empecilhos forte demais, ímãs impiedosos que nos arrastavam da imersão para nos lembrar que um dia a hora de pegar a estrada iria chegar.

Na hora 147 eu me esqueci de te encontrar para jantar porque precisei resolver um problema de última hora do trabalho. Na 194ª, sua ex-namorada ligou bêbada e acabamos entrando em mais uma espiral de gritos e acusações. Meus olhos ardiam na 205ª, quando percebi que era a última hora que iria passar com você e nem pude colocar os óculos de sol para disfarçar, porque fazia frio e chovia e esses adereços de verão não tinham mais cabimento. Você também não parecia feliz quando disse:

– Talvez a gente só possa ficar juntos quando o céu está azul.

Quando te conheci num dia de verão, me apaixonei. Mas assim como a estação, tinha data marcada para acabar. E cada hora, incrivelmente deliciosa ou destrutiva, nos conduziu até o fim. E não é que mesmo os quebra-cabeças que conseguimos completar acabam tendo suas imagens apagadas pelo tempo?

Regiane Folter

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s