Há um fosso entre nós

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Há um fosso entre nós, querida, mas não ligo. Mas me dói tanto, por outro lado, você nem imagina.

Acordei cedo e sem você. Sem você na cabeça, mas toda no coração. Doía muito, e sei que em você também (que sempre nega). Vi até que você meio que comemora quando está só. Só agora. Né? Eu sei. Não negue.

Também, como não. Eu me perco. O tempo todo eu me perco. E me perco em mim. Porque me perco em você. Porque me encontro – e sabe que não sei por quê?

Esses dias fiz um texto – para você. Sobre uma série – que você adora (adora ainda?) e que eu nunca havia me animado a ver – sozinho, porque acompanhado fico nervoso (sim). Aí fiz o texto correndo e publiquei. Você fechou a cara e me mostrou dois erros. Um de acento e outro de frase mal construída. Eu sei. Mas nunca sei o que fazer.

Você quer algo de mim. Mas eu sei que não sou eu. Não, eu sei. Você não me quer, nunca me quis. Mas mesmo assim você quer, alguma coisa você quer. Daí que me corrige. Me diz que vergonha. Me mata de susto – ao perceber que não adianta tentar fazer qualquer coisa.

E sabe que você, no fundo (eu sei), nem dá tanta importância a isso? Você diz que invento. Que é tudo coisa de minha cabeça. Que não sei nada da vida. Nada de você. Tá. Sabia que uma das maiores diversões de minha vida – e nunca concretizada – é ler o código civil, o código penal, códigos, normas? Sabia? É mais gostoso que gramática!! Juro! Não tem nada a ver, ok.

Nunca serei nada na tua vida. Eu sei. Mas não choro mais. Não mesmo. É o fosso que não consigo atravessar. É o braço que não tenho. A pegada que não possuo. O tom de voz que não é o meu. Sou eu. Eu sei. Uma pena? Acontece. Nasci errado – ao menos para você.

Pois de nada me adianta navegar tanto em teu mar, cruzar tanto sua maré, admirar tanto teu pôr-do-sol, de nada adianta, eu sei. Eu não sou aquele cara. E pior, não passo confiança. Não minto jamais, mas você me ensinou (isso também): não tem nada a ver, porra.

Eu entendo. Minha sina é admirar o fosso que alguém cavou entre nós – esse Deus que nos observa, agora – e admirar a paisagem do outro lado do mundo sabendo que jamais conseguirei atravessar. Ver o espetáculo à minha frente sem jamais fazer parte dele. Ver você nascer, crescer e definhar – se é que eu não vier a passar por isso antes – sem poder admirar o toque que é só seu – e que de tão doce nem consigo sentir (deve ser isso).

Ontem a P. viu-me tragado pela aflição de me sentir um idiota – mais uma vez. Até pensou em algo, notei. Mas eu não conseguia. Mal respirava. Montava o notebook com um resto de força que não, nem era meu. Os outros conversavam, sérios, e eu sentia o mundo dar voltas – e P. sem saber o que fazer, quem sabe sentir.

Não adianta. Já passei a tormenta da paixão. Já curti a lufada do amor maior. Já vi o que é o tal do amor por alguém. Dispus-me a tudo, e perdi – para mim mesmo, para alguém, para o mundo, não importa para quem. Você me disse: havia uma chance. Não minta, querida. Nunca houve. Quem nasce torto… Quem vive torto… Quem morre torto… De que me adianta morrer em vida às 6h da matina se o Outro que chega tem tudo ao seu dispor – e de antemão?

Depois desisti. E continuei amando. E convivemos. E suportei. E resisti. E cedi – e te di – mas o que você nunca teve – e que no fundo não quis. Vê como são as coisas, então? Daí crescemos. Nos olhamos nos olhos e nos admiramos. Vivemos a vida como nunca antes podíamos. Mas de nada contou. O fosso só se abriu – e com ele a ponte para o Outro que chega, altaneiro. You don’t know me, do Ray. Que você conhecia, sim, quem diria.

Não fui fraco. Fui o mais forte. Não desisti. Superei o insuperável – os médicos me dizem. E outros confirmam. Avancei onde nenhum outro humano parece haver conseguido – nem tentado (o google confirma). Mas de que serve cruzar o atlântico se não tem ninguém do outro lado, esperando?

Não reclamo. Ainda te sinto, te admiro, te adoro e te amo.

Você diz que sou cego a mim mesmo. Engraçado que eu não consiga me olhar. Deve ser porque só quero te ver e porque quando você me encara… eu viro o olhar.

Rodrigo Contrera

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