Deixa eu te encontrar ou me encontra

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Desde lado da calçada eu só consigo lhe enviar palavras. Não tenho certeza se as recebe, mas todos os dias as encaminho. A culpa é tua se não sabe ler a minha mente e resolve buscar atalhos que não levam a lugar nenhum, além dos seus desatinos. Só uma rua separa a gente, por isso, não busque alternativas pra me encontrar.

Se quiser pode acenar, vou sentir a vibração do seu corpo e levantar a cabeça. Engana-se ao pensar que não a vejo tentando dobrar o quarteirão. Apertando o passo pra não caminhar ao meu lado. Sabe que conheço bem a tua nuca, suas costas e as covinhas que se formam acima do teu quadril.

Dia desses, nessa mesma calçada da vida, (teria mais poesia se fosse estrada, mas agora tenho juízo e caminho por calçadas, foi mal) esbarrei numa dessas mesas de botequim. Sentei, lógico. Entre um gole e outro notei uma garota que era a sua cara. Na verdade, tinha até suas roupas e o jeito engraçado que utiliza as mãos ao conversar.

Fiquei olhando pra ela durante três garrafas de cerveja e uma dose de Negroni. Minha visão, que já não está lá essas coisas, perdeu ainda mais o foco. Podia ser você naquela cadeira. Podia, mas não era. Tive a certeza disso quando ela olhou de volta e sorriu pra mim.

Paguei a conta e fui embora pensando em você. Pensei em o quanto fui ingênuo por acreditar ter sido óbvio o suficiente quanto aos meus sentimentos durante todas aquelas noites que passamos juntos bebendo no mesmo copo de desejo e dividindo porções de sonhos.

Depois disso pude encontrar mais pedaços de mim pelo chão dessa calçada. Um pouquinho aqui, um pouco ali, e um tanto pendurado em outros posts por aí. Não peguei todos, deixei passar alguns cacos, principalmente os que me fizeram tropeçar e cair novamente.

Não quero que ninguém estenda as mãos pra supostamente me ajudar e seguir comigo. Devo chegar sozinho ao meu destino. Não quero entrelaçar meus dedos em mãos que vão me deixar na mão no próximo quarteirão.

Quero cruzar a esquina e esbarrar forte com você. E ao invés de desculpas, por favor, diga apenas “oi”. Desculpas já não mudam muita coisa entre a gente, mas tenho certeza que se permitir me encontrar vai lembrar do poder que essas duas letras tiveram pra nossa história começar.

Hernande Lélis, publicado em: https://nobrereputacao.wordpress.com

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