Duas fatias

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Eu gosto de te observar pela manhã se sentando na minha cama para tomar café. De todos os meus hábitos matinais, este talvez seja o que eu mais gosto, já tão corriqueiro quanto o meu ritual de acender um cigarro com a minha caneca de café na sacada do quarto. Eu olho em volta de você e o quarto está completamente bagunçado; todas a minhas roupas amassadas jogadas no canto esquerdo da cama, emboladas à minha maneira, um amontoado confuso de tudo que usei ao longo da semana e fui largando pelo caminho. Pelo chão os restos de uma caixa de pizza com caroços de azeitona, caixas de cigarro vazias amassadas, moedas jogadas sobre o tapete, meia dúzia de cervejas vazias no canto da parede rabiscada, e no meio de todo esse caos poético, você com os cabelos amassados e uma camiseta velha comendo uma fatia de pão, tão, mas tão descompromissadamente que eu poderia quase afirmar que você cantava dentro da sua cabeça enquanto mastigava – delicadamente, e depois limpando os farelos no canto da boca. Depois de um longo período em silêncio te olhando, percebi seu moleskine aberto na sua coxa esquerda, inteiramente rabiscado, e na folha seguinte com algumas frases escritas que não soube identificar de onde eu estava. Você o segurou e então sem pestanejar me disse – “Por que você me ama?” – eu franzi a testa como que tentando entender de onde você havia tirado a pergunta. Novamente, e pontualmente dessa vez, você me perguntou: “Por que você me ama?” , e então de onde estava te encarei por alguns instantes, e nu caminhei até você e te beijei, não porque queria responder ou até calar a pergunta com aquele beijo, mas porque naqueles quatro segundos de caminhada a nossa história passou por mim como um caminhão, me atropelando e quebrando todos os ossos do corpo; eu simplesmente não saberia como responder, embora sempre soube que te amava, naquele instante, nos quatro segundos antes, no dia em que você entrou por aquela porta, no dia em que te conheci, tirando uma joaninha do seu braço enquanto você tomava um whisky conversando na sacada do seu apartamento. Acho que sou demasiadamente denso no fim das contas, e tentando te dizer algo rebuscado acabei por não dizer nada. Me redimindo então te devolvi a pergunta – “E você, por que você me ama?” – você me olhou dissimuladamente e semi sorriu, passou a mão pela minha cintura e sem hesitar me disse, “Porque você corta a casca do meu pão!”. Desde então tenho buscado exemplificar da mesma maneira, e embora me desgaste pensando nisso enquanto te olho todos os dias pela manhã, ainda não consegui assimilar algo tão maior, tão singelo, tão inocentemente devastador quanto a sua explicação do amor, que tantos autores já dissertaram exaustivamente sobre, mas que pra você, em toda a sua despretensão, cabe no simples fato de uma casca de pão cortada.

Talvez seja isso então, eu, você, um quarto sujo e bagunçado de paredes rabiscadas e duas fatias de pão com a casca cortada. Isso é o amor.

 Rodrigo Lima Romano

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