A incrível geração das mulheres chatas

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Não faz nem um mês eu disse aqui que a melhor desculpa de uma mulher que está sozinha é que não tem homem no mercado. É muito boa. Mas tem uma que disputa à faca o primeiro lugar: estou sozinha porque os homens têm medo de mulheres independentes. Uma ova.

E posso afirmar: a cada minuto que você reclama, tem outra mulher também independente e bem sucedida – mas muito mais esperta do que você – sendo bem sucedida na dança do acasalamento. E você aí, sozinha no bar com as suas amigas independentes, com suas bolsas caras, indo dormir sozinhas, reclamando da morte da bezerra e dos homens. Aqueles ingratos.

Não sei de onde tiraram essa ideia de que a vida só mudou para as mulheres. Não é possível que a gente acredite mesmo que fomos criadas para ganhar o mundo, estudar, disputar vagas de trabalho, fazer o imposto de renda, encarar hora extra, sair sozinha com as amigas, e que ninguém contou nada aos homens. Enquanto isso, os pobres empacaram no tempo e, portanto, hoje temos que conviver com trogloditas que ainda esperam casar com a dona Baratinha.

Tenho um irmão 11 meses mais novo do que eu. Crescemos na mesma casa, com os mesmos pais. Nós dois vimos minha mãe trabalhar a vida inteira, chegar em casa muitas vezes depois de todo mundo, dividir as contas da família no papel, fazer uma comida mais ou menos, viajar sozinha no Carnaval porque meu pai sempre detestou os dois.

Saídos da mesma fôrma, eu ganhei o mundo. Meu irmão casou antes dos 20 anos. Não estou contando nenhuma história que não seja a mesma de quase todo mundo que eu conheço. Esse discurso de que os homens não estão preparados para essa nova mulher seria revolucionário na época da minha avó, que se separou aos 50 anos, decidiu aprender a dirigir, fez vestibular para educação física e foi procurar emprego – porque, até então, o único duro da vida da dona Dorah tinha sido criar quatro filhos. Talvez tenha ficado mal falada na cidade. Mas era a minha avó, no tempo da minha avó.

Essa ladainha em 2014 não dá.

Quando é que a gente vai cansar de se fazer de vítima e parar de encarar os homens como incapazes? Se a gente se adaptou aos novos tempos, eles também. Ainda precisamos de ajustes aqui e ali, mas está tudo bem.

Eu não convivo com homens despreparados para essa nova mulher que sou eu, você e quase todo mundo. Tenho amigos homens, e eles querem, sim, mulheres parceiras e não dependentes. Choram no meu ombro por causa de pé na bunda.

Reclamam de mulher que não vale nada. Ficam perdidos sem saber como agradar essa fulana que, na verdade, não sabe o que quer porque cresceu acreditando que pode querer tudo. E pode. Só deveria parar de encher o saco.

Fizemos as nossas escolhas, eles fizeram as deles. Nenhuma mulher é igual.

Assim como qualquer cara pode vir com mil variações do que a gente aprendeu a conhecer por macho. Tem todo tipo por aí. Mas com todos os requisitos que a tal nova mulher – que de nova não tem nada – quer, não sobra um na face da terra que baste.

Inteligente. Óbvio. Antenado. Com certeza. Remediado. Tem remédio? Fodão. O tempo todo. Bem humorado. É o mínimo. Frágil. Nem pensar. Imaturo. Socorro. Machista. Deus me livre. Glúten free. Pra quê? Fiel. Possível. Rico. Com a graça de deus. Comprometido. Por que não?

Esqueça.

Eu agradeço por nunca ter tido um único namorado que não me quisesse da forma como eu fui criada. Ganho o meu dinheiro, bebo uísque, gosto de futebol, dirijo super bem, cuido do meu imposto de renda sozinha. Sei pregar botão, ainda que torto, não sei nem por onde começa a receita de suflê de cenoura, só vou ao supermercado pra comprar vinho e no dia em que tive que aprender a diferença de alvejante e água sanitária, dei um Google.

Compro bolsas caras, saio sozinha com as minhas amigas e nunca fui cobrada por ter que trabalhar domingo ou terça à noite. Neste momento em que escrevo e tomo vinho tem um cara lá na cozinha preparando o jantar. Um cara que me escolheu do jeito que eu sou, que vibra com as minhas vitórias e me salvou de jantar miojo ou cerveja pelo resto da vida.

Meus pais nunca perguntaram quando eu iria casar ou quando lhes daria netos. Mas sempre torceram que eu encontrasse um companheiro para dividir a vida. Eles se orgulham muito do caminho que eu quis seguir e nunca me fizeram pensar que escolher ser bem sucedida significaria ser mal amada. Conheço uma penca de gente que tem os dois porque isso aqui não é uma competição. Todo mundo quer a mesma coisa. Eu, você, o Arthur, o Marco, o Fernando, o Rodrigo, o João, a Cris, a Camila.

Todo mundo quer um chinelo velho pro seu pé cansado. Quer sossegar o rabo num relacionamento feliz e cheio de cumplicidade, de parceria, de mãos dadas no cinema, de silêncios que signifiquem enfim sós.

Chega desse discurso de ser mal compreendida pelo mundo e pelo homens. Tem muita gente avulsa por aí. Dos dois lados, por inúmeras razões. Se você acredita mesmo que ninguém te quer porque é independente e porque os homens não sabem lidar com isso, só quero lhe dizer uma coisa: você está sozinha porque é chata.

Vou jantar, porque depois tem uma pia de louça me esperando. Justo.

Mariliz Pereira Jorge, publicado em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2014/06/1476515-a-incrivel-geracao-das-mulheres-chatas.shtml

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272 thoughts on “A incrível geração das mulheres chatas

  1. Texto maravilhoso! Concordo plenamente. A sociedade mudou e essa desculpa não cola mais.
    Sempre fui independente. Estou muito bem no meu relacionamento. Meu marido cozinha e eu lavo os pratos (rsrs). O importante é cada um dar o seu melhor para o relacionamento. E percebo que os homens não só não se importam que as mulheres sejam independentes, como admiram isso em sua companheira.

  2. Com certeza tem muitas mulheres chatas por aí sim, mas também tem muitos homens chatos, ambos querem escolher tanto que acabam sozinhos. Realmente é um equívoco essa afirmação que “homens têm medo de mulheres independentes” não vejo muito sentido neste texto em afirmar que elas estão sozinhas por que são chatas, hoje em dia o legal é estar juntos por opção e não por dependência, tem muitas mulheres legais e independentes e que estão sozinhas e não vejo vantagem nenhuma em se gabar que não sabe cozinhar ou que vai ao mercado só para comprar vinhos e tem que ser aceitas assim. Um texto que retrata o egoísmo da vida moderna, onde todos só olham para o seu próprio umbigo tentando ao máximo satisfazer a si mesmo. Machismo… Feminismo… E daí?????? Estamos todos em busca por momentos felizes, cada um do seu jeito, chatos ou chatas, sozinhos ou não o problema é seu.

  3. Acho que o blogueiro não entendeu o contexto do post ” A incrível geração de mulheres que nasceu para ser tudo aquilo que um homem não quer”. De fato as gerações mudaram tanto para os homens, quanto para as mulheres. Sendo mulher, tenho plena convicção de que o contexto do primeiro texto não foi para menosprezar ou culpar os homens da vida que a mulher moderna vem tendo. O que o autor quis abordar foi a realidade de cobranças em que as mulheres passaram a ter; Hoje é muito comum ver mulheres solteiras aos trinta, ou desesperada por um namoro que não vingou. A questão é, quais são as prioridades da mulher moderna em meio a tantas cobranças externas e internas? De que forma estas cobranças estão refletindo em nossas realizações e idealizações completamente desequilibradas? Queremos uma família perfeita, mas com um currículo impecável. Nos cobramos em excesso e por demasia intolerância acabamos nos frustrando quando as coisas não saem como planejamos. Não é uma espécie de competição com os homens. É apenas o fato de que a mulher, por si só, já quer ganhar o mundo.

  4. Ler esse texto quase me fez acreditar que vivemos numa sociedade livre de machismo. A própria ideia de que a mulher mal sucedida é aquela que está no bar com as amigas solteiras é um pensamento machista. Também gostaria muito de viver em um mundo onde as mulheres tivessem iguais direitos aos homens, mas isso é ilusão. Não porque os homens não foram avisados, nem porque pararam na época de nossas avós, mas porque vivemos em uma sociedade que é estruturalmente machista até os dias de hoje, e o pensamento machista é tão intrpinseco à nossa sociedade, que se passa despercebido. Em 2012 um levantamento afirmou que os salários das mulheres eram 30% menores do que os dos homens nos mesmos cargos. Essa opressão ocorre todos os dias quando uma mulher não se sente dona do próprio corpo ao andar na rua de vestido curto. Porque mulher independente não é aquela que joga videogame ou não aprendeu a cozinhar, mas sim a que é exatamente o que quer ser. E se quiser cozinhar, que seja muito feliz na cozinha.

  5. Se não tivesse um cara preparando o jantar na cozinha ela não tinha escrito esse texto. Depois que o pé tá com o chinelo velho fica fácil perder o medo dos cacos kkkkkkkkkkkk Parabéns pra ela que é super legal!

    1. Boa!!!!!!!!!!!!!!!!! Muito fácil ser sarcástico de barriga cheia ….

  6. Muito bom. Na verdade as mulheres tem hoje o que os homens sempre tiveram mas nunca reclamaram. E a velha historia: se voce quer o mesmo salario, deve estar preparada para pagar a conta. O problema e que a maioria quer os dois.

  7. Mulher discursando assim?
    Realmente você deve ter criado inimigas, aquelas que gostam de se fazer de vítima.
    Mulher chata se incomoda com a felicidade lateral alheia

  8. Muito Bacana! Eu sou a mulher : “este momento em que escrevo e tomo vinho tem um cara lá na cozinha preparando o jantar. Um cara que me escolheu do jeito que eu sou, que vibra com as minhas vitórias e me salvou de jantar miojo ou cerveja pelo resto da vida”

    Perfeito!!!! Muito bom o texto!

  9. Pois é guria, creio que o problema em dizer que alguém está só é por que é chato, é uma afirmação no mínimo pretensiosa e perigosa, isso por que todas as pessoas, sem exceção, no rol de de características que o faz único possui tanto uma dose de chatice,como de todas as outras características também.Ninguém suportaria conviver com uma pessoa que é 100% do tempo chata, acho que nem a própria pessoa não se aguentaria,tal criatura acharia a vida uma grande Bos… e se mataria logo né. Mas nos atendo ao tema,o argumento que delimita que a solteirice feminina de algumas individuas se deve a chatice ficou superficial e abstrato,pois, o que uma pessoa considera chato outra pode ficar maravilhada é muito relativo.O conceito do que é chato é abstrato e pessoal e vai variar de pessoa pra pessoa, pois vai se basear em escolhas individuais, juízo de valor etc. A solteirice feminina pode ter os mais variados motivos, e creio que vão muito além de uma unica caracteristica abstrata, já pensou se TODAS as mulheres que estão solteiras fosse pelo fato de serem “chatas”, nunca mais haveriam casais se formando. O que um homem pode considerar insuportavelmente chato em uma guria outro pode amar.Essa solteirice é algo que foi se construindo social e historicamente, são muitos fatores que influenciam.

  10. Nossa! Que legal! Basta acabar com a “chatice” das solteiras e tudo está resolvido! Hahahahaha!

  11. Achei o texto bem ruim. Limitado referente a questão de gênero. Usou apenas exemplos seus (você, seu irmão, sua mãe, sua avó)…exemplos de uma classe média branca, loira, paulista ou carioca. Não foi pesquisado a realidade das mulheres de outras regiões do país, que é bem diferente da sua enquanto toma vinho e espera pelo jantar. Muita coisa mudou, mas o processo é a longo prazo. Se somos independentes hoje devemos a industrialização do país, verdadeiro fator de mudança social das últimas décadas, porém, culturalmente estamos em marcha lenta. Textos como esse, apontando os defeitos das atitudes femininas, as culpando de suas condições, retardam ainda mais a transformação cultural na cabecinha das pessoas.

    1. Isso mesmo Ísis. O pior é que muitos vão na mesma onda. Cuidemos para que a inversão de valor e do bom senso não nos tire o foco do que verdadeiramente somos. Estudos comprovaram que a mulher brasileira está cada dia mais focada no ramo profissional, buscando qualificações como graduação, pós graduação para só depois constituir família, o que eu acho um pensamento certo. Não é porque uma pessoa é solteira que ela é pior que alguém. Abçs

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