As coisas impossíveis do amor

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Minha querida,

Nunca imaginei tê-la por perto, mas ainda assim, a ideia de viver ao seu lado, vez ou outra, aparecia no meu conturbado cotidiano. Eu que sou de lua, de sóis, de solidão. Eu que sou muda, inquieta e adepta de pequenas cartas, poucas roupas e amores de verão. Eu que vivia o começo pensando no fim e admitia para mim mesma que o amor não era tal grande coisa assim. Eu, admirada em caminhar por um caminho incerto, passava meus dias em busca de diferentes paisagens. Cada dia um novo sonho à sombra de uma nova árvore. Mas vez ou outra, repito, você passava por mim.

E se eu pudesse, enfim, dedicar-me a somente uma leva de folhas? A recostar-me numa só árvore para te fazer cada dia mais perto de mim? Decerto não seria essa minha escolha, pela necessidade invariável do movimento. Ainda que pudesse caminhar por caminhos curtos, precisava estar a andar, sempre. E tinha em mente que você queria tão somente repousar seu aflito coração.

Sou tempestade, não repousas em mim tua dor que me faço valente e inicio guerra em seu coração. Não dê a mim a responsabilidade de seus inescrupulosos atos, pois não carrego culpa, sou vadia, me faço vazia quando convém.

É tua a dor, é teu o amor, é tua a culpa por ter desperdiçado linhas, cafés e tatuagens. Invade-me o peito a sensação de que agora é tarde para propor a vida contigo, e mesmo que o faça, será em vão. Já não tens mais aquele belo par de olhos morenos, se tens, porque de fato ainda estão aí, perdeu-se o brilho, menina. De mulher, tornou-se fraca, fraquejada por não poder habitar meus braços cheios de amor. Por não aguentar sua dor e por não saber mais me fazer sorrir.

Escrevo-lhe, portanto, para me despedir. Das noites em claro, dos cigarros trocados, dos cabelos amarrados. Aguente a vida, menina, pois eu me vou. Antes que seja tarde, antes que seja um erro completo ficar. Vou, antes que você me peça para ficar, como um cão abandonado que chora quando perde o osso deixado na calçada. Não eras tão forte? Tão cheia de si? Não tinhas tantos homens e te procurar? Pois é bom saber que quando eu for, não ficará a sós. Tem teus homens, teus gatos, tuas viagens. Tens tua malandragem e capacidade de enganar os que te rodeiam.

E quando me veres juntando as trouxas, repousa-te quieta, sabendo que não vou com uma mágoa duradoura, coisa de tempo para essa tristeza passar, não terá sido a primeira, e, por acreditar nas coisas impossíveis do amor, não serás a última, minha flor.

Foi teu meu amor, foi teu meu coração, foi tua a minha vontade de estabelecer-me e criar calmaria dentro do meu furacão.

Mas a cada minuto do momento presente que se passa, eu te vejo cada vez mais distante, te vejo cada vez mais transparente, e sinto o sinal de que em pouco tornar-te-á invisível aos olhos meus. Invejo-te o cinismo, mas não se esqueças que de agora para sempre, invejará tu a minha capacidade de ir.

Pois quando vou, não volto. Portanto, não espere seu interfone tocar de madrugada após uma longa jornada minha, eu não sou de aportar em pontos de partida.

Sem despedidas,

Inverno de 2014.

 

Publicado em: http://amanheceaqui.wordpress.com/

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