Palavras que faltam

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Como dizer? Como dizer – assim, com palavras –  o que me corre nas veias, me palpita no peito, me borboleteia na barriga? Como dizer – dizer mesmo, palavra atrás de palavra – que o que tenho, que o que me percorre, me faz viver num misto?

É bom. É tão bom. É tranquilo. Tranquilo e intempestivo (e tudo assim, ao mesmo tempo).

É sorrir porque se tem. É recear perder – hoje, amanhã, noutro dia qualquer. É viver de sorriso posto. De sorrisos postos.

É abrir a cama à noite e ter mensagens à espera. É chegar depois do trabalho e ter bilhetes pousados na cómoda, juntamente com uma mensagem que só se lê depois – quando a vista está já enublada. É marcar cada momento importante – com palavras, com as que nos trouxeram até aqui. É colecionar bilhetes de comboio de viagens que são apenas nossas.

É descobrir que se pode falar sobre tudo – TUDO – sem que as vozes se elevem numa procura quase desesperada de razão. É amuar às vezes. É pedir mimo. É falar sobre o que perturba. É ver – ver com os olhos – que é possível que nada se perca, que se mantenha, que melhore.

É ser feliz – ainda que faltem as palavras para dizer o quanto. (Ainda que as palavras me façam falta).

Joana Loureiro, publicado em: http://priscilanicolielo.com/

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