Nunca mais nos vimos

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Eu estava sentado lendo enquanto você separava os fios de cabelo, cantarolando uma canção qualquer entre os lábios, nem lembro quanto tempo faz. Poderíamos estar fazendo qualquer outra coisa; lendo juntos, ouvindo aos discos do John Mayer juntos, sentados no chão do quintal comendo tangerinas no frio do outono juntos, mas de todas as opções possíveis, optamos – e não fazia pouco tempo – colocarmos um abismo profundo e tedioso entre a gente. Daí me veio a esperança de que um dia você voltasse, com aquelas pintinhas de sol no rosto vermelho e todos os sonhos do mundo na sua mochila velha de couro. Que preenchesse aquele espaço cinza entre as poltronas antigas e aqueles dois estranhos íntimos fingindo viver juntos – nós dois. Esperança de que houvesse novamente bilhetes no espelho do banheiro, do sexo com roupas no chão da sala não premeditado. Esperança de que ela estivesse ali entre nós, a vontade, o tesão, o ódio, a moralidade reduzida a nada, e jogasse os pratos de porcelana barata de novo em mim, por puro ciúme.

Eu poderia ter me levantado e te dado um beijo sem aviso, te arrancando o fôlego só pelo desespero do nosso incômodo silêncio. Talvez você me olhasse como quem não entendeu nada e retribuisse, mas tive receio. Há algo de muito errado quando existe o receio de incomodar alguém amando; isto deveria ser um sinal nítido do fim de todas as coisas. Quando ela, a confiança decidiu ir embora da nossa relação, decidimos desafiar a natureza dos sentimentos e achar que tudo poderia continuar gravitacionando ao nosso redor, mas foi tudo ruindo, pouco a pouco, caindo e se quebrando; irremediavelmente nos abandonamos. Nos tornamos aqueles casais agridoces nos restaurantes e cinemas; anestesiados. O que foi feito do amor? Me levantei então e guardei o livro. Passei por você como alguém passa por um velho amigo de colégio e fui em direção a porta do quarto. Não precisamos dizer nada um ao outro, mas ambos sabíamos que naquele momento um adeus seco ecoou pelo corredor. Você olhou pra trás e fez menção de dizer algo e então se deteve. Fim. Me lembrei de você porque começou a tocar ‘ Your Body is a Wonderland’ – lembra? Eu me lembro. E olhando pro porta retrato tive a sensação de te ver ali naquele balanço de pneu velho, gargalhando. Olhei mais de perto e então engoli indigesto o sorriso, percebi sem querer que se tratava de outra pessoa estranha. Arrumei meus óculos e sem querer disse muito dissimuladamente, mas não tanto que eu não percebesse – ‘Nunca mais nos vimos.’ – É, nunca mais.

 

Rodrigo Lima Romano

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