S.A.L.A.D.A

04

Sentei outro dia desses naquele banco no fim da sua rua. Não se preocupe, não fui te perseguir nem nada do tipo, já passei dessa fase humilhante do fim da minha autoestima. Apenas passei caminhando pelo seu bairro e quando vi aquele banco sujo de lodo e com aquela pichação de amor adolescente, senti que precisava me sentar ali de novo. Nostalgia pura, uma patologia minha. Novamente te alerto que não estava sofrendo; não se preocupe. De certa maneira letárgica, nem sei o que eu sentia de fato. Mas sabia que precisava me despedir de você. Ficou essa impressão errada sobre mim, de que no fim de tudo eu fui cruelmente vitimizado pela sua indiferença e desdém, mas creio que ambas as partes foram terrivelmente machucadas ao longo do processo, então aqui sentado nesse banco gostaria primeiramente de te perdir desculpas.

Me perdoe por ser um tanto quanto inconstante e por às vezes indiretamente menosprezar a natureza do seu afeto. Você sempre foi muito melhor que eu em dizer coisas bonitas, citar Carpinejar, de me dar apelidos desastrosamente fofos. Eu fingia odiar, mas sempre estranhava quando você me chamava pelo nome. Me perdoe por nos colocar constantemente dentro de uma roleta russa; deve ter sido um tanto quanto exaustivo. Parece bobo, mas desculpe por não te fazer as massagens que você me pedia aos domingos de manhã, eu não estava tão cansado assim, era preguiça mesmo (me desculpe a sinceridade). Não sei quem você esperava que eu fosse, mas me perdoe por não cumprir o requisito. Digo isso porque tentei jogar com a verdade de mim, de enfatizar que amava coca-cola zero e nem saber se era mesmo a minha preferida, por pura birra, mas veja bem, eu nem sei mais se menti só pra você ou se criei esse personagem impenetrável, cheio de barreiras contigo só pra me proteger. Barreiras de areia praiana, como você pôde notar; ruíram tão cedo quanto eu me percebi perdido nessas imensas camadas sobre mim. Veio você com a sua confiança restaurada e me colocou de volta no chão. Não, não peça desculpas a mim por isso, alguém precisava desfazer esse nó. Obrigado por ter sido inexoravelmente doce e cruel. Você fez bem em não atender as minhas dúzias de ligações.

Sentei aqui para pensar sobre nós porque me dei conta de que é muito mais fácil limitar a verdade do fim de uma vida a dois colocando a culpa em outrem. Beber garrafas de vinho chorando no ombro de amigos e enfatizando o quanto – ‘Você nem sequer respondeu as minhas mensagens!’ – esmiuçando detalhes da sua frieza e soberba castração do meu coração frágil e delapidado. Fácil, porém não verdadeiro. Você também não foi essa candura santificada de pessoa e Deus sabe os bocados que passei te tolerando, mas decidi fazer o caminho inverso dessa vez. Ao invés de me alimentar diariamente do sabor amargo e venenoso da mágoa, ruminando nossos diálogos homicidas, decidi te dar um abraço e te desejar sorte na vida. Um beijo na bochecha talvez, em homenagem aos bons tempos.

Te vi cruzando a rua de mãos dadas semana passada, na esquina daquele restaurante onde a gente almoçava sabe? – Eu como lá sozinho às vezes, só pelo hábito, e converso mentalmente com você sobre o filme da tela quente. Me perguntei se você também levava seu novo amor pra divagar suas críticas cinematográficas na mesa do fundo, à esquerda, acho que por isso me contorci todo dentro do meu cachecol e me escondi de vergonha e ciúmes quando os vi. Que sentimento mais intransigente! Esqueça isso, foi por um momento só, já estou bem. Como disse, eu precisava te pedir desculpas, mas me dei conta agora, olhando pra casa de portão amarelo de frente com a sua, que eu estou aqui na verdade perdoando a mim, tirando esses kilos de constatações a meu respeito dos ombros. Mais leve me levantei e olhei pra pichação no banco – Bernardo & Ana Clara ‘S.A.L.A.D.A’ – O que significava mesmo essa sigla? Nem me lembro mais. De qualquer forma, com o coração um pouco mais leve olhei de novo pro pé de jaboticabas na sua calçada e te disse adeus. Me veio essa lembrança besta de você correndo do portão pra pular em cima de mim. Desejei ao Bernardo e à Ana Clara uma sorte melhor que a nossa então. Está aberto o edital para irremediavelmente quebrarem meu coração novamente.

Rodrigo Lima Romano

Anúncios

2 thoughts on “S.A.L.A.D.A

  1. Caramba!!! Em outras palavras, é absolutamente o que eu passei alguns meses atrás. Pensando até em adaptar em mandar essa carta pra ela.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s