Aqueles que gostam de abraços nas escadas rolantes

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Quando a gente gosta de alguém a gente gosta de contar para os amigos.
É bom demais falar pra quem gosta da gente sobre quem novo que estamos gostando.
Rola aquela excitação dos parques de diversões e repetimos as mesmas histórias para todos os nossos melhores amigos, aí fica aquela chuva de copia e cola no whatsapp falando sobre o mesmo assunto em todas as conversas. Que coisa mais terrivelmente deliciosa.

Do nada passamos a nem ligar pro trânsito insuportável de cada dia, muito menos pra lotação do transporte público. Isso não significa que os problemas sejam resolvidos, mas que começamos a dar menos importância para todas as coisas que nos irritam e passamos a focar na importância em todas as coisas que nos fazem bem. Rola uma cegueira gostosa sobre as coisas ruins da vida.

Engraçado que quando estamos gostando de alguém tudo é motivo de assunto.
Uma volta qualquer do trabalho pra casa passa ser uma volta que tinha dois cachorros no caminho, um casal rindo na avenida, o preço do sorvete que aumentou, a blusa que foi esquecida e a noite esfriou, as vontades de comprar algumas coisas, as dívidas pra pagar outras, os planos pro fim de semana, o resultado do futebol, as coisas que eu chefe diz, aquela pessoa chata do trabalho, aquela pessoa legal, o sabor da comida no almoço, o vídeo engraçado do dia… E por aí vai. Acontece que gostamos de compartilhar tudo o que vivemos com quem estamos gostando. É um lance de compartilhar a vida em sua essência. Pois essas mesmas coisas passam pelos nossos olhos todos os dias, mas é só o coração chegar chegando e começar a bater mais forte que essas coisas ganham importância especial.

E como ficamos bobos, né? Sim, ficamos insuportavelmente bobos. Se não tem assunto, inventamos um novo. Se tem, falamos sobre o mesmo mil vezes. Antigamente as orelhas esquentavam pelas horas no telefone, hoje são as teclas do teclado do computador ou a tela do celular que faltam cair de tanto digitar o dia todo. Ignoramos um amigo aqui e outro ali, mas aquela pessoa, ah, aquela pessoa não. E poxa, rola uma licença sentimental nesse caso, né? Não é uma questão de não se importar com mais ninguém, mas sim de se importar muito mais com alguém especial. Aí faz sentido, né?

Tem um negócio que muda também: auto-estima.
Da noite pro dia começamos a escolher as melhores roupas, e nos dias em que “vamos ver aquele alguém” acontece toda uma dedicação em escolher a roupa mais legal e o perfume mais gostoso. Também começamos a comprar um pouco mais. Pois é, viver uma história com alguém não é o que podemos chamar de barato, mas tem o lado bom que a gente gosta de se cuidar um pouco mais. Funciona assim: num domingo qualquer você faria qualquer coisa, até mesmo iria ao shopping dar uma volta, agora, num domingo com a companhia daquela pessoa podemos até ir ao mesmo shopping, mas algumas dívidas são feitas lá. As vitrines chamam mais atenção e uma história liga a outra. Alguém fala “Ah, sempre quis comprar um desse” e na cabeça já liga o botão do Possíveis Presentes Pra Dar™. Alguém diz “Vamos só dar uma passada?” e algumas novas sacolas cheias de compras vão segurar a vela dos dois na volta pra casa. Nós passamos a consumir a vida de um jeito diferente.

O passar dos dias são comemorados com festa.
Há quem poste nas redes sociais: “sexta-feira, sua linda!”, há quem não fale nada mas nem por isso comemora menos. Há quem explana, tipo: “@fulano olha isso, lembrei de você!”. E é louco também como parece que começamos a atrair algumas coisas. Aquelas matérias sobre “coisas pra fazer no fim de semana” começam a aparecer perto do fim de semana. Aquelas promoções tipo “faça x coisa e ganhe um par de ingresso” brilham nossos olhos e não pensamos duas vezes em ver qual é.

Fazer qualquer coisa fica mais legal quando estamos na companhia de alguém legal.
Até uma escada rolante começa a ter um sabor diferente. Mudamos da raiva em ver as pessoas ocupando a parte da esquerda, ao esquecimento em se ver ocupando a mesma faixa da esquerda só pra manter ali uma mão dada. Ou então, para os mais ligeiros, rola aquele degrau maravilhoso que parece ter sido feito pensando na vida dos casais. Perceba que para dois amigos conversarem é um tanto desconfortável. Um sempre vai ficar mais alto que o outro e vai ouvir menos; a comunicação é prejudicada até que alguém fala “Peraí, deixa a gente sair e você continua… Pronto”. Agora quando estamos na condição de poder abraçar alguém a qualquer hora, parece magia: alguém fica um degrau acima e o abraço se encaixa de uma maneira meio inexplicável. Pode até rolar um beijo aqui e outro ali, só a escada que poderia não parar de rolar. São alguns segundos que fazem tão bem. Daria pra ficar uma vida falando sobre como esses segundos são gostosos pra vida de qualquer pessoa.

A música diz que “quando a gente gosta é claro que a gente cuida” e poucas verdades são maiores do que essa. Nós somos aqueles que gostam de cuidar mesmo, de perguntar se está bem, se melhorou do resfriado, se comeu bem e devagar, se tem organizado as coisas, nossa, são tantas coisas pra se preocupar que as contas se perdem. Mas também pudera, não bastasse a vida que temos nós começamos a ver graça em cuidar da vida de quem estamos vivendo. Mas vale explicar: não é cuidar da vida no sentido fiscal da coisa, é cuidar da vida no sentido de zelar, de querer e lutar pelo bem da pessoa. Entende?

É então, nós ficamos bem diferentes.
Esses somos nós, aqueles que gostam de abraços nas escadas rolantes, que cuidam, que contam para os amigos, que dividem todos os detalhes da nossa vida tão básica, é, isso mesmo, que transformamos a nossa vida tão comum em uma vida interessantíssima sem muito esforço. Isso é bom, isso é gostar de alguém, isso é sobre como a gente fica quando a gente está gostando de alguém. Nós somos assim mesmo e pra sempre assim seremos, pois tem um treco chamado amor no meio disso tudo.

Márcio Rodrigues, publicado em http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/

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