Me devolva

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Eu tenho essa confissão vergonhosa a meu respeito pra te fazer. Não sei porque estou dizendo isso, talvez seja porque dei uns goles naquele licor horrível que a gente ganhou de natal da sua tia, há uns dois ou três anos atrás. A bebida é sempre uma desculpa pra me despir de certa indulgência; o meu ridículo fica então aceitável, compreensível, companheiro.

Durante algum tempo encarei a sua ausência permanente como qualquer ser humano normal faria. Bebi porres homéricos, ouvi muito jazz (jazz do bom mesmo), e fumei muito mais maconha do que deveria. Transei muito por aí com pessoas desconhecidas, por solidão minha, por excesso de auto piedade, e admito que tenho medo de atestar se não foram então por pura compaixão delas. Mas esqueça, nada disso tem importância, pois o que gostaria de compartilhar é que durante muitos meses depois do nosso término, fiquei tentando forçar um encontro casual nosso, ridiculamente esperançoso de que ao me ver, você enxergaria o quanto tinha se enganado ao sair da minha vida.

Eu ja estava bem, vivendo a minha vida e as trivialidades dela, mas dentro de mim eu seguia tentando entender o porque você decidiu que não me amava mais, assim tão pontualmente e visceralmente cruel. Ficou tudo muito reticente pra mim, me desculpe. E então refazia o caminho de casa completamente errado, alongando o trajeto e caminhando por pontos onde sabia que você rotineiramente passava. As mesmas estações de metrô, o restaurante perto do seu trabalho, os mesmos bares que costumávamos a ir. Até aqueles seus amigos que tínhamos em comum, os que eu dizia detestar com ares de desprezo – sim, me forcei a encontrá-los na esperança de que em algum momento você surgisse – o que nunca aconteceu.

Se algum conhecido nosso percebesse minha aventura amorosa solitária, eu muito envergonhado me negaria a admitir e iria embora puto da cara, praguejando contra ele, tudo porque, como você sabe, no fundo odeio me sentir exposto. E foi assim durante muito tempo, até que virou um hábito te espiar a vida sem nunca de fato te ver. Ensaiei muitos diálogos onde brigávamos quase aos tapas, vomitando minha mágoa áspera toda em você, como naquela música da Elis Regina em que ela termina ‘Atras da Porta’, dilacerada. Era o exercício inútil de te manter do lado dentro sem ninguém perceber do lado de fora – até que finalmente me dei conta de que você não voltaria mais, que nesses diálogos ensaiados por mim, a outra parte não decorava o mesmo texto que eu. Chorei um bocado, e novamente me afoguei no whisky barato e nos braços caridosos daqueles que só dizem ‘sim’; até que então decidi te exorcizar.

Parece surreal te dizer isso, novamente te peço desculpas, mas eu me senti tão lesado que de alguma forma quis que você me ressarcisse por esse investimento imbecil de continuar te amando. Fica aqui a sua conta para comigo: me devolva todas as horas de sono que perdi falando contigo enquanto você estava efusivamente com insônia. Me devolva as horas que passei sentado no chão das rodoviárias, aeroportos, da casa de amigos, ao lado da tomada porque minha bateria estava acabando e os fios desses malditos carregadores são curtos demais. Me devolva esses kilômetros que fiz fora da rota pra poder esbarrar em você. Me devolva o dinheiro do álcool que bebi pra te esquecer e meus orgasmos vazios do sexo fisiológico. Me devolva as horas que gastei assistindo filmes dublados porque você tinha preguiça de ler.

Por escolha ou fatalidade, pouco importa, agora posso pensar em você todos os dias, e ainda assim, preferir o silêncio. Seu débito está alto, mas não precisa pagar. Coloque na conta do próximo idiota.

Rodrigo Lima Romano

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One thought on “Me devolva

  1. Lindo, lindo, lindo. Em certos trechos do texto me encontrei; nos caminhos tortuoso que percorremos para “sem querer” nos encontrar. Enfim, me mutilando por alguém que não valia o esforço. Parabéns.

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