Essa moça

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Lá está ela, mais uma vez entregue àquela sensação embriagante de ‘não sei o que – só sei’. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Ando pensando ultimamente que tudo acontece como em um jogo, que não há quem prediga se é de azar ou de sorte, além de que é imprevisível pra diabo. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.

Sempre dispensa a racionalidade dos atos em detrimento da beleza dos gestos. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar, de mergulhar nessas sensações que ela não sabe se vai fazer bem. Esses sentimentos são meio felinos acredito eu, te deixam afagar e um segundo depois te enfiam as garras. Estranho é que ela já apanhou demais da vida.

Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça, ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes; acalentar e estancar todas as suas feridas e cicatrizá-las até que essa pessoa fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando.

Daí você espera por alguém que venha te curar, te salvar, te colocar no colo. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. Pior, às vezes você erra achando que esse alguém poderia te salvar e não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim a poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.

A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ser irremediavelmente golpeada em seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda, e então ela só seca as lágrimas e segue. Afinal, foi chorando que ela, você, eu e todos os outros vieram ao mundo.

Essa moça no fim das contas não somos todos nós? – passíveis de golpear alguém, sangrando por termos sidos golpeados. Armados e ainda assim tão frágeis e suscetíveis quanto cera em brasa ardente.

Rodrigo Lima Romano

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