Foi ali que a gente acabou

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Foi naquela esquina ali, moço. Ele foi embora e nunca mais voltou. Eu fiquei, recolhendo os cacos do que sobrou de nós dois, porque não sou de deixar lixo no chão. E nossa história morreu ali, pra nunca mais. Duas ou três pessoas estavam na rua e serviram de público do nosso espetáculo final, mas não houve aplausos porque a encenação deixou a desejar. Não houve gritos, choros, raiva, nem nada disso que casais fazem quando brigam. Aliás, a gente não brigou, só deixou de se amar. E acho que isso dói mais que qualquer grito.

Mas se eu pudesse te contar só um segredo, eu diria que volto lá uma vez por ano para ver se encontro. Pra ver se o amor se multiplicou. Se caiu perto de uma poça d’água e sobreviveu. Sei lá, qualquer coisa. É que uma partezinha de mim ainda acha que nossos caminhos vão se cruzar e coisa e tal. Uma parte de mim acha que qualquer dia eu esbarro com ele na mesma esquina. E a gente se abraça e esquece tudo.

É culpa da quantidade de desenhos de príncipes e princesas que eu vi na infância, moço. Mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tanta decepção, eu ainda espero o final feliz. Acho que tudo é uma questão de querer ter controle da minha história, sabe? Eu não aceito que uma coisa que eu queria tanto não conseguiu acontecer.

Mas me diz. Você, que vive por aí sem se agarrar a nada, já esbarrou com ele pelo mundo? Tá bem? Saudável? Inteiro? Meu maior medo, moço, sempre foi que ele quebrasse. Que não aguentasse. Que ficasse partido de novo, em pedacinhos, como no dia em que a gente acabou. E acho que é um pouco por isso que eu nunca fui atrás: chega uma hora em que a gente não quer ver quem a gente gosta sofrendo.

Eu sofri, moço. Mas também fiz sofrer e admito. É que todo mundo erra, e ama errado porque não sabe direito como é amar. E fala besteira. E não dá carinho quando devia. E tem dia que queria só ficar sozinho. Todo mundo, moço. E eu não sou perfeita. E naquele dia, quando ele foi embora daquela esquina, eu gritei pra ele nunca mais voltar. E ele não voltou, moço.

Nem sei porque tô te contando tudo isso, é que hoje eu sonhei com ele. E passei por aqui e vi aquela esquina. E meu passado voltou com tudo e me deu um murro no estômago. E eu tive que aceitar as escolhas que fiz e que deixei que fizessem por mim. E aí doeu de novo, doeu muito. Mas agora, moço, agora a vida continua. E eu vou pra outras esquinas, ver se o amor fugiu para alguma delas. Ver se encontrou um novo dono. Qualquer coisa. Porque é assim que a vida é. Não é, moço?

Karine Rosa

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