Carta aberta aos teus pedaços

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Escuta. É claro que eu poderia te copiar alguns haikais do Leminski ou te escrever dezenas de frases dúbias em um e-mail despretensioso. Mas se eu tiver que ser sincero em algum momento aqui, gostaria de usar papel e caneta para dizer logo que sim: tenho pensado em ti. Muito, e não apenas por aquele beijo no portão da sua casa. É que além de tudo, acho que você precisa mesmo de uma carta escrita à mão, sem volta, dessas que chegam de repente, baseadas em uma vontade urgente e algumas rasuras tradicionais.

Sei que fazem alguns dias e gostaria de ter escrito antes, é que estive viajando pelo interior das Gerais e o tempo me consumiu – mentira, o tempo é só um argumento prolixo usado em todas as desculpas injustificáveis. Tenho escrito pouco, é a verdade. Porque escrever é tirar um peso de você mesmo a cada linha preenchida. E nem sempre a gente está disposto a abandonar o que sente. Gosto de absorver, mais do que de registrar. Ainda assim, guarde essas palavras tardias contigo: que bom te ver de perto.

As pessoas precisam disso, te disse: do tato entre peles, da presença do corpo disposto, da saudade mútua tirada à prova, dois copos lagoinha cheios de cerveja sobre a mesa, um papo bom. E pronto. A cidade não parece tão sufocante como se mostra diariamente por todos os cantos, algumas fagulhas de vontade de fazer diferente se acendem na escuridão que ainda há pouco era apenas uma mancha sem sentido.

E não importa se a vida continua a mesma, se nos matamos com a porra daquele emprego de doze horas numa firma estatal ou se religiosamente bate à porta o fim do mês junto com o medo do futuro frustrante. Não importa porque é preciso ser feliz como um samba, mesmo que como um samba triste de vez em quando, mas ainda assim, como um bom samba.

Não se engane. Os caras vão continuar babando para os seus lábios de cinema, seu decote aberto e as cores vivas das suas tatuagens viciantes. Mas quem sabe um dia você deixe de se sentir um pedaço de carne pendurada no açougue nessas situações e perceba que talvez te reparem de outro ângulo.  Por exemplo, quando você bate os punhos na mesa abalada pela quarta cerveja, espreme os olhos fazendo os óculos deslizarem sem querer pelo nariz e desenha ruguinhas involuntárias de insatisfação na testa: como se pedisse uma pausa por atenção e fizesse uma súplica a contragosto por uma felicidade pequena, instantânea e sem máscaras.

Não é preciso saber muito de você para perceber o quanto é apaixonante.

Eu mesmo, sei apenas que seus sentimentos são mais altos do que o tom de voz que você usa para falar deles, que decorou todas as cenas de Doctor Who e que não importa se é em um boteco ou num casamento, você sempre vai chegar com fome. Sempre. Por conta própria, pude sentir também que você transpira uma vontade que me acerta pelas tabelas e possui um abraço tão bom que só foi possível descobrir de verdade mordendo os pedaços da sua boca.

Se eu tivesse que te escrever apenas um recado no espelho do banheiro, te pediria para não contar as horas ou os dias e deixar as janelas abertas. Quanto ao dilema de viver amores de plástico, nem tudo vale realmente a pena para não ficar só. Veja bem, a noite em Paris é muito bonita, certamente. Mas isso não significa muito quando a gente se sente estraçalhado para dividir um travesseiro em um hotel na Champs-Élysées, insone com o peso de não viver aquilo que a gente é. Entende?

Algumas coisas só fazem sentido quando são transformadas primeiro por dentro, não necessariamente apenas por fora. Você sabe, claro. Independente daquilo que permaneça ou se dissolva, não se esqueça de acreditar em pelo menos três certezas seguras da vida. Como diria o Marcelo Rubens Paiva: “o rock não morre, a história não tem fim, o amor não acaba”. Tudo apenas muda e com toda razão, já cantou o poeta.

Com carinho de quem te gosta,

Lucas Simões

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