Enquanto ela samba

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A madrugada sempre vem, sem atraso. Ela não, pois, vez ou outra, teima em não voltar para casa. Muitas vezes, ou quase toda noite, ela também atrasa, chega ofegante e, com olhos mentirosos, conta-me, com voz sedosa e hálito perfumado pelo sangue dos botecos, aquilo que, com docilidade de um bicho passivo, finjo acreditar e engulo sempre a seco, sem sequer regurgitar.

Eu a amo, mesmo quando ela não vem pra cama. Amo-a, mesmo quando ela vocifera calúnias sem conter as piscadas desenfreadas e até quando ela inventa que foi abduzida ou encarcerada por ter cometido crimes brutais, inafiançáveis. Em dias de esperança na mudança, eu a aguardo perfumado, penteado e, nas mãos, mesmo sem portar o quindim que a cura da rotineira embriaguez, carrego a compreensão em forma de cafuné e uma vontade incontrolável, quase incompreensível, de massagear-lhe os pés cansados de tanto samba e sarjeta.

Nas vezes que chega junto com o sol nascente, ela costuma entrar na ponta dos pés e eu, apesar de estar sempre acordado e agonizando sobre os espinhos invisíveis, porém afiados, do ciúme incontrolável, quando ouço aqueles passos leves: finjo dormir pesado, apenas para não frustrar-lhe os planos de manter-me como um cachorro domesticado.

Ela chega sempre com o sapato já em mãos, descalça, evitando assim, que o salto bata na madeira do chão e que por isso, acorde-me dos pesadelos que crio de olhos arregalados e consciência ligada, nos quais ela dança rente a outros homens e no fim, já na hora de partir, os beija no centro da boca faminta.

Ela nunca acende a luz. Caminha no escuro. Não esbarra em nada. Sorrateiramente, vai ao banheiro, tira o batom vermelho, dá descarga nos muitos litros de cerveja recém-consumidos e, apenas para o espelho atento, assume através de um longo sorriso, seu amor pelas marcas da noite.

Por fim, ela entra no quarto, ou melhor, flutua para cama que esquento enquanto ela esfria a palma da mão nas mesas bambas da vida. Ela logo se esconde sob o edredom e, aparentemente sem sensação culpa, cola o corpo no meu em busca de calor e de contato humano verdadeiro. Não abro nunca os olhos, pelo contrário, movido pela raiva: aperto as pálpebras. Sinto vontade de matá-la. No escuro, encho-me de ódio. Mas sempre consigo manter a calma e, no final, como um viciado quando reencontra a droga: esqueço do quanto ela me destrói e abraço-a, prometendo que, no dia seguinte, não estarei mais lá para ouvi-la chegar. Mentira. Talvez, eu morra a esperando sambar em outros braços.

Ricardo Coiro

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