Tempestade

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Ela virou, os olhos se cruzaram e foi isso.

Ela queria aquele homem para si. Desde o primeiro momento foi assim e nunca mudou.

Ele chegou em meio à tempestade. O ex finalmente cedeu e queria vê-la. Mandou mensagem de madrugada bêbado e, bom, todo mundo sabe o que significa mandar mensagem bêbado de madrugada. E ainda por cima a galeria tinha dito sim. Ela nem ofereceu, nem sabia se queria. Ela não achava que estava pronta, estava ali por outros motivos e a galeria simplesmente disse: vem. Expõe teus desenhos. Mostra o que quiser. Eram propostas pornográficas. As duas. Como dizer não? Como dizer sim? Qualquer resposta estaria errada. Ela não tinha nada, nem seus amigos. Ouviram, mas não sabiam o que dizer. Bons amigos que eram, na ausência de respostas, sabiam o que fazer: você vai sair com a gente hoje e não se fala mais nisso. Ela foi. Não se falava mais naquilo. Não falar mais nisso tinha virado um novo hobby, que ela cultivava com carinho.

Mas nada disso tinha importância agora, porque ele nunca deixou espaço para dúvida. Veio caminhando em sua direção e não houve tempo para um único pensamento. A maravilha de não pensar. Eram poucas coisas na vida que ela fazia sem pensar. Dirigir, dançar e transar. Momentos divinos, uma espécie de meditação, mas melhor, porque não precisava de concentração.

Deixar acontecer, até então, era um conceito abstrato. Mas ela queria acontecer. E acontecia. Por não querer mais nada, ela o teve por inteiro. Ele arrastava para falar, cada palavra durava uma vida. Ela se irritaria, normalmente, mas não. Tinha todo o tempo do mundo para que ele terminasse aquela frase. Aquele convite. Aquele huum. Não entendia porque ele insistia em perguntar, quando a resposta era sempre sim. Mas deixava-o falar, só para assistir a performance daquela boca.

E ele… Ele queria olhar. Experimentar. Usar. Ela queria o que viesse dele. E vinha. Vinham queijos e vinhos. Ordens e pedidos. Vinham silêncio e gestos. Ele preenchia lacunas. Era a mão, o pé, as coxas. Era braços, costas e panturrilhas. Ele via além da mulher bem resolvida, da moral e dos bons costumes. Ousava onde os outros hesitaram. Mordia onde os outros beijavam. Mandava, porque sabia mandar.

Ele veio assim, força da natureza, e arrasou com tudo. Botou por terra ex-amores e temores e quando terminou ela era recomeço.

E como veio, ele partiu. Partiu. E nunca mais voltou. Levou com ele Tim Maia, Alceu Valença e Cazuza. De quebra estragou para sempre Portishead.

Roberta Avila

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